
A Água Gelada da Traição
Capítulo 2
A água subia depressa, já batia a meio da porta do carro. O motor tinha morrido há minutos. Lá fora, a tempestade rugia, e a rua transformara-se num rio de água suja e destroços. Eu estava presa. Grávida de oito meses.
O pânico apertava-me o peito. Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer. A primeira pessoa para quem liguei foi o meu marido, Marco.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava distante, irritada.
"Sofia? O que se passa? Estou no meio de uma coisa."
"Marco, ajuda-me," a minha voz saiu fraca, trémula. "O carro ficou preso na inundação na Baixa. A água está a subir muito depressa."
Houve uma pausa do outro lado. Ouvi uma voz feminina ao fundo, a rir de alguma coisa. Era a Clara, a amiga de infância dele.
"Não consigo ir aí agora," disse ele, com uma impaciência que me gelou. "A Clara teve uma infiltração no apartamento, o teto está a pingar. Estou a ajudá-la a pôr baldes e a mover os móveis."
Uma infiltração. Baldes. E eu estava a afogar-me dentro de um carro.
"Marco, isto é sério," insisti, as lágrimas a começarem a escorrer. "Eu não sei o que fazer. Por favor."
"Liga para os bombeiros, Sofia. Eles servem para isso," respondeu ele, seco. "Tenho de ir. A Clara está a chamar-me. Depois falamos."
"Não desli..."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula. Ele tinha desligado. Olhei para a minha barriga, onde o nosso filho se mexia, agitado. O meu filho, que ele dizia amar mais que tudo.
A água começou a entrar no carro, gelada, a molhar-me os pés. O nível subia sem parar. Tentei ligar para os serviços de emergência, mas a rede estava em baixo. Nenhuma chamada saía.
Uma dor aguda e súbita atravessou-me o ventre. Uma cãibra violenta, diferente de tudo o que já tinha sentido. Curvei-me sobre o volante, a gritar. A dor veio outra vez, mais forte. Senti algo quente a escorrer-me pelas pernas.
Era sangue.
O meu mundo desabou. Entre a água que subia e a dor que me rasgava, a única coisa em que conseguia pensar era na voz distante do meu marido.
"A Clara está a chamar-me."
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