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Capa do romance A Carta Infeliz de Mentiras

A Carta Infeliz de Mentiras

Esperei dez anos para casar com Heitor, mas ele sempre tirava a carta do azar em um ritual, sofrendo punições cruéis. Ao vê-lo forjar o resultado para evitar nosso união, descobri a farsa: ele protegia a assistente, Ariela, e me culpava pelas mentiras dela. Abandonei tudo e me casei no Rio de Janeiro com outro. Agora, Heitor ressurge implorando perdão, enquanto uma Ariela insana o persegue com uma faca, pronta para destruir nosso recomeço.
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Capítulo 2

A voz da minha mãe me puxou de volta do abismo do desespero. "Laura? Você está aí? Como foi? Você e o Heitor finalmente vão se casar?"

Fechei os olhos com força, pressionando uma mão trêmula nos lábios para abafar o choro que ameaçava escapar. Eu não conseguia falar, nem uma única palavra. Minha garganta estava apertada, meu peito doía. O telefone parecia um peso de chumbo na minha mão.

"Laura?" Sua voz, geralmente tão forte, agora continha um tremor de preocupação. "Seu silêncio... ele tirou a carta do Azar de novo?" Ela fez uma pausa, um suspiro pesado do outro lado. "Eu entendo, querida. Eu realmente entendo. Mas, meu bem, isso não pode continuar. Você merece felicidade. Felicidade de verdade. Não este ciclo interminável de dor."

Suas palavras eram um bálsamo e uma ferroada. Dor. Sim, dor sem fim. Mas agora, eu sabia que não era o destino. Era uma escolha. A escolha dele.

"Seu pai e eu... mudamos completamente os negócios da família para o Rio de Janeiro agora", ela continuou, sua voz mais suave, quase suplicante. "É um novo começo para nós. E, querida, há alguém aqui... alguém que sempre te admirou. Ele é estável, gentil, e ele te valorizaria."

Eu ouvia, entorpecida. Caio Menezes. Minha mãe já o havia mencionado antes, um poderoso magnata do Rio, alguém que eu conheci brevemente quando criança. Eu havia descartado como um arranjo ocioso, nunca pensando que se tornaria minha rota de fuga desesperada.

"Pense nisso, Laura", minha mãe insistiu. "Você deu a ele tantos anos. Quatro anos dessa... dessa farsa. Você merece mais do que migalhas, meu amor."

Migalhas. Era exatamente com isso que eu estava vivendo. Restos de afeto, velados por mentiras. Minha visão embaçou. Quatro anos. Quatro anos esperando, acreditando, compartilhando seu sofrimento fabricado. Eu vim aqui hoje pronta para me sacrificar, para suportar sua penitência, apenas para descobrir seu elaborado engano. Eu desperdicei tanto tempo, tanto amor, em um fantasma de homem. O pensamento fez meu estômago revirar. Minha ingenuidade agora parecia um pesado manto de vergonha.

"Eu vou fazer isso, mãe", sussurrei, as palavras mal audíveis, mas firmes. "Organize. Eu vou me casar com o Caio."

Um suspiro aliviado fluiu pela linha telefônica. "Minha querida menina. Eu sabia que você era forte o suficiente para fazer a escolha certa. Eu cuidarei de tudo. Apenas... seja forte."

Desliguei, minha mão tremendo. A decisão estava tomada. Chega de incerteza. Chega de mentiras.

Eu sabia que Heitor estaria saindo da capela a qualquer minuto, pálido e enfraquecido por sua penitência auto-infligida. Vi Bruno direcionando os paramédicos para trazerem uma maca. Meu coração se contorceu. Uma parte de mim, a velha e ingênua Laura, ainda queria correr para ele, para confortá-lo. Mas a nova Laura, aquela que acabara de testemunhar sua traição, se conteve. Enxuguei as lágrimas do meu rosto, forçando minha expressão a uma máscara de calma. Ele não me veria desmoronar. Não agora. Nunca mais.

Ele emergiu, apoiado por dois homens fortes, seu rosto gravado com a dor familiar, seus olhos vidrados de exaustão. Ele me viu, e um lampejo de pânico cruzou seu rosto. Ele claramente não esperava que eu estivesse lá, ou que estivesse tão composta.

Eu apenas dei a ele um sorriso pequeno e apertado. "Você parece cansado, Heitor", eu disse, minha voz surpreendentemente firme.

Ele soltou um suspiro trêmulo, uma onda de alívio o invadindo. Ele deve ter pensado que eu não tinha visto nada. "Laura", ele sussurrou, sua voz fraca. "Eu te disse para não vir. Não quero que você me veja assim." Ele tentou me alcançar, mas seus braços estavam fracos demais. "Sinto muito, meu amor. Mais um ano. Eu prometo, no próximo ano, finalmente nos casaremos."

Meu sorriso não vacilou, mas por dentro, eu zombei. Próximo ano? Não haverá um próximo ano, Heitor. Não para nós.

Os paramédicos o colocaram gentilmente na maca. Ele parecia tão vulnerável, tão patético, mas meu coração permaneceu um bloco de gelo. Fomos colocados no carro da família para a viagem ao hospital. Ele deitou a cabeça no meu ombro, sua respiração superficial. "Foi tão difícil desta vez, Laura", ele murmurou, sua voz como a de uma criança. "Mas pensar em você... me fez superar."

Olhei para os vergões frescos em suas costas, as linhas vermelhas raivosas cruzando sua pele pálida. Uma onda de ironia amarga me invadiu. Toda essa dor, auto-infligida por uma mentira. Era uma paródia grotesca do amor.

Bruno, sentado à nossa frente, olhou para Heitor com uma mistura de pena e exasperação. "Não a deixe esperar muito, Heitor", disse ele, sua voz baixa, mas firme. "Algumas mulheres não esperam para sempre, mesmo por um Lacerda."

Heitor riu fracamente. "A Laura? Ela esperaria por mim até o fim dos tempos. Ela sabe que eu valho a pena. Certo, meu amor?" Ele apertou minha mão, seu olhar inquisitivo.

Eu simplesmente afaguei sua bochecha, oferecendo outro sorriso vazio. Você acha, Heitor? Você está prestes a descobrir o quão errado está.

No hospital, eles o levaram para um quarto particular. Sentei-me na sala de espera, minha mente entorpecida, repassando a cena na capela, a conversa entre Heitor e Bruno. As peças do quebra-cabeça se encaixaram, formando uma imagem de manipulação e traição que era quase dolorosa demais para compreender.

Ele finalmente se acomodou em seu quarto, parecendo um pouco melhor depois de receber soro e analgésicos. Ele alcançou minha mão, seus olhos cheios de uma ternura fabricada. "Senti sua falta, Laura. A cada segundo desta penitência, eu pensei em você."

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com um estrondo. Ariela Vargas estava lá, seus olhos vermelhos e inchados, seu cabelo geralmente arrumado, desgrenhado. Ela parecia frenética, em carne viva. Meu sangue gelou, reconhecendo o rosto da minha algoz.

"Heitor! Oh, Heitor!" ela chorou, correndo para o lado dele, praticamente me empurrando. "Por que você fez isso de novo? Por que continua se punindo por ela? Você sabe o quanto eu te amo! O quanto eu preciso de você!"

Heitor se encolheu, seus olhos disparando para mim, um flash de pânico em suas profundezas. "Ariela, o que você está fazendo aqui? Saia!" ele sibilou, sua voz surpreendentemente forte apesar de seus ferimentos.

"Sair?" A voz de Ariela se elevou, carregada de histeria. "Depois de tudo que eu fiz por você? Depois de todos esses anos que estive ao seu lado, vendo você sofrer, enquanto ela vive sua vida perfeita, esperando que você pule por arcos? Você não vê, Heitor? Ela não vale a pena! Ela nunca esteve lá por você como eu estive! Ela não te entende, não como eu entendo!"

Ela agarrou a mão dele, segurando-a desesperadamente. "Apenas desista dela, Heitor! Por favor! Deixe-a ir. Você pertence a mim. Você sabe que pertence. Você está cansado disso, não está? Dessa farsa interminável por uma mulher que não aprecia verdadeiramente seus sacrifícios?"

Heitor arrancou sua mão, seu rosto endurecendo em uma máscara de pura fúria. "Como você ousa, Ariela? Como ousa falar assim da Laura? Ela é minha noiva, minha futura esposa! Eu a amo! E eu só me casarei com ela! Você não é nada além de minha funcionária, e você vai se lembrar disso!" ele rugiu, sua voz ecoando pelo quarto.

Ariela recuou, seu rosto ficando pálido. Seus olhos, cheios de lágrimas, pareciam completamente desolados. "Mas... mas você disse..." ela engasgou, sua voz mal um sussurro.

"Eu não disse nada!" Heitor retrucou, seu olhar queimando nela. "Vá! Saia daqui agora mesmo! Se você disser mais uma palavra contra a Laura, você está demitida! Você me entendeu?"

Ariela cambaleou para trás, sua mão voando para a boca, seus olhos arregalados de dor e incredulidade. Ela balançou a cabeça lentamente, uma única lágrima traçando um caminho por sua bochecha pálida, e então ela se virou e saiu correndo do quarto, um soluço estrangulado escapando de seus lábios.

Heitor a observou ir, sua mandíbula tensa. Então, como se um interruptor tivesse sido acionado, ele se virou para mim, seu rosto suavizando, uma ternura forçada retornando aos seus olhos. "Sinto muito, meu amor", ele murmurou, alcançando minha mão. "Ela está apenas... um pouco emotiva demais. Ela não quis dizer isso. Você sabe que eu só tenho olhos para você."

Deixei-o segurar minha mão, mas meu olhar se desviou para a outra mão dele, a que Ariela havia segurado. Seus dedos, geralmente tão relaxados, ainda estavam firmemente enrolados, os nós dos dedos brancos sob a pele. Um lampejo de algo - não raiva, mas uma emoção profunda e complexa - passou por seus olhos quando ele olhou para Ariela. Não era o olhar de um homem que sentia apenas pena por uma funcionária. Era o olhar de um homem que estava profunda e inextricavelmente envolvido.

Lembrei-me de Heitor rindo comigo, prometendo-me a lua e as estrelas, e senti uma nova onda de náusea. Ele costumava ser tão aberto, tão direto. Nós costumávamos compartilhar tudo. Eu costumava pensar que o conhecia melhor do que ninguém. Ele era minha rocha, meu primeiro e único amor. Agora, eu via um estranho. Um homem manipulador que podia mudar suas emoções como uma luz.

"Heitor", eu disse, minha voz plana, "há quanto tempo a Ariela é sua assistente?"

Ele enrijeceu, afastando um pouco a mão. "Ah, sabe, alguns anos. O tempo voa." Ele riu, um som nervoso e forçado.

"Quantos?" insisti, meu olhar inabalável.

Ele hesitou, depois suspirou. "Talvez... seis anos? Por aí. Mas ela é apenas uma assistente, Laura. Você sabe como meu trabalho é exigente. Ela cuida de todas as coisas mundanas."

Seis anos. Não oito, como Bruno havia dito. Bruno, que o havia avisado. Bruno, que havia chamado de manipulação. Bruno, que havia chamado de farsa por quatro anos.

"Entendo", eu disse, uma calma arrepiante se instalando sobre mim. "E se ela continuar a causar problemas?"

Ele estufou o peito, um flash de sua antiga arrogância retornando. "Então eu a demitirei, é claro. Imediatamente. Ninguém desrespeita minha noiva."

Suas palavras eram frias, afiadas, mas não tinham peso para mim. Meu coração, ainda se recuperando da traição anterior, agora parecia um bloco de gelo. Ele estava mentindo. Ele estava mentindo para Ariela, e estava mentindo para mim. Ele nunca a demitiria. Ele estava muito ligado a ela, por culpa, por obrigação, ou por algo muito mais profundo que ele se recusava a reconhecer. Ele a manteve por perto, permitiu que ela acreditasse em uma versão distorcida da realidade, tudo isso enquanto me enrolava com promessas vazias.

O homem diante de mim era uma casca vazia do Heitor que eu conhecia. Um mestre do engano, tecendo uma teia emaranhada de mentiras e emoções fabricadas. Ele não apenas me amava menos; ele me amava de forma diferente dela. E essa diferença era um abismo que eu não podia mais transpor.

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