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Capa do romance A Confeiteira da Revanche

A Confeiteira da Revanche

Diante de Lucas paralisado, revivo o trauma de uma vida passada. Antes, usei meu dom culinário curativo para salvar Clara Silva, mas fui traída e perdi meu irmão. Agora, o destino me trouxe de volta ao hospital. Quando Beatriz Silva liga com a mesma proposta enganosa, a ingenuidade dá lugar à frieza. Conheço o preço da mentira deles e, desta vez, não serei a ferramenta de cura daquela família. Minha vingança começa com um não que mudará nosso futuro.
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Capítulo 2

O cheiro de antisséptico do hospital era a primeira coisa que me atingia, um lembrete constante da minha nova realidade. Meu irmão, Lucas, estava deitado na cama, pálido, a parte inferior do seu corpo imóvel sob o lençol branco. Paraplégico. A palavra do médico ecoava na minha cabeça como uma sentença de morte.

Na minha vida passada, este foi o momento exato em que meu desespero começou. Foi o momento em que eu teria feito qualquer coisa, aceitado qualquer acordo, para encontrar uma cura para ele. E eu fiz. Eu aceitei a oferta da família Silva.

Meu dom era único, minhas sobremesas podiam curar. Elas traziam alegria, aliviavam dores e, em casos raros, revertiam doenças. Era uma habilidade que eu guardava com cuidado, mas a notícia se espalhou nos círculos certos. A família Silva, poderosa e rica, me encontrou. A filha deles, Clara, sofria de uma doença misteriosa que a impedia de andar. Eles me ofereceram uma fortuna, recursos ilimitados, a promessa de que, se eu curasse Clara, eles moveriam o céu e a terra para curar Lucas.

Eu acreditei neles. Dediquei cada minuto da minha vida a Clara, criando sobremesas complexas, usando toda a minha energia. E eu consegui. Clara voltou a andar. Mas a promessa deles era uma mentira. Assim que conseguiram o que queriam, eles me descartaram. Pior, eles viram meu dom como uma ameaça, um segredo que não podiam deixar vazar. Eles destruíram minha confeitaria, arruinaram minha reputação e, no final, garantiram que Lucas nunca recebesse o tratamento de que precisava. Ele morreu, e eu morri logo depois, com o coração partido e cheia de arrependimento.

Mas agora, eu estava de volta. O mesmo cheiro de hospital, a mesma cama, o mesmo Lucas pálido. A dor era a mesma, mas algo dentro de mim havia mudado. Eu não era mais a garota ingênua e desesperada. Eu era uma mulher que tinha visto o fim da estrada e recebido uma segunda chance.

Meu celular vibrou no bolso. Eu o peguei. O nome na tela fez um calafrio percorrer minha espinha.

Beatriz Silva.

A mãe de Clara. O começo do meu fim na vida passada.

Respirei fundo, o ar frio enchendo meus pulmões. O som dos monitores cardíacos de Lucas era a única coisa que quebrava o silêncio. Eu atendi.

"Alô?"

A voz de Beatriz Silva era suave, polida, mas carregada de uma urgência que eu conhecia bem.

"Senhorita Luana? Meu nome é Beatriz Silva. Eu sei que este é um momento terrível para você, e sinto muito pelo que aconteceu com seu irmão."

Mentiras. Ela não sentia nada.

"Eu obtive seu número através de uma fonte em comum. Ouvi falar do seu... talento único. Minha filha, Clara, está doente. Ela não consegue andar. Os médicos estão perdidos. Dizem que você pode fazer milagres."

Na minha vida passada, essas palavras foram como uma tábua de salvação. Agora, elas soavam como o veneno que eram.

Eu permaneci em silêncio por um momento, olhando para o rosto adormecido de Lucas. Eu faria tudo certo desta vez.

"Senhorita Luana, você está aí?"

"Estou," eu disse, minha voz firme, desprovida da hesitação que ela esperava. "E a resposta é não."

Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.

"Não? O que você quer dizer com não? Nós pagaremos qualquer preço. Qualquer coisa que você pedir."

"Não estou interessada," eu respondi friamente. "Meu irmão precisa de mim. Não tenho tempo para sua filha."

"Como você ousa?", uma nova voz, jovem e arrogante, soou no telefone. Clara. Ela deve ter arrancado o telefone da mão de sua mãe. "Você sabe quem nós somos? Nós podemos te dar tudo! Podemos curar seu irmão!"

Um riso amargo escapou dos meus lábios.

"Você não pode curar ninguém, Clara. E eu sugiro que você procure um médico de verdade. Talvez vários. Você vai precisar."

"Você está me ameaçando?", ela gritou, sua voz esganiçada.

"Estou te dando um conselho. Adeus, Clara."

Eu desliguei.

Pela primeira vez em muito, muito tempo, eu senti uma onda de poder, não do meu dom, mas da minha própria vontade. Eu estava no controle.

A porta do quarto se abriu e Pedro entrou. Meu melhor amigo, com seus olhos gentis e jaleco branco amassado. Ele era um jovem médico, cheio de ideais, e a única pessoa que esteve ao meu lado até o fim na minha vida passada.

"Luana? Eu soube do Lucas. Eu vim assim que pude. Como você está?"

Ele me olhou com preocupação, e pela primeira vez, eu não desmoronei.

"Eu vou ficar bem, Pedro. E o Lucas também vai."

Ele franziu a testa, confuso com minha calma.

"O telefone estava tocando," eu disse, mostrando o aparelho. "Eram os Silva. Eles queriam que eu curasse a Clara."

Os olhos de Pedro se arregalaram. Ele conhecia os rumores sobre meu dom, e também conhecia a reputação dos Silva.

"E o que você disse?"

"Eu disse não."

Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Pedro.

"Bom. Eles são problema. Fique longe deles."

"Eu vou," eu prometi. "Desta vez, eu vou."

Enquanto eu falava, uma senhora idosa que eu não tinha notado antes, sentada num canto do corredor, me olhou. Seus olhos eram escuros e profundos, cheios de uma sabedoria que parecia antiga. Era Dona Rosa, uma curandeira que vendia ervas no mercado local. Na minha vida passada, eu a ignorei. Desta vez, eu encontrei seu olhar e assenti levemente. Ela sorriu, um sorriso pequeno e conhecedor, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo. Um novo caminho estava se abrindo, e eu estava pronta para segui-lo.

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