
A Armadilha do Coração Partido
Capítulo 3
Os dias que se seguiram foram um pesadelo.
A Sofia agia como se fosse a verdadeira dona da casa. Ela reorganizava os móveis, criticava a minha comida e dava ordens como se eu fosse a empregada.
O Pedro ignorava tudo. Para ele, desde que houvesse paz, estava tudo bem.
"Eva, porque é que o almoço ainda não está pronto? O Tiago está com fome," dizia a Sofia, com um tom de impaciência.
Eu respirava fundo e ia para a cozinha.
O Tiago era uma criança difícil. Ele era mimado e agressivo. Empurrava o Leo, tirava-lhe os brinquedos e gritava sempre que não conseguia o que queria.
"Tiago, não faças isso ao teu irmão," dizia o Pedro, com uma voz suave que ele nunca usava comigo.
Irmão. Aquela palavra doía sempre que a ouvia.
Um dia, eu estava na cozinha a preparar o jantar quando ouvi um grito. Corri para a sala e vi o Leo no chão, a chorar, com um arranhão vermelho na bochecha.
O Tiago estava de pé ao lado dele, com um carro de brincar na mão.
"O que é que aconteceu?" gritei, correndo para pegar no meu filho.
"Ele não me quis dar o carro!" gritou o Tiago, desafiador.
A Sofia saiu do quarto, a olhar para o telemóvel.
"O que foi esta gritaria toda?" ela perguntou, aborrecida.
"O teu filho magoou o Leo!" eu disse, a minha voz cheia de fúria.
A Sofia olhou para o arranhão e encolheu os ombros. "São crianças, Eva. Crianças brincam, às vezes magoam-se. Não sejas tão dramática."
Naquele momento, o Pedro chegou do trabalho. Ele viu a cena: eu com o Leo a chorar nos braços, a Sofia com uma expressão de desdém, e o Tiago a fazer beicinho.
"O que se passa aqui?" ele perguntou, a sua voz já cansada.
"O Tiago arranhou o Leo de propósito!" eu expliquei, esperando alguma reação dele, algum apoio.
O Pedro suspirou. Ele ajoelhou-se ao lado do Tiago.
"Tiago, pediste desculpa ao Leo?"
O menino abanou a cabeça.
"Pede desculpa agora," disse o Pedro, com firmeza.
O Tiago murmurou um "desculpa" sem vontade, sem sequer olhar para o Leo.
O Pedro levantou-se e olhou para mim. "Pronto. Resolvido. Eva, não faças uma tempestade num copo de água. Eles são irmãos, têm de aprender a partilhar."
Ele virou-se e foi para o quarto, como se o assunto estivesse encerrado.
Eu fiquei ali, de pé, a segurar o meu filho que soluçava, e senti-me completamente sozinha.
Não era só sobre um arranhão. Era sobre a total falta de respeito, a completa invalidação dos meus sentimentos e do bem-estar do meu filho.
Naquela noite, depois de deitar o Leo, fui ao meu antigo computador. Abri o meu currículo, coberto de pó digital.
Eu precisava de um plano. Eu precisava de sair dali.
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