
Você é minha redenção
Capítulo 3
A estrada estava vazia naquela hora da noite. O vento gelado soprava com força, mas Alicia Michelle mal sentia o frio, como se seu corpo tivesse criado um escudo protetor após sofrer tanta dor em tão poucas horas.
Ela estava sentada na beira do asfalto, com os joelhos dobrados e os braços abraçando seu corpo.
As lágrimas continuavam caindo incontrolavelmente.
Tudo parecia tão irreal, como um pesadelo do qual ela não conseguia acordar, como se estivesse carregando uma cruz com todo o peso da dor causada pela traição.
O som de um motor se aproximando a tirou do seu transe.
Um carro preto de luxo parou a poucos metros dela.
Sem levantar a cabeça, Alicia soube quem era ao ver os sapatos de couro preto surgirem à sua frente.
"Alicia."
A voz de Alessandro Morgan era profunda, autoritária, mas repleta de preocupação.
Ao seu lado, Aaron saiu do carro apressadamente.
"O que diabos está fazendo aqui?! Por que está sozinha na estrada a essa hora?", perguntou seu irmão duramente, enquanto se aproximava rapidamente.
Alicia não respondeu, nem sequer levantou a cabeça.
Aaron cerrou os dentes, furioso por vê-la naquele estado.
"Me responda, Alicia! O que aconteceu?"
Nesse momento, seu pai se ajoelhou diante dela.
Alicia ergueu o olhar e viu os olhos de Alessandro.
Olhos que a protegeram por toda a sua vida, olhos que nunca a viram tão destruída.
Incapaz de suportar isso, ela soltou um soluço de partir o coração e se jogou nos braços do pai, como quando era pequena.
"Pai...", ela sussurrou com a voz trêmula.
Alessandro a segurou com força, a abraçando contra seu peito.
"Estou aqui, minha pequena. Estou aqui."
Alicia se agarrou a ele como se ele fosse sua única âncora no mundo.
"Pai, está doendo...", sua voz se quebrou. "Está doendo tanto..."
Alessandro acariciou seus cabelos com ternura.
"Eu sei, meu amor, mas não vou deixar que isso te destrua."
Alicia soluçou fortemente, afundando o rosto no casaco do pai.
"Eles me enganaram... Marcus... Viviana...", ela sussurrou com um fio de voz.
Ao ouvir isso, o corpo de Alessandro se enrijeceu.
Aaron deu um passo à frente, com os olhos cheios de fúria.
"O que disse?"
Alicia fechou os olhos com força, sentindo uma onda de dor a invadir novamente.
"Eles me enganaram, Aaron..."
Ao ouvir isso, Aaron sentiu a raiva o consumir por completo.
Alessandro fechou os olhos por um momento, contendo sua fúria.
Mas, quando os abriu novamente, seu olhar estava cheio de determinação.
Acariciando as bochechas de Alicia com delicadeza, ele a fez olhar para ele.
"Me ouça bem, Alicia Michelle Morgan."
Sua voz era grave, mas firme.
"Ninguém, absolutamente ninguém, tem o poder de definir seu valor. Nem um homem, nem uma traição."
Ao ouvir isso, Alicia sentiu as lágrimas voltarem a encher seus olhos.
"Mas, pai..."
"Não. Não vou deixar que você acredite nem por um segundo que é menos por causa do que fizeram com você. Você é uma Morgan, é minha filha, e o mundo inteiro vai saber disso", disse Alessandro, balançando a cabeça.
Alicia se estremeceu, sentindo o amor incondicional do pai envolvê-la.
Mas, no fundo do seu coração, as palavras de Viviana continuavam ecoando como um veneno, como se tivessem deixado uma rachadura na sua alma.
Aaron deu um passo à frente.
"Marcus Aponte e sua família acabaram de assinar a sentença de morte deles."
Sua voz era fria, sem qualquer traço da cordialidade que costumava ter com a irmã.
"Vou destruí-los. Morgan Enterprises vai esmagá-los. Eles ficarão sem nada."
Alicia o olhou com os olhos vermelhos.
"Aaron..."
Mas seu irmão não a deixou terminar.
"Isso não é negociável. Isso não vai ficar assim", ele disse num tom letal.
Alessandro assentiu lentamente, sem soltar a filha.
"Os Aponte cometeram um erro que lhes custará tudo."
Aaron pegou seu celular e discou um número sem desviar o olhar de Alicia.
"Comecem a mover os pauzinhos. Quero que cada contrato, cada investimento e cada parceiro que os Aponte tenham caia em desgraça. Que não reste nada do império deles."
Alicia sentiu um arrepio percorrer suas costas.
Após encerrar a ligação, Aaron guardou o celular no bolso do casaco.
"Isso está só começando."
DIAS DEPOIS
Naquela manhã, o vento italiano soprava suavemente, enchendo a Mansão Morgan com o aroma dos vinhedos próximos. A imponente residência permanecia em silêncio, quase melancólica após os dias caóticos que abalaram a família.
Alicia Michelle estava na varanda do seu quarto. Ela não havia voltado para o seu apartamento, preferindo passar seu luto pelo desamor na Mansão Morgan. Com uma xícara de café nas mãos, ela observava o horizonte. Seus olhos, que antes refletiam alegria e confiança, agora tinham um tom sombrio, como se ainda houvesse resquícios do desastre emocional que ela havia vivido.
Já haviam se passado cinco dias desde a traição, cinco dias desde que seu mundo desabou.
Mas ela tomou uma decisão.
Ela já havia chorado o suficiente, já havia sentido a dor atravessá-la como mil punhais.
Era hora de seguir em frente, embora ela não soubesse como.
Enquanto isso, seus irmãos já haviam voltado para seus respectivos países, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos. Sua cunhada Katerina ficou o tempo necessário para ajudar a organizar os assuntos da empresa antes de partir com Aaron, e seu pequeno sobrinho Alexander foi de grande ajuda emocional para ela.
Alicia Michelle havia deixado o controle das empresas nas mãos do seu irmão mais velho, embora a italiana não precisasse muito de Aaron, mas seu irmão deu uma olhada até que ela voltasse, e ela ainda não estava pronta.
Ela não podia fazer isso agora, não podia assumir o comando quando nem sabia quem era naquele momento.
"Tem certeza disso?"
A voz da sua mãe, Alicia Morgan, a tirou dos seus pensamentos.
Alicia Michelle se virou e a viu parada na porta do quarto, com os olhos cheios de preocupação.
Ela era a única que ainda não a havia deixado sozinha.
Embora sua mãe tivesse insistido em ficar com ela, Alicia Michelle sabia que precisava enfrentar essa fase sozinha.
"Sim, mãe. Preciso ficar aqui. Preciso ficar sozinha."
Sua mãe suspirou, se aproximando para segurar o rosto dela entre as mãos com ternura.
"Não quero te deixar, meu amor. Não depois de tudo o que aconteceu. Você sabe muito bem que pode ir com a gente para os Estados Unidos."
Alicia Michelle abriu um leve sorriso, que não conseguiu iluminar seus olhos.
"Eu sei, mas ir para os Estados Unidos não vai resolver nada, mãe."
Alicia Morgan cerrou os lábios com tristeza.
Ela não queria deixá-la, mas entendia que sua filha estava ferida.
Não fisicamente, mas de uma forma mais profunda, de uma forma que só o tempo poderia curar.
"Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa... me ligue. Não importa a hora ou o lugar", ela sussurrou.
Alicia Michelle assentiu.
"Vou ligar, mãe."
Sua mãe a abraçou com força, como se tentasse transmitir todo o seu amor num único gesto.
Quando ela a soltou, seus olhos estavam marejados.
"Eu te amo, Alicia Michelle. Nunca se esqueça disso."
Alicia Michelle engoliu o nó na garganta.
"Eu também te amo, mãe."
Com o coração apertado, ela a viu partir, observando seu carro desaparecer pela estrada de pedra até a rodovia principal.
Quando se viu completamente sozinha naquela imensa mansão, ela se deu conta de que, pela primeira vez na vida, só tinha a si mesma.
Suspirando, ela fechou os olhos.
Ela havia escolhido ficar sozinha, mas isso não significava que a solidão não doesse.
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