
A Chamada de 67 Minutos
Capítulo 3
O rosto do Tiago passou da confusão para a incredulidade.
"Divórcio? Ficaste maluca? O teu pai acabou de morrer, não estás a pensar com clareza."
"Pelo contrário," respondi, a minha voz cortante. "Nunca pensei com tanta clareza em toda a minha vida."
A minha mãe, que até então estava em silêncio, virou-se para o Tiago. Os seus olhos, embora vermelhos de chorar, estavam cheios de uma nova dureza.
"Ela disse que quer o divórcio, Tiago. E eu concordo."
O choque no rosto dele era quase cómico. Ele sempre contou com o apoio da minha mãe, sempre a viu como uma aliada dócil.
"Dona Helena, a senhora não pode estar a falar a sério. A Clara está de luto, está a dizer coisas sem pensar."
"O meu marido morreu porque tu estavas demasiado ocupado para atender o telemóvel," disse a minha mãe, a sua voz a tremer de raiva contida. "Não há nada que a Clara diga agora que seja mais irracional do que isso."
De repente, uma voz suave interrompeu a nossa conversa.
"Tiago? Clara? Está tudo bem?"
Era a Sofia. Aproximou-se de nós, o seu rosto uma máscara de preocupação. Estava vestida de preto, mas de alguma forma conseguia parecer delicada e frágil, não enlutada.
"Sofia, agora não," disse o Tiago, claramente desconfortável.
Ela ignorou-o e pôs a mão no meu braço.
"Clara, lamento muito a tua perda. O teu pai era um homem maravilhoso."
Recuei instintivamente.
"Tira a mão de mim."
A Sofia pareceu magoada. Os seus olhos encheram-se de lágrimas.
"Eu só estava a tentar ajudar..."
"Ajudar?" A minha voz subiu, atraindo os olhares das poucas pessoas que ainda restavam. "Tu ajudaste o suficiente. Graças à tua 'ajuda', o meu pai está morto."
"Isso não é justo!" disse a Sofia, a sua voz a ganhar um tom de indignação. "Eu não sabia! O Tiago disse que não era nada de grave!"
O Tiago interveio, tentando controlar a situação.
"Clara, para com isso. Estás a fazer uma cena. A Sofia não tem culpa de nada."
Olhei de um para o outro. A equipa perfeita. O herói e a donzela em apuros.
"Tens razão," eu disse, a minha voz a voltar a ser gelada. "A culpa não é dela. É tua. Só tua."
Virei-me e comecei a afastar-me com a minha mãe.
"Clara, espera!" gritou o Tiago. "Não podes simplesmente ir embora assim! Temos uma vida juntos!"
Parei e olhei para ele por cima do ombro.
"Nós não temos nada. Tu destruíste tudo na terça-feira à noite."
Você pode gostar





