
A Bastarda
Capítulo 2
༺Ayra༻
Oito anos antes...
No porão sombrio e úmido, eu abaixei a alça do vestido e sentei no chão empoeirado da forma como a minha tia ordenou. Dobrei os meus joelhos e abracei as minhas pernas, pois tia Lúcia não queria deixar marcas evidentes para que o meu pai não observasse os hematomas.
— Por que vou apanhar, tia Lúcia? — Meu coração estava batendo forte.
Eu tinha 10 anos e não compreendia porque tudo o que acontecia naquela casa era culpa minha.
— Não se faça de boba, Ayra! — Ela puxou a minha orelha e torceu. — Você não é mais uma criancinha!
— Ai, ai, ai! — berrei de tanta dor.
Tia Lúcia pegou o cinto e dobrou ao meio.
Eu fechei os olhos, preferia pensar que estava brincando em um parque com o meu primo Jensen.
Os toques desesperados na porta me salvaram por alguns segundos.
Na minha mente, eu imaginava que um dia a minha mãe voltaria para me buscar e me levar para um lugar bem longe dessa fazenda.
Escutei os passos que se chocavam contra o chão de madeira até os degraus que levavam para a porta. Abri os meus olhos ao ouvir a voz de Jensen.
— Tia, a culpa não é dela! Eu subi na cadeira para pegar o sorvete e caí. — A voz infantil de Jensen falou sem dar pausa.
Naquele dia, o meu primo pediu a dona Jussara, cozinheira, que nos desse sorvete, mas ela disse que estava perto do almoço e que não queria arrumar problemas com a tia Lúcia.
Jensen era muito teimoso, assim que nós ficamos a sós na cozinha, ele puxou a cadeira e foi direto para a geladeira onde pegou o pote de sorvete de baunilha e depois, cismou em pegar os potes no armário que ficava no alto da parede. Ele esticou-se até ficar na pontinha dos pés, de repente ouvi um estrondo e em poucos segundos, Jensen estava caído ao chão, gritando de dor.
No momento em que a Tia Lúcia e a mãe do Jensen viram, correram para socorrê-lo. Meu primo quebrou o braço e como sempre, a minha madrasta espremeu os olhos e mordeu a língua ao me encarar. Naquele momento eu já sabia que a culpa seria minha.
— Eu fico de castigo no lugar da Ayra! — Jensen insistiu.
Era isso que ele pensava, que tia Lúcia queria apenas me deixar de castigo naquele lugar escuro, cheio de teias de aranhas. Se fosse apenas isso, eu ficaria mais tranquila.
A calma tomou conta de mim no instante que ouvi a porta se fechar e as vozes diminuírem. Torci para que o meu primo convencesse a tia Lúcia que a culpa não era minha.
Continuei agachada na mesma posição. Por dentro, eu torcia para que o meu pai chegasse e perguntasse por mim. Talvez, ele conseguiria acalmar a fera.
O ruído da porta se abrindo fez meu corpo arrepiar e meus batimentos cardíacos acelerarem. Se a minha mãe estivesse aqui, daria uma surra nessa mulher.
Um puxão de cabelo fez minha cabeça deitar para o lado, senti as unhas cravando em minha nuca.
— Não grite, sua pirralha!
Puxou mais ainda as mechas dos meus cabelos, desfazendo as minhas tranças.
— Está doendo, tia! — Eu disse entre soluços.
Contive o grito, mas estava doendo muito.
— Já falei para calar a boca, sua bastarda filha de uma puta!
Senti o golpe da mão fechada contra o lado esquerdo da minha cabeça. Por um instante, eu vi tudo embaçado. Escutei um zumbido estranho no meu ouvido que durou por alguns segundos.
A dor do primeiro golpe do cinto nas minhas costas, me fez encolher. Eu abracei ainda mais as minhas pernas e fechei os olhos, permitindo que as lágrimas escorressem pelo canto dos meus olhos.
No segundo golpe, eu senti o couro batendo mais forte e a ponta da fivela do cinto arranhando a minha pele.
Fiz uma prece silenciosa para que aquele suplício acabasse de uma vez. Na quinta cintada, meu corpo tremia, eu já estava ficando sem forças.
“Não posso gritar!”
Outra lapada em minha cabeça. Caí para o lado e então, me sentei novamente, abraçando os meus joelhos.
Posso ouvir as respirações rápidas da tia Lúcia. Apesar da fúria, ela está se cansando.
“Não posso reagir!”
Mais um golpe do couro contra as minhas costas que estava queimando pelo inchaço causado por tamanha brutalidade.
“Não posso me mexer!”
Finalmente, batidas desesperadas na porta interrompem as pancadas.
— Abra logo isso, Lúcia! — A mulher do outro lado tocava desesperadamente na madeira. — Desta vez eram os gritos de Angélica, mãe de Jensen e irmã da tia Lúcia.
— O carro do Benjamin já passou pelos portões!
O meu pai era um homem respeitado na cidade cortada por dois rios. Benjamin tinha uma fazenda e, além dos empreendimentos, ele era dono de terras em Barra do Piraí. O homem era próspero, todavia, ele não tinha o que sempre desejou: um herdeiro. Eu era a filha bastarda do homem que sempre desejou ter um filho para cuidar de seu legado.
Minha tia me levantou pelos cabelos e puxou a alça do meu vestido. Tirou o casaco dela e colocou nas minhas costas, escondendo as marcas causadas por sua frustração.
— Enxugue logo esse rosto, sua bastarda!
Limpei as lágrimas com a palma das minhas pequenas mãos enquanto fungava e engolia o choro.
— Depressa, ande mais rápido!
Mesmo sem forças, me obriguei a acompanhar os passos de tia Lúcia até a escada. Ela destrancou a porta e depois, girou a maçaneta.
— O que você fez com a menina, Lúcia?
— Não se meta!
— Você não precisava fazer isso com a menina! — A mulher de cabelos castanhos me olhou com certa piedade.
— Cala essa boca, Angélica! Leva essa garota para o banheiro do segundo andar. A Maya sabe o que fazer.
Eu mantive a cabeça baixa enquanto caminhava. De repente, o Jensen apareceu no corredor com o braço engessado.
— Ayra, você está triste?
— Deixa ela, meu filho! — pediu a voz bondosa de Angélica enquanto continuávamos andando. — Espere na cozinha! — Fez um carinho nas mechas castanhas de Jensen. — Daqui a pouco, eu vou te dar sorvete!
...
Maya abriu a porta, tocou em meus ombros e sorriu para a Angélica.
Eu entrei em silêncio e fui direto para a banheira que já estava cheia. A minha pele ardia, mas eu sabia que logo aquilo tudo passaria. Segurei as bordas da banheira enquanto a Maya cantava.
♬♩"Existe um lugar onde as nuvens são feitas de algodão e uma menina, com as tranças perfeitas, corre livremente pelo campo de girassóis.'' ♪♫
Mesmo com os olhos cheios de lágrimas, Maya jogou a água sobre os meus ombros e continuou a cantarolar como um anjo. Ela tem a pele morena avermelhada. Às vezes, eu finjo que ela é a minha mãe.
Os meus olhos pequenos se concentravam no espelho enquanto a Maya continuava lavando os meus cabelos bem escuros. Sou a mistura de índia com branco. A Angélica uma vez disse para o Jensen que sou mameluca.
— O que é mameluca? — indaguei para esquecer da dor.
Maya deslizou a esponja pelas minhas costas e não respondeu.
— A senhora também não sabe?
— Você é mestiça, menina! — Ela jogou a água misturada com sal em minhas costas.
Eu tomava banho de salmoura desde a primeira surra que eu levei aos cinco anos.
Maya é responsável por cuidar de mim. A tia Lúcia ameaçava despedi-lá se ela contasse sobre as surras ao meu pai. A Maya tinha dois filhos e era casada com o Pedro, o tratador de cavalos. Para uma indígena, não era fácil encontrar um emprego de um dia para o outro. Ela não podia perder esse trabalho na fazenda.
— Você precisa comer rápido, Ayra! — Ela desenrolou a toalha, pegou o pote pequeno e retirou a tampa. — Depressa, menina! — Me deu três bolinhas de feijão misturado com farinha.
Eu estava com tanta fome que comi rápido.
A tia Lúcia não me deixou almoçar naquele dia e provavelmente, eu ficaria sem jantar.
Após me enxugar e colocar o casaco e calças do pijama de flanela, eu saí do banheiro e segui a mulher de cabelos longos até o lugar onde eu dormia.
Fiquei encarando o céu estrelado através da janela aberta enquanto ela arrumava o colchão. Não havia quarto disponível para mim naquela casa, eu dormia no sótão. Eu diria que a luz do luar era encantadora e tudo mais se não estivesse furiosa com o Jensen que estava na cozinha comendo sorvete após o jantar.
Os ruídos das batidas fizeram Maya arregalar os olhos. Ela pediu para eu fazer silêncio e foi atender a porta. Corri para a cama e me enfiei embaixo das cobertas
— O que faz aqui? — questionou Maya entre sussurros. — Vá para o seu quarto, Jensen!
— Eu trouxe sorvete para a Ayra!
Ele passou feito um furacão e parou ao lado do colchão. Eu estava deitada de bruços. Fechei os olhos e fingi que estava dormindo.
— Acorda, Ayra! — Jensen tocou nas minhas costas. — Trouxe sorvete! — As mãos pequenas me sacudiram mais uma vez.
Suportei a dor, mas não respondi.
— Ela está cansada. Vá para o seu quarto, Jensen!
Embora soubesse que eu não estava dormindo, ele não insistiu. Jensen suspirou e então, saiu do sótão.
Eu gostava do meu primo. Jensen e os filhos da Maya eram os únicos que não me chamavam de bastarda. Em dias bons, nós corríamos pela fazenda, tomávamos banhos no riacho que cortava a propriedade e às vezes, o seu Pedro nos deixava andar a cavalo.
Você pode gostar





