
A Ascensão de Clara: Do Gesso ao Sucesso
Capítulo 2
Quando acordei do coma, o quarto do hospital estava silencioso, apenas o som do monitor cardíaco apitava ritmicamente.
A primeira coisa que vi foi o rosto ansioso da minha mãe, os seus olhos vermelhos e inchados.
"Mãe, onde está o Pedro?" A minha voz saiu rouca, quase um sussurro.
O corpo da minha mãe enrijeceu. Ela evitou o meu olhar e forçou um sorriso.
"Ele... ele está ocupado. A empresa tem estado muito ocupada ultimamente."
Eu sabia que ela estava a mentir.
Tentei mexer-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo. Olhei para baixo e vi as minhas pernas, envoltas em gesso grosso.
A memória do acidente de carro voltou como uma inundação. O som de metal a rasgar, o cheiro a borracha queimada e a última coisa que vi antes de desmaiar, o Pedro a proteger a sua ex-namorada, a Sofia, enquanto o carro vinha na nossa direção.
Eu era a sua noiva. Estávamos a caminho para experimentar o meu vestido de casamento.
"Mãe, o meu telemóvel."
Ela hesitou, mas acabou por me entregar o aparelho.
As minhas mãos tremiam enquanto eu o desbloqueava. Havia dezenas de mensagens não lidas e chamadas perdidas dos meus amigos, mas nenhuma do Pedro.
Abri o Instagram. A primeira publicação que vi era da Sofia.
Uma foto dela no hospital, com a cabeça apoiada no ombro do Pedro. Ele olhava para ela com uma ternura que eu não via há muito tempo.
A legenda dizia: "Obrigada, meu herói. Salvaste a minha vida. ❤️ @PedroAlmeida"
A publicação tinha sido feita há três dias. O dia do meu acidente.
Senti o meu peito apertar. Era uma dor surda, pior do que a dor física nas minhas pernas.
"Mãe, eu quero terminar tudo com ele."
A minha mãe suspirou, um som pesado e cansado. "Clara, não tomes decisões precipitadas. Estás ferida, não estás a pensar com clareza."
"Eu estou a pensar com mais clareza do que nunca," respondi, a minha voz a ganhar força. "Ele fez a sua escolha naquele momento. Agora, eu estou a fazer a minha."
Peguei no telemóvel e liguei para o Pedro.
A chamada foi para a caixa de correio de voz. Deixei uma mensagem.
"Pedro, acabou. Não me procures mais."
Desliguei e bloqueei o número dele. Depois, bloqueei-o em todas as redes sociais.
A minha mãe observava-me em silêncio, com lágrimas a escorrer pelo seu rosto. Ela não disse nada, apenas me abraçou com força.
Naquele momento, eu sabia que tinha tomado a decisão certa. A dor era imensa, mas a alternativa, viver uma mentira, era insuportável.
O noivado tinha acabado. O futuro que eu tinha imaginado desmoronou-se.
Eu estava sozinha, partida, mas pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava a recuperar o controlo da minha vida.
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