
A Chamada de 67 Minutos
Capítulo 2
O funeral do meu pai foi num dia cinzento e sem chuva. O ar estava pesado, denso com uma tristeza silenciosa.
Eu estava de pé ao lado da minha mãe, a segurar a sua mão fria. Ela olhava para o caixão de madeira escura, o seu rosto pálido e sem expressão.
O Tiago, o meu marido, estava do outro lado, com a mão no meu ombro. Um gesto que deveria ser de conforto, mas que na minha pele parecia veneno.
Ele sussurrou ao meu ouvido.
"Clara, meu amor, estou aqui contigo."
Não me virei. Continuei a olhar em frente, para a terra remexida que em breve cobriria o meu pai para sempre.
A sua voz era um eco doentio da noite de terça-feira. A noite em que tudo acabou.
Eu estava na sala de estar, a ver televisão, quando ouvi um baque surdo vindo do quarto do meu pai. Corri para lá. Ele estava no chão, a mão no peito, a lutar por ar.
A primeira coisa que fiz foi pegar no meu telemóvel e ligar ao Tiago. O nosso apartamento ficava a apenas dez minutos da casa dos meus pais. Uma ambulância demoraria mais tempo.
A chamada foi para o correio de voz.
Liguei outra vez. E outra. E outra.
Nada.
Enviei uma mensagem, as minhas mãos a tremer tanto que mal conseguia escrever.
"Tiago, é o pai. Acho que é um ataque cardíaco. Preciso de ti agora. AGORA."
Enquanto esperava, tentei ajudar o meu pai. Ele olhava para mim, os seus olhos cheios de medo.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem do Tiago.
"Calma, Clara. Estou ocupado. A Sofia precisava de ajuda com as mudanças, o ex-namorado deixou-a na mão. Ligo-te mais tarde."
Ocupado. Ajudar a Sofia. A sua amiga de infância que estava sempre a precisar de alguma coisa.
Respondi de imediato.
"É uma emergência! O meu pai está a morrer!"
Liguei para a ambulância, a minha voz a falhar. Eles disseram que estavam a caminho.
A resposta do Tiago chegou cinco minutos depois. Cinco minutos que pareceram uma vida inteira.
"Não exageres. Deves estar em pânico. Ele tomou os comprimidos? Respira fundo. A Sofia está muito em baixo, não a posso deixar sozinha agora."
Naquele momento, o meu pai parou de respirar.
A cerimónia acabou. As pessoas começaram a dispersar-se, oferecendo condolências vazias.
O Tiago apertou o meu ombro com mais força.
"Vamos para casa, querida. Precisas de descansar."
Virei-me finalmente para ele. Olhei para o seu rosto, para a sua expressão de falsa preocupação.
"Não vou a lado nenhum contigo."
A minha voz saiu fria e firme, um tom que ele nunca tinha ouvido antes.
Ele franziu a testa, confuso.
"O que queres dizer? Claro que vamos."
"Não," eu disse, a minha voz a ganhar força. "Tu vais para casa. Ou para casa da Sofia. Não me interessa. Mas nós os dois acabámos."
Afastei a sua mão do meu ombro como se estivesse a queimar.
"Tiago, quero o divórcio."
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