
A Ascensão da Nova Gerente
Capítulo 2
Sofia voltou para o quarto que dividíamos bem depois da meia-noite, o cheiro forte de perfume barato e cigarro impregnando o ar abafado.
Ela jogou a bolsa em cima da cama, fazendo um barulho alto, e começou a falar no celular, a voz dela irritantemente animada.
"Amiga, você não acredita! A festa estava bombando, consegui uma 'collab' com aquele cara da marca de bebida, sabe? Sim, ele mesmo! A gente vai bombar muito."
Eu me virei na minha cama, fingindo que estava dormindo.
Desde que Sofia decidiu que seria uma influencer digital, nossas noites eram assim.
Ela vivia para as festas, para os "amigos" que mal conhecia e para a imagem que construía online, uma vida de glamour falso sustentada por sabe-se lá o quê.
Eu, por outro lado, só queria dormir.
O despertador tocaria às cinco da manhã, como sempre. O trabalho de faxineira no hotel de luxo era pesado, exaustivo, mas era o que pagava as contas e mandava dinheiro para a minha família no interior.
Dois dias depois, a chefe da equipe de limpeza, Dona Elvira, reuniu todo mundo na sala dos funcionários.
"Pessoal, atenção. A diretoria do hotel decidiu que todos os funcionários, sem exceção, precisarão fazer um exame de saúde obrigatório. É uma nova política de segurança. A lista com os horários de cada um será afixada no mural amanhã."
Uma onda de murmúrios percorreu a sala. Ninguém gostava de exames, mas era uma ordem. Eu olhei para Sofia, no canto da sala. O sorriso dela sumiu. O rosto ficou pálido.
Naquela noite, Sofia não saiu. Ela ficou no quarto, andando de um lado para o outro, roendo as unhas. No dia seguinte, quando acordei para ir trabalhar, a cama dela estava vazia. As coisas dela ainda estavam lá, mas Sofia tinha desaparecido.
Ela ficou sumida por três dias.
Ninguém no hotel sabia dela. O celular dela estava desligado. Dona Elvira já falava em comunicar o desaparecimento à polícia.
Então, no quarto dia, quando voltei do turno, a porta do nosso quarto estava entreaberta.
Lá estava Sofia.
Ela estava sentada na beira da cama dela, com um sorriso estranho no rosto, um sorriso que não chegava aos olhos. E estava bebendo água na minha caneca. A minha caneca preferida, que minha mãe me deu.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Não era só o fato de ela ter sumido e voltado como se nada tivesse acontecido. Eram as marcas.
No pescoço e nos braços dela, havia arranhões e manchas vermelhas, quase roxas. Não pareciam arranhões normais de uma briga. Pareciam outra coisa. Algo que eu já tinha visto em panfletos de postos de saúde.
"Onde você estava?" , eu perguntei, a voz saindo mais dura do que eu pretendia.
Sofia deu de ombros, tomando mais um gole da minha caneca.
"Resolvendo umas coisas. Estava precisando de um tempo pra mim."
O sorriso dela se alargou, mas continuava vazio. Ela parecia febril, os olhos brilhando de um jeito esquisito. A suspeita se instalou na minha mente como uma praga. Uma doença. Uma doença contagiosa. E ela estava usando a minha caneca.
Assim que ela se levantou para ir ao banheiro, eu peguei a caneca da mão dela. O olhar dela encontrou o meu, surpreso, mas eu não me importei.
Fui direto para a pequena pia que tínhamos no quarto. Abri a torneira no máximo, joguei detergente com força dentro da caneca e comecei a esfregar com a bucha, como se quisesse arrancar uma camada de cerâmica.
Esfreguei até meus dedos doerem.
Depois, sequei a caneca, coloquei-a dentro de um saco plástico, dei um nó bem apertado e joguei no fundo da lata de lixo do corredor.
Quando voltei para o quarto, Sofia estava me olhando, os braços cruzados.
"Qual é o seu problema, Maria Clara? Era só uma caneca."
"Eu não gosto que usem as minhas coisas" , respondi, sem olhar para ela.
Eu me lembrava de quando Sofia chegou ao Rio. Ela era como eu, uma garota do interior cheia de sonhos. Trabalhava duro, era quieta. Mas a cidade grande, as luzes, a promessa de uma vida fácil como influencer a transformaram. Ela se tornou essa pessoa que eu mal reconhecia, alguém que faria qualquer coisa por atenção e por uma vida que não era dela.
No dia seguinte, no trabalho, procurei a Ana, uma colega em quem eu confiava.
"Ana, você viu a Sofia?" , perguntei em voz baixa, enquanto limpávamos um dos quartos de hóspedes.
"Vi. Ela voltou, né? Parece que viajou o mundo" , Ana respondeu, irônica.
"Você não a achou estranha? As marcas no pescoço dela... e ela está agindo de um jeito esquisito. Estou preocupada com esse exame de saúde. Acho que ela está escondendo alguma coisa."
Ana parou de arrumar a cama e me olhou, séria.
"Agora que você falou... ela parece meio doente mesmo. Você acha que é... aquilo?"
Eu não precisei responder. O medo nos olhos dela era a mesma resposta que estava na minha cabeça.
"A gente precisa fazer alguma coisa" , eu disse, mais para mim mesma do que para ela. "Isso é perigoso para todo mundo aqui."
A ideia começou a tomar forma na minha mente. Sofia não faria o exame por bem. Então, teria que ser por mal.
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