
A Aposta Cruel
Capítulo 3
Quando Pedro chegou em casa naquela noite, me encontrou sentada no escuro da sala de estar. Eu não tinha chorado, as lágrimas pareciam congeladas dentro de mim, transformadas em um bloco de gelo no meu peito. Eu só queria ouvir da boca dele, encará-lo e ver se ele teria a coragem de mentir.
"Júlia? O que faz aí no escuro? Aconteceu alguma coisa?", ele perguntou, o tom casual, como se fosse um dia qualquer.
Minha voz saiu como um sussurro rouco.
"A aposta, Pedro. A noite de núpcias."
Ele parou de andar. Por um segundo, vi um lampejo de pânico em seus olhos, mas desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituído por uma irritação fria.
"Do que você está falando? Está ficando louca? A gravidez está te deixando paranoica."
Ele se aproximou, tentando me tocar, mas eu recuei como se seu toque queimasse.
"Eu ouvi você, Pedro. Ouvi você no telefone com a Marina. Falando sobre a aposta, sobre os seus amigos, sobre o vídeo."
O desprezo no rosto dele foi a resposta que eu precisava. Ele não negou mais, apenas zombou.
"Você anda escutando atrás das portas agora? Que patético", ele disse, sua voz gotejando crueldade. "Você precisa se acalmar, esse estresse todo não faz bem para os bebês."
A menção aos bebês, vinda dele, me causou uma náusea violenta. Ele estava usando meus filhos, a consequência da sua brutalidade, para me manipular. Na manhã seguinte, movida por uma necessidade desesperada de provas concretas, de algo que validasse minha sanidade, comecei a revirar nosso quarto. E lá estava, escondida atrás de um quadro na parede oposta à cama, uma minúscula lente preta. Uma câmera. O ar escapou dos meus pulmões. A prova física da minha humilhação estava ali, me encarando.
Pedro continuou seu teatro doentio nos dias seguintes. Ele trazia meu café da manhã na cama, media minha pressão, falava sobre nomes para os bebês. Cada gesto de "cuidado" era uma faca girando na minha ferida aberta. Ele me olhava com falsa preocupação, perguntando se eu estava me sentindo melhor, se as "ideias malucas" tinham passado. Era um jogo de tortura psicológica, e ele era o mestre.
Uma semana depois, ele insistiu que eu precisava de um check-up.
"Vou com você", ele anunciou. "Quero ter certeza de que está tudo bem com você e com nossos filhos."
No consultório, ele não me deixou sozinha com o médico por um segundo. Ele respondia às perguntas por mim, descrevendo meu "estado emocional frágil", minha "paranoia recente". Ele me segurava pelo braço, um gesto que para o médico parecia protetor, mas para mim era a mão de um carcereiro. Eu me sentia presa, silenciada, minha própria voz roubada por aquele que deveria me proteger.
Para completar a humilhação, naquela mesma noite ele me forçou a ir a um jantar de negócios. Ele me vestiu como uma boneca, escolhendo um vestido que marcava a minha barriga ainda incipiente. Durante todo o jantar, ele manteve a mão em minhas costas, me apresentando aos seus sócios como "minha linda e um pouco hormonal esposa grávida". Cada sorriso que ele dava, cada toque, era uma demonstração pública de poder e controle. Eu estava ali, exposta, um troféu da sua perversidade, e ninguém via a verdade por trás da máscara do marido perfeito. Eu era sua prisioneira, e as grades da minha cela eram feitas de sorrisos falsos e mentiras cruéis.
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