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Capa do romance Votos de Sangue

Votos de Sangue

Ele domina a cidade com punho de ferro e uma sede de poder implacável. Ela vive assombrada por segredos sombrios que tenta esconder. Quando uma traição quebra o acordo entre suas famílias, ele a obriga a um casamento de conveniência para manter sua supremacia. Em um mundo de violência e sombras, o que era um pacto forçado torna-se um campo minado emocional. Entre o medo e o desejo, ela enfrenta o dilema de resistir ou ceder ao homem que pode destruí-la.
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Capítulo 2

Alessa

Entrei na boate com o peso do mundo nos ombros, sentindo o peso da música alta vibrando em meus ossos. O cheiro de álcool e perfumes baratos me envolvia, e logo fui engolida pela escuridão da casa, onde as luzes piscavam incessantemente e a pista de dança estava lotada. O caos estava em cada canto, mas isso já não me assustava mais. Era o meu trabalho, o meu sustento, e já estava mais do que acostumada com tudo aquilo.

Passei pelos bastidores, onde as outras meninas se arrumavam e se preparavam para a noite. Marisa, uma das minhas colegas, se aproximou de mim com um olhar que eu bem conhecia: preocupada, mas sem querer demonstrar muito.

– Alessa, você chegou... – ela disse, fazendo um gesto discreto para que eu me aproximasse. – Olha, fica esperta. O chefe está estressado hoje. Não parece estar com paciência para nada.

Eu soltei um riso sem humor e dei de ombros. Já sabia como ele ficava nos dias assim. Não era novidade.

– Já me acostumei – respondi, tentando não deixar transparecer o quanto essas palavras eram vazias para mim.

Marisa continuou, mais séria agora, com uma expressão preocupada.

– Só toma cuidado, tá? Ele está dando uns olhares meio... tortos nas garotas que ficaram mais perto da mesa dele ontem. Não quero que você se meta nisso.

Olhei para ela, uma mistura de cansaço e indiferença nos olhos. Não era a primeira vez que ouvia esse tipo de conselho, mas eu sabia o que estava fazendo. Eu sabia onde colocar os limites, ou pelo menos, onde tentar.

– Valeu, Marisa. Vou ficar de olho – murmurei, afastando-me sem mais palavras. Eu não tinha tempo para conversas agora. O relógio estava correndo, e a noite só estava começando.

O chefe era um homem que eu nunca realmente aprendi a decifrar. Antonio Ricci. Um homem de presença imponente, que entrava na sala como se o lugar fosse dele - e na maioria das vezes, era. Ele não era o proprietário da boate, mas controlava tudo o que acontecia ali, como se tivesse um acordo silencioso com o dono. Seu poder vinha do medo, e ele sabia usá-lo com maestria. Com os olhos duros e o sorriso gelado, Ricci não era o tipo de homem que você ignorava ou contrariava. Cada movimento dele exalava controle.

Ele se sentava em sua mesa no canto mais afastado da boate, sempre cercado por alguns dos seus homens de confiança e, é claro, por uma seleção de garotas que ele mantinha por perto - garotas como eu, que sabiam que o trabalho era complicado, mas a alternativa parecia ainda pior. Ricci não precisava pedir nada. Ele só dava um olhar, e a casa se ajeitava ao seu redor. Era um jogo de poder, e ele sempre ganhava.

Quando o vi pela primeira vez, eu soubera imediatamente que ele era um daqueles homens que não se importavam com o que acontecia em volta deles, desde que seu império permanecesse intacto. Eu não sabia o que ele queria de mim, mas percebi rapidamente que ele gostava de observar, de controlar, e de testar os limites de quem estivesse à sua volta. Seu olhar era como uma lâmina afiada, cortando sem se preocupar com quem ou o que fosse atingido.

A boate ficou mais animada à medida que a noite avançava, mas eu não conseguia desviar os olhos dele por muito tempo. Ele estava sentado em sua mesa, como sempre, com um copo de uísque na mão e um olhar distante. Quando nossos olhares se cruzaram, senti um calafrio, mas tentei manter minha expressão neutra. Não podia deixar que ele percebesse o quanto eu estava tensa. Ele gostava disso - da tensão, da sensação de que todos estavam ao seu alcance.

Ricci não era apenas o chefe aqui, ele era a sombra que pairava sobre cada um de nós. E, de alguma forma, ele sabia exatamente como fazer com que eu me sentisse pequena, sem que eu pudesse escapar.

Passei a noite servindo as bebidas, um copo após o outro, tentando me manter o mais distante possível dos homens mais insuportáveis da boate. Mas, como sempre, não demorou para que alguém ultrapassasse os limites. 

O barulho da música, as risadas e o cheiro de álcool no ar não me impediam de sentir o olhar do rapaz sobre mim. Ele veio sorrindo, já visivelmente embriagado, e antes mesmo que eu pudesse desviar, sua mão, quente e suja de um desejo arrogante, deslizou pela minha perna. A repulsa foi instantânea, e sem pensar, virei-me bruscamente.

- Que diabos você acha que está fazendo? - minha voz saiu mais alta do que eu queria, mas não me importei. Ele me ignorou, como se fosse natural, e puxou-me para mais perto.

- Relaxa, gata - ele disse, rindo baixo, tentando me agarrar.

O ódio cresceu em mim. Ele não se dava conta de que estava lidando com a pessoa errada. Em um movimento rápido, peguei o copo de vodka que estava na minha mão e joguei todo o líquido nele. O som do vidro quebrando e o líquido escorrendo pela sua camisa foram quase satisfatórios.

Ele olhou para a própria roupa manchada, a raiva tomando conta do rosto dele. - Você vai se arrepender dessa, sua vadia! - Ele gritou, tentando se levantar, mas a falta de coordenação fez com que quase caísse.

Antes que pudesse fazer mais alguma coisa, senti uma mão firme agarrando meu braço com força. Olhei para cima e encontrei os olhos de Ricci, frios e mortais.

- O que diabos você pensa que está fazendo? - Ricci rosnou, puxando-me com brutalidade para longe do homem ainda tentando se recompor. - Aqui não é lugar para suas cenas, Alessa. Você tem noção de onde está? - Ele apertou meu braço, a pressão insuportável, como se me lembrasse do meu lugar ali.

Eu não consegui mais olhar para o rosto do rapaz, nem para Ricci, que me arrastava pelos corredores escuros. Meu coração batia rápido, mas não tinha escolha.

Ricci me puxou com tanta força que quase perdi o equilíbrio, os dedos dele cravando em minha pele com violência. Eu queria gritar, queria sair correndo, mas sabia o que isso significaria. A última coisa que ele queria era ser desafiado na frente dos clientes.

- Você acha que pode fazer o que quiser aqui? - a voz dele estava carregada de desprezo. Ele me empurrou contra a parede fria do corredor, os olhos fulminando com um ódio que eu conhecia bem. - Não me importa o quanto você odeie esse lugar. Eu pago você para servir, não para causar confusão.

A dor no meu braço era quase insuportável, mas o medo de agravar as coisas me fez permanecer em silêncio. Eu sabia que não podia falar demais ou ele perderia completamente a paciência.

Ele se aproximou, o cheiro de cigarro misturado ao perfume barato que ele usava me fazia engolir a repulsa. - Se fizer mais uma cena, vou garantir que nunca mais trabalhe em lugar algum.

Eu queria gritar, me defender, mas tudo o que consegui fazer foi manter os olhos fixos no chão, sentindo a humilhação rasgar o pouco de orgulho que restava em mim.

- Agora, levanta e vai voltar a servir os clientes - Ricci ordenou, sua voz gélida e autoritária. - Faça exatamente o que eles pedirem, e se não agradar, será ainda pior.

Ele se afastou, e com um empurrão final, me mandou de volta para a área principal. O som da música já não parecia tão distante, e as luzes piscavam, quase zombando da minha situação. Eu precisava continuar, não tinha escolha. A raiva estava lá, queimando por dentro, mas sabia que nada disso iria mudar.

Voltei para a parte principal da boate, a sensação de humilhação e raiva corroendo minha alma a cada passo. Fui até o balcão, com um sorriso forçado, atendendo aos clientes como sempre fiz. Mas, por dentro, eu estava em guerra comigo mesma.

Enquanto servia mais uma rodada de bebidas, o ambiente parecia se distorcer ao redor de mim. Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, tentando manter a calma e fazer o meu trabalho, que mal percebi o olhar fixo sobre mim até que ele se tornou impossível de ignorar. Um olhar profundo, como se atravessasse minha alma.

Eu me virei lentamente, e ali, no canto da mesa, havia um homem observando-me com intensidade. Seus olhos, sombrios e calculistas, estavam fixos em mim, como se me conhecesse, como se soubesse o que eu estava tentando esconder. O brilho de seu olhar fez meu corpo se tensionar instantaneamente.

Ele não disse uma palavra, mas o olhar... aquele olhar pesado e penetrante, parecia me rasgar por dentro. Por um segundo, ele notou meu braço, o hematoma roxo que Ricci havia deixado ao me arrastar. O homem inclinou a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe, mas antes que eu pudesse processar qualquer coisa, ele se afastou, virando-se para a conversa com os outros na mesa.

O choque foi imediato. Algo sobre aquele olhar... Ele me conhecia? Ou apenas estava me estudando como um predador observa a presa? Eu me afastei rapidamente, sentindo o coração bater mais rápido. Mas, à medida que ele voltava à conversa, me perguntava se ele sequer tinha percebido o quanto me incomodou sua presença.

No fundo, eu sabia que algo não estava certo. Mas o que poderia ser? Ele era apenas mais um cliente, certo? Como todos os outros. Porém, esse homem... algo nele parecia diferente.

Tentei afastar o pensamento e continuei meu trabalho, mas o olhar dele ficou na minha mente, martelando a cada movimento que eu fazia.

O relógio na parede indicava quase 5 da manhã quando finalmente consegui sair da boate. Meus pés estavam pesados, o corpo exausto, e a mente sobrecarregada por tudo o que aconteceu naquela noite. A cidade ainda estava adormecida, com as ruas vazias e a luz do amanhecer começando a pintar o céu de um tom suave de azul. Eu caminhava lentamente, sem pressa para chegar em casa, como se a única coisa que quisesse fosse um pouco de paz, um pouco de silêncio.

Quando cheguei em frente à casa, vi Leo parado na porta, esperando. Ele sempre ficava acordado até eu voltar, uma forma de se garantir de que eu estava segura. Ao me aproximar, ele me olhou com aqueles olhos preocupados, como sempre fazia, mas algo naquela noite parecia diferente. Seu olhar foi direto para meu braço, que ainda estava roxo e inchado, fruto da violência de Ricci.

- Alessa... - Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele deu um passo em direção a mim, com a expressão de quem já sabia o que havia acontecido, mas não queria perguntar.

Eu tentei sorrir, tentando afastar o medo que começava a crescer dentro de mim, mas era difícil mentir para ele. Ele já sabia.

- Não é nada, Leo - falei, forçando um tom leve. - Só... uma queda. Nada demais.

Ele não acreditou. Seus olhos estreitaram, e sua mão foi até o meu braço, tocando o hematoma com cuidado, como se temesse que pudesse me machucar mais.

- Alessa, isso não é normal. Quem fez isso?

Eu respirei fundo, tentando encontrar uma resposta, mas nada que eu dissesse poderia aliviar o peso daquela noite. Olhei para o céu, como se ele pudesse me dar alguma resposta, alguma saída.

- Não importa, Leo - falei finalmente, com uma voz cansada. - Eu só... preciso de um pouco de descanso, ok?

Ele me encarou por um momento, a frustração visível em seu rosto, mas ele não insistiu. Era sempre assim. Eu dizia que estava tudo bem, e ele acreditava. Pelo menos por enquanto.

- Só me promete que vai tentar não se machucar mais - ele murmurou, soltando um suspiro pesado e me dando um abraço rápido. - Eu não quero ver você assim de novo.

Eu fechei os olhos por um instante, sentindo o calor do abraço, e então sussurrei:

- Prometo, Leo. Eu prometo.

Entrei na casa, sentindo o peso da noite me arrastando para a cama. Leo já tinha entrado e se deitado, mas ainda estava acordado, como sempre. Fiquei parada por um momento, olhando para ele, com o cansaço tomando conta do meu corpo. Cada movimento parecia mais lento do que o anterior, e eu só queria dormir, esquecer por algumas horas a dor e o peso da noite.

- Dorme, Leo - falei baixinho, jogando a mochila no canto e me sentando na cama. - Eu vou dormir um pouco agora, mas à tarde a gente vai estudar, ok?

Ele respondeu com um simples "tá bom", mas seu olhar permanecia preocupado, fixo no meu braço. Sabia que ele sabia que algo estava errado, mas ele também sabia que eu não iria falar mais sobre isso. Não agora. Talvez nunca.

Me deitei, fechando os olhos e tentando acalmar a mente, mas o cansaço me dominou rapidamente. O sono veio em ondas pesadas, e logo eu estava imersa em um sono profundo, esperando que as poucas horas de descanso me renegassem para o que viria.

Naquele momento, o que mais queria era apenas um dia tranquilo. Mas sabia que, na minha vida, tranquilidade era um luxo que eu não podia me permitir.

Acordaria de tarde para mais uma aula para Leo, depois teria que me preparar para a noite. O ciclo nunca parava. Aula durante a tarde, trabalho de noite, e poucas horas de sono pela manhã. Só tinha uma folga, no domingo, mas até lá, a rotina me consumia. Eu me perguntava até quando conseguiria continuar assim, vivendo entre a esperança e a sobrevivência.

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