
A Ascensão da Nova Gerente
Capítulo 3
No dia seguinte, eu e Ana fomos falar com a Dona Elvira. Escolhemos um momento em que a sala dela estava vazia.
"Dona Elvira, com licença" , comecei, um pouco nervosa. "A gente está um pouco preocupada com a Sofia."
Dona Elvira tirou os óculos de leitura e nos encarou.
"Preocupadas como?"
"Ela sumiu por dias, voltou e não parece bem. Está com umas marcas estranhas no corpo, febril... E com o exame de saúde obrigatório chegando, a gente fica com medo de ser algo contagioso. É um risco para nós e para os hóspedes" , expliquei, tentando manter a voz calma e profissional.
Ana concordou com a cabeça.
"Ela está fugindo do exame, Dona Elvira. Todo mundo já fez, menos ela."
A expressão da nossa chefe ficou séria. Ela era uma mulher justa e se preocupava de verdade com a segurança da equipe.
"Deixem comigo. Vou resolver isso agora."
Dona Elvira pegou o telefone da mesa dela e ligou para o ramal do andar em que Sofia estava trabalhando.
"Sofia, aqui é a Elvira. Preciso de você na minha sala. Agora."
Esperamos no corredor. Não demorou cinco minutos e Sofia apareceu, limpando as mãos no uniforme. Quando ela nos viu paradas ali, o rosto dela se fechou.
"Podem entrar, as três" , disse Dona Elvira.
Dentro da sala pequena, a tensão era palpável.
"Sofia, ainda não recebemos o seu comprovante do exame de saúde. O prazo final era ontem" , Dona Elvira foi direto ao ponto.
Sofia forçou um sorriso.
"Ah, Dona Elvira, me desculpe. Com a correria, eu acabei esquecendo de entregar. Está na minha bolsa, lá no vestiário. Posso buscar?"
"Não precisa. O hotel providenciou uma enfermeira para fazer a coleta aqui mesmo, para os funcionários que perderam o prazo. Ela está esperando você na sala ao lado. É rápido, só uma amostra de sangue."
O pânico tomou conta do rosto de Sofia. A cor sumiu da sua pele, e ela deu um passo para trás, como um animal encurralado.
"Não... não precisa. Eu... eu tenho pavor de agulha. Sério. Eu pego o meu exame e trago amanhã, sem falta."
A voz dela tremia. As mãos dela suavam.
"Sofia, isso não é um pedido. É uma ordem da diretoria. Ou você faz o exame agora, ou eu terei que reportar sua insubordinação" , disse Dona Elvira, inflexível.
Foi nesse momento que tudo aconteceu muito rápido.
Sofia olhou para a porta, depois para a janela da sala de Dona Elvira, que dava para um corredor lateral do hotel. O olhar dela era selvagem, desesperado.
Num movimento brusco, ela empurrou uma cadeira que estava no caminho e correu.
Ela não correu para a porta de saída. Ela correu na direção oposta, pelo corredor de serviço do segundo andar.
Eu e Ana saímos atrás dela, gritando para ela parar. Dona Elvira pegou o rádio para chamar a segurança.
"Parem ela! Não a deixem sair!"
Sofia era rápida. Ela virou um corredor e chegou a uma área de serviço com uma grande janela de guilhotina, daquelas que abrem para cima. A janela estava aberta para ventilação.
Sem hesitar, ela subiu no parapeito.
"Sofia, não faz isso! Você vai se machucar!" , eu gritei, parando a uma distância segura.
O corredor dava para a lateral do hotel, uma área de carga e descarga. Não era uma altura mortal, mas era perigoso o suficiente.
Alguns funcionários da cozinha que estavam do lado de fora, na hora do cigarro, viram a cena.
"Olha lá! O que aquela maluca tá fazendo?"
"Ela vai pular!"
Sofia não olhou para trás. Com um impulso, ela se jogou pela janela. Ela não pulou de forma limpa. Ela se agarrou na borda, tentou descer se apoiando na parede e acabou caindo de mau jeito no chão de concreto lá embaixo, uns quatro metros de queda.
Ela gemeu de dor, mas se levantou mancando e começou a correr, desaparecendo pela rua dos fundos do hotel.
Tudo ficou em silêncio por um segundo.
Depois, o caos.
Gritos, gente correndo, o som do rádio da segurança chiando.
Eu fiquei parada, olhando para a janela vazia. Minha suspeita não era mais uma suspeita. Era uma certeza. Sofia estava escondendo algo muito sério, algo pelo qual valia a pena arriscar a vida para não ser descoberto.
E, no meio da confusão, eu vi que um dos cozinheiros lá embaixo não estava apenas olhando, chocado. Ele estava com o celular na mão. E estava gravando tudo.
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