Capa do romance Visita Íntima

Visita Íntima

9.7 / 10.0
Criada na Rocinha, Luíza buscou independência ao sair de casa cedo para viver um romance. Contudo, a liberdade tornou-se um fardo repleto de dificuldades. Encurralada por uma dívida perigosa com o atual chefe do crime local, ela se vê forçada a aceitar uma condição extrema para sobreviver. Agora, sua única saída é participar de visitas íntimas com Nem 157, o antigo e temido dono do morro, mergulhando em um caminho obscuro e sem volta.

Visita Íntima Capítulo 1

Ser mãe não é fácil.

Mas acho que você mãe ou que conhece alguém que já é mãe, tem consciência disso, pois é um trabalho contínuo e sem folga.

Tecnicamente não escolhi ser mãe, a verdade é que mão tinha muitas informações em relação á isso. Eu sabia que as mulheres que geravam os bebês e também sabia de onde saia mas, eu não sabia e nem entendia todo o processo que se seguia até isso acontecer. Não sabia que precisava de um homem em questão.

Conheci meu atual marido com 15 anos. Um absurdo, não é? Eu sei. Mas eu não compreendia o quanto prejudicial era para mim naquela época, me envolver com um homem mais velho e como isso atrapalharia muita coisa na minha vida.

Ele era mais velho do que eu, enquanto eu ainda estava estudando, ele já trabalhava como ajudante de pedreiro com o pai que era pedreiro. Assim como a maioria das minhas colegas, eles me conheceu  a saída da escola, numa pequena multidão de alunos ansiosa para ir para casa. Eu era um deles e só queria ir para casa. Ele me acordou de repente mas, com toda a gentileza do mundo. Gentileza essa,  que não conhecia.

Posso garantir que me apaixonei naquele instante. Naquele momento em que ele usou palavras doces e gentis comigo, uma menina de 15 anos, que não conhecia os homens e que nunca havia se relacionado com nenhum até então.

Claro que me fiz de difícil. Não queria parecer que era fácil, sempre ouvi minha mãe com as minhas tias falando sobre o assunto, o quanto era feios mulheres com determinados comportamentos. Como mulher, eu devia manter uma postura diferente, me fazer de difícil até ele desistir ou persistir.

Então assim eu fiz nos dias seguintes, onde ele continuou me encontrando na saída da escola, sempre com algum pretexto para me ver. Nos dias que ele não aparecia, eu sentia falta e me questionava se ele não iria aparecer. Mas no dia seguinte, lá estava ele, com alguma desculpa de que trabalhou até tarde e que depois foi direto para casa pois estava muito cansado.

E eu sempre entendia, como se já tivesse algum relacionamento com ele. Até que em determinado momento, ele resolveu me pedir em namoro e eu mesmo sem saber se a minha mãe apoiaria, se meu pai conservador aceitaria, eu aceitei, esperançosa de que eles me entenderia.

Mesmo sem meus pais saberem, namorávamos como se já tivéssemos permissão, para todo mundo ver. Isso não durou muito tempo, é claro, logo os boatos começaram a rolar com o nome de Mário. Havia boatos por toda parte, mas sempre no mesmo contexto, Mário tinha mulher e estava traindo ela comigo, óbvio que não acreditei, ele não iria mentir descaradamente para mim dessa forma, havia sido sincera com ele desde o primeiro instante e esperava apenas que ele fizesse a mesma coisa comigo.

Em menos de uma semana, chegou aos ouvidos da minha mãe que estava namorando com um homem casado. Ela não hesitou em ir me buscar na escola e perguntar ali mesmo quem era, estava prestes a dizer, olhando fixamente para Mário, quando simplesmente ele subiu em sua bicicleta monarca e foi embora.

Não tive mais reação. Não sabia o que dizer, não sabia o quê fazer. Na minha frente estava minha mãe, furiosa comigo e até com razão, por estar sabendo da boca de outras pessoas algo daquela magnitude. E a única coisa que eu queria fazer era correr para bem longe.

Claro que não tive chance, minha mãe me arrastou para casa, onde meu pai já me esperava com o cinto e me bateu até eu dizer quem era ele. Eu não tinha alternativa a não ser contar toda a verdade, em casa sempre priorizamos isso, era quase que obrigatório.

Como se a surra já não bastasse, meus pais me fizeram ir com eles até a casa de Mário e lá descobri que realmente ele era casado. Meu mundo já estava no chão, então quase que não senti aquele baque. A mulher dele se enfureceu logo e partiu para cima dele, exigindo respostas e gritando que iria se separar. Todo instante meus pais diziam que era para ele se casar comigo, que não teriam uma filha desonrada dentro de casa. E aquela confusão continuou por minutos que pareciam uma eternidade, até que a mulher entra   em casa, faz uma trouxa e sai, sem ao menos olhar na cara dele.

Naquele momento, tecnicamente me tornei a mulher dele. Meus pais fizeram nosso casamento acontecer o mais rápido possível e logo estava dentro da casa que um dia ele dividiu com outra mulher. Já não sentia o que sentia antes, era como se tivesse evaporado dentro de mim e via nas atitudes dele que também já não sentia a mesma coisa. As vezes me perguntava, se ele não a amava e só estava comigo com medo de ser preso por estupro, pois meus pais o havia ameaçado com isso.

O primeiro e o segundo mês foi de "boa", até que comecei a passar mal de repente e fui parar no hospital, recebendo o diagnóstico de gravidez. Com tudo que estava acontecendo, ainda seria mãe, quando claramente o que eu e Mário tínhamos, mão era benéfico para uma criança. E mesmo querendo abortar e tendo o apoio dele, acabei não cedendo e permitindo que simplesmente gravidez prosseguisse.

E quer saber? Foi a melhor decisão que tomei.

Júlia se tornou minha luz no final do túnel. Tudo que eu fazia era para ela, e também por causa dela tive que largar a escola e comecei a vender doces e bolos na rua para conseguir fazer o enxoval dela, já que meus pais haviam deixado claro que não iriam se envolver.

Foi indo com pequenos passos, que consegui roupa para lavar, casa para faxinas e conseguir fazer todo o enxoval. E mesmo ainda preste a parir, trabalhei e fui sozinha para o hospital quando comecei a sentir dor.

Tive Júlia sem Mário por perto ou qualquer outro parente, só souberam que havia parido quando cheguei em casa e não houve muita surpresa de Mário. A única diferença agora era que tinha que trabalhar com uma recém nascida, o que não era nada fácil e nem um pouco apropriado.  Não esperei meu resguardo acabar, não podia, minha filha precisava de fraldas e o pai dela todo o dinheiro que arrumava era apenas para ele, para as necessidades básicas dele, que diferente e mim tinha até que me preocupar com a minha alimentação.

A creche veio a calhar num momento que já não estava dando para levar Júlia, que já não tinha paciência para me esperar trabalhar, queria sempre atenção e estava numa fase que tudo ela chorava. Até então, minha mãe nunca havia ficado com ela para poder trabalhar, muito menos minhas irmãs, era o jeito da minha família cristã e conservadora, me punir, me deixando padecer sozinha e sem qualquer apoio.

Júlia chorava todos os dias. Todos os dias era um escândalo e as tias da creche até entendia. E eu sempre a deixava com meu coração apertado, querendo largar tudo para me dedicar á ela, era o que mais eu queria no mundo, parar de cuidar dos filhos dos outros e cuidar da minha filha.

O emprego que estava numa casa de família, além de não pagar todos meus direitos, me tratavam mal. Comecei aos poucos procurar por outro emprego, por indicação, consegui chegar até outro bem melhor que pagava todos os direitos trabalhistas e tinha horário para entrar e sair, além que nos finais de semana não era necessário ir.

Praticamente o emprego dos sonhos e numa casa ainda mais dos sonhos. Um apartamento, na zonal sul e com muita coisa chic. Tanta coisa Chic que eu tinha medo de quebrar alguma coisa e não é que quebrei uma vez uma taça de cristal e jurei que seria demitida? Esperei pela doutora Gabriela com o coração na mão, já me preparando para o que iria ouvir.

- Luíza - diz ela surpresa ao me ver, franzindo o venho - Seu horário de trabalho já acabou. Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu sim! - digo quase sem fôlego, quase chorando.

- O quê?! - diz assustada.

- Quebrei uma taça - choramingo.

Gabriela fecha os olhos, soltando o ar dos pulmões.

- Uma taça, Luíza?

- Me desculpa! Pode descontar do meu salário! - digo rapidamente - Eu... eu...

- Está tudo bem, Luíza.  Só é uma taça. Compro outra depois - diz ela com um sorriso despreocupado, dando fim a conversa.

Doutora Gabriela era uma patroa boa. Ela muitas vezes pagava mais do que o combinado, me dava cesta de Páscoa, Natal, presente para Júlia e para mim. Estava sempre me agradando de alguma forma e pedindo respeito aos filhos gêmeos, que de gêmeos não tinham nada. Lucas e Luan não sr pareciam em nada, tinham personalidades diferentes e mesmo o marido de Gabriela, César, dizendo que Luan não era boa pessoa, discordava. Acho que ele não conhecia bem o filho adotivo.

Tinha momentos tensos naquela casa, aonde presenciava muitas discussões e como mãe me sentia mal. Mas não capaz de levar tudo que acontecia para a doutora, ela e o marido me ajudavam muito, ela havia conseguido me convencer a voltar a estudar pela Internet. Eu tirava duas horas do meu horário de trabalho só pata isso e me sentia tão agradecida á ela por acreditar em mim que, não conseguia me imaginar levando problema para ela, principalmente sobre a relação do marido com o filho.

Com a ajuda dela consegui me formar e ela até comemorou essa conquista comigo mas, não demorou para dizer que precisava estudar mais, que precisava de faculdade e não me acostumar com o que já tinha. Claro que eu fiz o que ela recomendou, comecei a estudar para o ENEM, cada dia mais focada.

Mesmo quando do chegava do trabalho, ainda estudava.

- O quê tanto você faz com esse livro? - Mário né perguntou certa noite, após a janta e de colocar Júlia para dormir.

Na mesa da cozinha, debruçada sobre um livro e um caderno, tentava absolver o máximo de informações possível.

- Estudando.

- Estudando - Ele repete, olhando o livro de cima  Conta outra, Luíza.

-Então acredite se você quiser.

Não me importava o quê Mário achava

Já algum tempo, acho que desde que entramos naquele "relacionamento" que deixei de me importar com o que ele achava, ele não era tão participativo, nem na criação da nossa filha. As contas eram pagas por mim, praticamente era eu que bancava tudo trabalhando de sol a sol, enquanto ele vivia uma vida de solteiro, como se não tivesse qualquer obrigação.

Eu também não queria ter responsabilidade. Não queria ter que levantar cedo, ir trabalhar, me preocupar com uma criança que era completamente dependente de mim ainda, cuidar de uma casa e me preocupar com as contas que não paravam de chegar.  Não queria nada disso, mas infelizmente essa era a minha rotina diariamente e não entendia como ainda havia pessoas que ainda julgavam por esquecer alguma coisa ou por não estar presente completamente na vida da minha filha. Parecia que não viam o tipo de homem que eu era "casada", talvez gostassem de me ver passar por diversos perrengues e ainda manter de pé quando tudo dizia para desistir.

Eu era uma sobrevivente. Tentava sobreviver todos os dias no caos que era viver numa favela do Rio de Janeiro, aonde não sabíamos se conseguiríamos sobreviver a tiroteios ou as regras ditadas pelos traficantes. Eu não só temia minha vida quando saia da Rocinha, temia mais pela vida da minha filha que continuava naquele lugar. Ali só só éramos vistas como mais uma estatística causo algo acontecesse com uma de nós, não iriam dar a atenção devida e acabaríamos caindo no esquecimento após pedirem por justiça umas duas vezes.

E a última coisa que queria era que minha filha fosse vítima de uma bala perdida. Já havia presenciado muitas vezes o sofrimento de muitas mães e era impossível não se colocar no lugar delas, compartilhar a mesma dor.

Era pensando nisso, temendo que o pior acontecesse que queria ir para outro lugar com Júlia, um lugar que desse para recomeçar do zero, sem Mário por perto, só eu e ela.

Talvez fosse por causa disso que eu trabalhava ao máximo, dava meu máximo, guardando dinheiro toda vez que era possível e economizando o máximo que eu podia. Eu queria um futuro melhor daquele que tínhamos naquele momento, não queria mais passar por necessidade, temer que a vida da minha filha fosse ceifada ou ter que trabalhar excessivamente para que pudéssemos sobreviver naquele mundo.

- Isso é uma perca de tempo - diz Mário por fim resmungando - Isso sim.

- Não é perca de tempo - digo irritada, olhando para ele - Estou pensando no meu futuro.

- Que futuro, Luíza? Fixou louca é? Aonde que pobre tem futuro.

- É aí que você está enganado. Enquanto eu puder tentar, vou estar tentando.

- Só pra perder tempo.

Mário só me apoiou uma vez na minha vida, em todo aquele tempo que estávamos morando mesma casa e foi apenas quando eu cogitei a hipótese de abortar. Ele não queria ser pai, não queria responsabilidade, então de alguma forma estaria ajudando ele com isso. Fora isso, ele nunca me apoiou em absolutamente nada, estava sempre ocupado demais com ele mesmo. Sendo assim, era até surpresa para ele me ver me preocupando comigo mesma, além de estar pensando por dois, por mim e por ele.

Mas eu sentia, mesmo que não tivesse certeza, que iria conseguir chegar aonde eu queria, ter tudo o que sempre quis e iria conseguir, sem a ajuda dele, para poder dizer isso depois com todas as palavras.

Ignorando a existência de Mário, continuou com meus estudos até tarde da noite, quando minha mente estava mais do que cansada e só querendo parar um pouco. Essa era a minha rotina da noite, depois que havia me formado. Sempre depois das minhas horas de estudos, guardava tudo muito bem guardado, já que uma vez de propósito Mário molhou um livro e ainda alegou que eu havia deixado largado por aí, que a culpa era minha.

Diferente da maioria das mulheres dali, eu não me importava em ser traída, muito menos em ouvir as fofocas com o nome de Mário. Vivia ocupada demais para aquele tipo de coisa, então simplesmente deixava que os desocupados falasse. Falassem tudo o que quisessem, com direito em até aumentar um pouco e inventar.

Estava determinada em vencer na vida praticamente sendo uma mãe solteira, precisando trabalhar duro, mesmo que demorasse cem anos, eu não me importava, só queria sentir a sensação de dever cumprido quando chegasse lá e olhasse para trás e visse tudo o que havia acontecido e que, tudo que aconteceu foi importante para eu poder chegar aonde eu queria, aonde eu estava naquele momento.

Eu iria conseguir. Sim, eu iria e um dia lembraria de tudo aquilo com um sorriso no rosto e uma reflexão na mente de que tudo é possível, quando se acredita.

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