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Capa do romance A Carta Infeliz de Mentiras

A Carta Infeliz de Mentiras

Esperei dez anos para casar com Heitor, mas ele sempre tirava a carta do azar em um ritual, sofrendo punições cruéis. Ao vê-lo forjar o resultado para evitar nosso união, descobri a farsa: ele protegia a assistente, Ariela, e me culpava pelas mentiras dela. Abandonei tudo e me casei no Rio de Janeiro com outro. Agora, Heitor ressurge implorando perdão, enquanto uma Ariela insana o persegue com uma faca, pronta para destruir nosso recomeço.
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Capítulo 3

Uma sensação sufocante me pressionou. Eu não conseguia respirar o ar daquele quarto de hospital, denso com as mentiras de Heitor e os apelos desesperados de Ariela. Murmurei algo sobre precisar de ar fresco e praticamente corri para fora, deixando Heitor com uma expressão confusa e magoada. Bom. Ele merecia.

A cidade lá fora era um borrão enquanto eu chamava um táxi, minha mente uma bagunça caótica de imagens e palavras. Quatro anos. Ariela. Ela não suporta a ideia de eu me casar com outra pessoa. Você deve a ela. Cada frase era uma nova facada no meu coração.

Quando finalmente cheguei ao meu apartamento, desabei no chão de madeira frio, a força se esvaindo dos meus membros. Lágrimas, quentes e furiosas, escorriam pelo meu rosto, borrando os contornos familiares da minha sala de estar, o cômodo que eu um dia enchi com sonhos de um futuro compartilhado com ele.

Enquanto eu procurava minhas chaves, um pequeno chaveiro de couro gasto escorregou da minha bolsa e caiu no chão. Era um presente de Heitor, anos atrás. Anexada a ele estava uma foto desbotada de nós no colégio: dois adolescentes sorridentes, nossos braços um ao redor do outro, a cabeça dele aninhada na minha. Estávamos no baile anual da escola, nossos olhos brilhando com adoração inocente. Ele havia sussurrado "para sempre" naquela noite, seu hálito quente contra minha orelha. "Nós sempre estaremos juntos, Laura. Você é meu destino."

Tracei seu rosto sorridente com um dedo trêmulo, lembrando da alegria pura e inalterada daquele momento. Ele tinha sido tão sincero, tão devotado. O que aconteceu com aquele garoto? Quando ele se tornou este homem emaranhado e enganador? A percepção de que ele havia, conscientemente e repetidamente, escolhido me machucar, construir nosso futuro sobre uma base de mentiras, era uma dor física. Ele havia permitido que Ariela, sua assistente patética e manipuladora, se infiltrasse em seu coração, tornando-a a guardiã de sua culpa e obrigação. Ele a deixou envenenar nosso amor. E eu, como uma tola, engoli cada gota amarga.

"Não", sussurrei, a palavra um som cru e gutural arrancado da minha garganta. "Chega."

Meu destino não era estar amarrada a um homem que me via como um fardo a ser apaziguado enquanto ele administrava as emoções de outra mulher. Meu destino não era um futuro construído sobre dor fabricada e promessas vazias. Meu destino estava em minhas próprias mãos. Eu estava indo embora. Eu ia para o Rio de Janeiro. Eu ia me casar com o Caio.

O pensamento de nunca mais voltar, de deixar esta vida, esta cidade, este apartamento para trás, era ao mesmo tempo aterrorizante e libertador. Era a única maneira de cortar verdadeiramente os laços que me prendiam a Heitor e suas mentiras.

Levantei-me, enxugando as lágrimas com as costas da mão. O tempo de chorar havia acabado. O tempo de agir havia começado. Comecei a esvaziar sistematicamente meu apartamento, cada item uma lembrança pungente de uma vida que agora havia acabado. Cada fotografia, cada presente, cada memória compartilhada foi cuidadosamente colocada em caixas. O processo foi agonizante, uma escavação brutal do meu coração. Heitor estava tão entrelaçado no tecido da minha vida, cada canto deste apartamento continha um pedaço dele. Até o simples ato de escolher uma caneca favorita parecia um ato de traição contra meu eu passado. Como eu poderia descartar tanta história? Tanto amor?

Mas eu tinha que fazer. Eu tinha que arrancá-lo. Cada pedaço.

Decidi até vender o apartamento. Era a única maneira de fazer um corte limpo, de garantir que não houvesse nenhum vestígio remanescente do nosso passado compartilhado. Este ato físico de desmantelar minha vida era um espelho da cirurgia emocional que eu estava realizando em mim mesma.

Nos dias seguintes, Heitor enviou uma enxurrada de mensagens e ligações. "Você está bem, meu amor?" "Por que você não está respondendo?" "Sinto sua falta." "Posso ir aí?" Eu li todas, um distanciamento frio se instalando em meu âmago. Respondi com respostas curtas e vagas, alegando que estava ocupada empacotando, cansada, ou apenas precisava de espaço. Ele aceitou, sempre aceitando minhas desculpas, nunca pressionando demais, confiante em minha devoção inabalável. Sua confiança solidificou minha resolução. Ele realmente acreditava que me possuía.

Depois do turbilhão de vender o apartamento e arranjar tudo com minha mãe, os papéis legais e documentos para minha nova vida estavam quase completos. Naquela noite, assim que terminei de assinar a última papelada da venda do apartamento, meu telefone tocou. Era Heitor.

"Laura! Meu amor! Adivinha? Saí do hospital!" Sua voz era leve, alegre, como se nada tivesse acontecido. "E eu tenho a surpresa mais incrível para você! Precisamos recuperar o tempo perdido. Nosso aniversário está chegando, lembra? Tenho algo especial planejado."

O aniversário. Nosso décimo ano. Uma década de um amor que agora, para mim, não passava de cinzas.

"Onde você está?" perguntei, minha voz calma, quase sem emoção. Meu coração não palpitou. Era uma batida fria e constante. Era isso. O ato final.

"Estarei aí em vinte minutos", disse ele, parecendo satisfeito. "Apenas me diga para onde ir. E se prepare, algo incrível está por vir!"

"Não precisa", respondi, um fantasma de sorriso tocando meus lábios. "Vou te poupar a viagem. Na verdade, estou no nosso antigo lugar, aquele onde você me disse que me amava pela primeira vez." Dei a ele o endereço do restaurante, o mesmo lugar onde nosso jovem amor havia florescido. Parecia apropriado. O começo e o fim.

Isso não era mais sobre uma surpresa. Era sobre encerramento. Para mim, pelo menos. Ele não tinha ideia do que estava por vir.

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