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Capa do romance A Bastarda

A Bastarda

Ayra carrega cicatrizes que a moldaram, mas agora enfrenta a ambição de seu primo Jensen. Sob o pretexto de protegê-la de um perigo iminente, ele tenta controlar seus passos para garantir a herança da família. Desconfiada, ela acredita que o zelo dele visa apenas as propriedades que herdou. Enquanto Jensen usa a sedução para recuperar o que julga ser seu, a jovem bastarda precisa lutar para manter seu patrimônio e sobreviver aos jogos de poder.
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Capítulo 3

★ 𝘑𝘦𝘯𝘴𝘦𝘯 ★

Eu ainda não me lembro do que aconteceu no dia que tia Lúcia levou a Ayra para o porão depois que cheguei em casa com o braço engessado.

Nós tínhamos combinado de brincar no balanço e depois, nós íamos caçar vaga-lumes, mas a tia Lúcia colocou a minha prima de castigo.

Após o jantar, corri até o corredor e vi a mamãe levando a Ayra para o quarto. Eu juro que teria ficado de castigo no lugar dela, mas não foi possível.

Naquela mesma noite, eu comi sorvete e repeti para a minha mãe o que eu disse o dia todo: "A Ayra não fez nada!" Por mais que eu dissesse a verdade, não adiantava.

— Onde está a minha filha?

Tio Benjamin apareceu na cozinha.

— Ela já foi para a cama, — respondi. — Posso levar sorvete para Ayra? — perguntei ao homem alto.

— Jensen, não incomode seu tio com isso, meu filho!

— Deixa o garoto levar!

Minha mãe pegou uma cuia pequena e uma colher. Ela colocava algumas bolas do sorvete de baunilha enquanto meu tio falava algo no ouvido da minha mãe.

— Espere, Ben! — Ela disse. — Tenho que colocar o Jensen para dormir e a minha irmã está te esperando.

— Lúcia já está roncando! Coloquei umas gotinhas daquele calmante especial que você indicou. — Ele puxou a cadeira e sentou-se à mesa.

— Por que ela tomou remédio? — Olhei para a minha mãe.

Tio Benjamin vivia brigando com a esposa dele.

— Ela estava com muita dor de cabeça. Leve o sorvete para Ayra e vá para o seu quarto, amanhã você tem aula!

Eu estava feliz porque poderia pedir desculpa e entregar o sorvete para a minha prima; contudo, as coisas não saíram como eu esperava. Ayra estava tão cansada que nem mesmo acordou.

Saí do quarto dela e atravessei o corredor. Minha mãe não estava mais na cozinha, nem o tio Ben. Aproveitei para comer o sorvete todo e coloquei o pote em cima da mesa.

Fui para o quarto e fechei a porta. Deitei na minha cama, porém, o cricrilar dos grilos incomodava, eu não conseguia dormir. Peguei a revista em quadrinhos do Homem Aranha e comecei a ler.

No quarto ao lado, eu ouvi barulhos estranhos. Imaginei que minha mãe estivesse passando mal. Pulei da cama e coloquei o ouvido na parede, ela estava gritando.

— Acho que casei com a irmã errada!

Eu me afastei da parede logo que ouvi a voz do tio Benjamim.

Voltei para debaixo das cobertas, mesmo colocando o travesseiro na cabeça, eu escutava os gritos de mamãe.

— Você está me matando, Ben! — Minha mãe berrou.

Eu saí da cama e, mesmo com o braço engessado, eu peguei o meu taco de beisebol. Abri a porta e fui até o quarto ao lado. Girei a maçaneta com dificuldade e assim que passei pela porta, vi o tio Benjamin se mexendo em cima da minha mãe enquanto ela chorava.

— Larga a minha mãe! — Tentei bater com o taco nas costas dele.

O meu tio se mexeu e caiu para o outro lado da cama.

— O que está fazendo moleque? — Ele tirou o taco da minha mão e me empurrou.

Minha mãe se enrolou rapidamente no lençol, entrou na minha frente e pegou minha mão antes que o tio Benjamin me desse um tapa. Ela abriu a porta e pediu que eu esperasse no quarto que estava tudo bem.

— Mas mamãe, ele estava machucando você!

— Não filho, foi só um pesadelo! — Explicou ela em tom ofegante. — Vá para o seu quarto e deite na cama. Você precisa descansar porque amanhã você tem prova.

...

Hoje, eu sei o quanto inocente eu era. Cheguei aos meus quinze anos e aquela porra de pesadelo se repetiu até que numa tarde, a Lúcia chegou mais cedo do médico e os surpreendeu. Minha tia deu uma surra na mamãe.

Lembro da minha mãe chamando a minha tia de estéril e contando que ela estava carregando o herdeiro daquela fazenda. Corri para bem longe daquela confusão. Meu refúgio era uma árvore repleta de folhas verdes perto do riacho onde Ayra costumava colocar os pés.

— Oi!

— O que faz aqui, Jensen?

— Não sabia que o lugar era privado!

Deitei-me no gramado ao lado de Ayra.

— A tia Lúcia descobriu! — Respirei pesadamente.

— Uma hora isso ia acontecer. — Ayra tocou as pétalas de um rosa-branca.

Apesar de estar quente naquele dia, ela usava um vestido de manga que tapava as costas. Nem mesmo nos dias ensolarados de verão, ela deixava de usar aquelas roupas.

— Vou morar com o meu pai em São Paulo!

— Que bom! — Ela sorriu. — Um dia, eu vou para lá! A Maya disse que a minha mãe deve estar por lá.

Ayra sempre falou sobre isso. Diariamente, ela procurava por trabalho. Ela estava sempre fazendo algum serviço para poupar dinheiro e ir para São Paulo.

— As escolas de lá são melhores e têm mais garotas, — comentei.

Os dedos dela arrancavam as pétalas da rosa que lentamente se desfazia. Ayra sacudia os pés nas águas cristalinas fazendo barulho.

Puxei ela para baixo, deitando-a ao meu lado. Meus olhos ficaram presos ao dela. Ayra tem belas pupilas cor de âmbar. Seus cílios espessos piscavam sem parar. Eu tentei fazer um carinho em seu rosto, porém, ela se esquivou amedrontada.

— Não vou te machucar!

— Por favor, saia de cima de mim! — Ela pediu com voz trêmula.

Sem pensar, eu pressionei os meus lábios contra os dela, num beijo rápido. Ayra me empurrou e enfiou a mão na minha cara.

— Nunca mais faça isso! — Ela saiu correndo, desesperada.

Toquei em meu rosto que ardia e sentei-me na grama.

— Está na hora de sair dessa merda! — Levantei e taquei a pedra o mais longe que podia.

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