
A Água Gelada da Traição
Capítulo 3
Acordei com o cheiro a desinfetante e o som baixo de um monitor cardíaco. Estava num quarto de hospital. A luz branca do teto magoava-me os olhos. A minha barriga estava vazia. Lisa.
Uma enfermeira entrou e sorriu-me com pena.
"A menina teve sorte. Os bombeiros encontraram-na a tempo."
Olhei para ela, mas não consegui falar. A minha garganta estava seca. A pergunta que eu queria fazer estava presa, pesada demais para sair.
A enfermeira pareceu entender. O seu sorriso desapareceu.
"Lamento muito. Devido ao stress e à hipotermia, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos, mas não foi possível salvar o bebé."
As palavras dela não faziam eco. Apenas caíram num vazio dentro de mim. O bebé. O meu filho. Tinha desaparecido.
A porta abriu-se e o Marco entrou, seguido pela mãe dele, a Helena. Ele tinha uma expressão preocupada, mas não me pareceu genuína. A Helena olhava para mim com reprovação.
"Sofia, estás bem? Fiquei tão preocupado," disse o Marco, aproximando-se da cama.
Não respondi. Apenas o encarei.
A mãe dele interveio, com a voz áspera de sempre.
"Preocupado? Ele esteve a noite toda sem saber de ti! O que é que foste fazer para a Baixa com uma tempestade daquelas? Não tens juízo nenhum?"
"Mãe, agora não," disse o Marco, mas sem grande convicção.
"Agora sim," insistiu ela. "Se tivesses ficado em casa, como uma pessoa normal, nada disto teria acontecido. Dás cabo da vida do meu filho com estes dramas."
O meu olhar continuava fixo no Marco.
"Eu liguei-te," disse eu, a voz a sair como um sussurro rouco. "Pedi ajuda."
Ele desviou o olhar. "Eu sei, mas a Clara precisava de mim. Era uma emergência."
"Uma infiltração," disse eu. "A emergência dela era uma infiltração."
"Não fales assim," disse ele, a irritação a voltar. "O teto dela podia ter caído! Eu disse-te para ligares para os bombeiros."
"Não havia rede," respondi, sentindo uma calma assustadora a tomar conta de mim. "Eu perdi o nosso filho, Marco. Sozinha. Enquanto tu punhas baldes debaixo de uma goteira."
Ele ficou em silêncio. A Helena bufou.
"Não culpes o meu filho pela tua imprudência."
Virei-me para o Marco, ignorando-a.
"Quero o divórcio."
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