
A Aposta Cruel
Capítulo 2
A primeira vez que Pedro me tocou com algum tipo de ternura foi na nossa noite de núpcias.
Depois de dez anos amando-o em silêncio, de um casamento arranjado que para mim era um sonho e para ele, um negócio, aquele gesto repentino me pegou de surpresa. Ele, que sempre foi distante e frio, de repente me puxou para perto, seus olhos fixos nos meus, com uma intensidade que eu nunca tinha visto. Meu coração disparou, uma esperança tola florescendo no meu peito, me fazendo acreditar que talvez, só talvez, ele estivesse finalmente começando a me ver como sua esposa. A noite foi um borrão de sensações novas e avassaladoras, e eu me entreguei completamente, acreditando que aquele era o início da nossa felicidade. Eu estava errada.
Semanas depois, uma náusea constante começou a me perturbar. No início, ignorei, atribuindo ao estresse da nova vida de casada, mas a sensação persistia. Com as mãos trêmulas, fiz um teste de farmácia. Positivo. O médico confirmou não apenas a gravidez, mas que eram gêmeos. Uma onda de alegria pura e avassaladora me inundou. Gêmeos. Dois bebês. Nossos filhos. Corri para casa, imaginando a reação de Pedro, planejando mil maneiras de contar a novidade. Tinha certeza de que isso nos uniria para sempre, que esses filhos seriam a ponte que faltava entre nós.
Decidi fazer uma surpresa, indo até seu escritório no final do dia. A porta estava entreaberta e eu parei, querendo saborear o momento. Foi quando ouvi sua voz, mas não era o tom de um homem trabalhando, era uma gargalhada alta e cruel.
"Você tinha que ver a cara dela, Marina, pura ingenuidade."
Marina. Sua amante. O nome me atingiu como um soco no estômago.
"Ela realmente acreditou que você se apaixonou da noite para o dia?", a voz de Marina zombou do outro lado da linha.
"Claro que sim", Pedro continuou, o riso ainda em sua voz. "A aposta foi a melhor ideia que você já teve. Chamei o Ricardo e o Flávio, eles foram... prestativos. A coitadinha achou que era tudo para ela, que eu estava louco de desejo."
Meu sangue gelou. Ricardo e Flávio. Seus amigos. Aposta. As palavras giravam na minha cabeça, formando uma imagem horrível.
"E a melhor parte?", ele disse, baixando um pouco a voz, como se contasse um segredo delicioso. "Nós filmamos tudo. Cada segundo. A cara dela de 'apaixonada' enquanto meus amigos se divertiam... impagável."
O celular na minha mão caiu no chão com um baque surdo. O som ecoou no corredor silencioso, mas eu mal ouvi. Minha noite de núpcias. A noite que eu acreditei ser o início do meu sonho. Tinha sido uma aposta. Uma armadilha cruel. Eu não tinha sido esposa dele, tinha sido o prêmio de uma aposta nojenta, compartilhada e filmada. O mundo ao meu redor desmoronou. A alegria de minutos atrás se transformou em um horror tão profundo que me tirou o ar. As duas vidas que cresciam dentro de mim, a prova do meu amor, eram na verdade o resultado de uma violação em grupo, orquestrada pelo homem que amei por uma década. O chão veio ao meu encontro e a escuridão me engoliu.
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