
Vingança e um Berço Vazio
Capítulo 3
O som dos tratores começou com o nascer do sol, um rugido metálico que rasgava a paz da manhã e entrava pela janela do quarto de João Carlos como um agouro, ele não dormira, passara a noite sentado na mesma cadeira, olhando para a escuridão que engolia a silhueta da floresta, sua floresta.
Cada ronco do motor era uma faca em seu peito, ele se sentia um prisioneiro em sua própria casa, os homens de Maria Eduarda, seguranças particulares com caras amarradas e armas na cintura, estavam por toda parte, Marcos, seu fiel capataz e único amigo, tentou falar com ele, mas foi barrado na porta da casa principal.
João Carlos estava sozinho, cercado pela traição, a raiva e a impotência queimavam em seu estômago como ácido.
Ele se levantou e foi até a janela, o que viu fez seu sangue ferver, as primeiras árvores centenárias, aquelas que seu avô costumava dizer que continham os espíritos dos antigos, tombavam com um estrondo surdo, levantando nuvens de poeira e terra vermelha, era uma profanação, um massacre.
Ele cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram em suas palmas.
No meio da tarde, um dos seguranças bateu na porta, um homem corpulento que ele nunca vira antes.
"A senhora mandou avisar pra você não sair do quarto."
João Carlos não respondeu, apenas continuou olhando pela janela, o homem deu de ombros e ficou de guarda do lado de fora.
O tempo se arrastou, cada hora marcada por mais um estrondo de uma árvore caindo, a noite chegou, mas não trouxe silêncio, apenas o som mais distante das máquinas se preparando para o dia seguinte.
Foi quando a porta se abriu de novo, desta vez, era Marcos, seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de pânico.
"João... João, é a sua mãe."
O coração de João Carlos parou, ele se virou, o medo tomando o lugar da raiva.
"O que tem a minha mãe, Marcos? O que aconteceu?"
"Ela... ela teve um acidente, João", gaguejou Marcos, a voz embargada. "A enfermeira disse que ela escorregou no banheiro, bateu a cabeça, quando a encontraram... já era tarde."
O mundo de João Carlos desabou, o chão sumiu sob seus pés, ele agarrou o braço de Marcos para não cair.
"Não... não pode ser", ele sussurrou, a negação desesperada. "Ela estava bem, eles estavam cuidando dela."
Naquele momento, Maria Eduarda apareceu na porta, atrás de Marcos, ela olhava para ele, o rosto uma máscara de falsa compaixão.
"Eu sinto muito, querido."
João Carlos a fuzilou com o olhar, a dor se transformando em uma fúria cega.
"Foi você", ele rosnou, avançando em sua direção. "Você a matou!"
Marcos tentou segurá-lo, mas a força de João Carlos era a força do desespero.
"Você me ameaçou! Você disse que ia machucá-la!"
Maria Eduarda recuou um passo, o sorriso de escárnio voltando aos seus lábios.
"Eu? Eu não fiz nada, foi um acidente trágico, se você tivesse cooperado desde o início, talvez ela não estivesse tão 'agitada', talvez nada disso tivesse acontecido, a culpa é sua, João Carlos, sempre sua."
Aquelas palavras foram a faísca que incendiou o barril de pólvora, João Carlos se lançou sobre ela, as mãos buscando seu pescoço, ele não pensava, apenas sentia, uma necessidade primitiva de silenciar aquela voz cruel para sempre.
Ele não chegou a tocá-la.
Os dois seguranças que estavam no corredor o agarraram, o arrancando dela com violência, eles o jogaram no chão, um deles o segurou pelos braços enquanto o outro começava a socá-lo.
O primeiro soco atingiu seu estômago, roubando-lhe o ar, o segundo, seu rosto, fazendo sua cabeça estalar para o lado, o gosto de sangue encheu sua boca.
"Parem! Parem com isso!", Marcos gritava, tentando intervir, mas foi empurrado para o canto do quarto.
João Carlos tentou se defender, mas era inútil, os chutes vieram em seguida, nas costelas, nas pernas, em todo lugar, a dor era aguda, lancinante, ele se encolheu no chão, tentando proteger a cabeça.
Ele ouvia a voz de Maria Eduarda, calma e diretora, por cima dos ruídos surdos dos golpes.
"Cuidado com o rosto, não quero que fique muito marcado, apenas o suficiente para ele aprender a lição."
"Sua desgraçada!", ele conseguiu cuspir, junto com um bocado de sangue.
Um chute mais forte nas costelas o fez gritar, um som abafado e quebrado, ele sentiu algo estalar, a dor se intensificou, tornando-se uma agonia branca e ofuscante.
Os golpes pararam, ele ficou ali, no chão, tremendo, cada respiração uma tortura, o mundo girava, pontos pretos dançavam em sua visão.
"Levem-no para o galpão", ordenou Maria Eduarda. "Tranquem-no lá, sem comida, sem água, até que eu decida o que fazer com ele."
Os seguranças o arrastaram para fora do quarto, ele não tinha forças para resistir, seus pés se arrastavam pelo chão, deixando um rastro de poeira e dignidade perdida.
Marcos correu atrás deles.
"Ele precisa de um médico! Ele está ferido!", implorava ele.
Maria Eduarda o barrou com um braço.
"Ele vai ficar bem", ela disse friamente. "Ele é um homem do campo, é forte, um pouco de dor só vai ajudá-lo a pensar melhor."
Eles o jogaram no chão de terra batida do galpão de ferramentas, a escuridão o envolveu, o cheiro de graxa e ferrugem enchendo suas narinas, a porta de metal bateu com um estrondo final, a tranca girou, selando seu destino.
Ele tentou se mover, mas uma onda de dor nauseante o paralisou, ele sentia o sangue quente escorrendo de um corte na testa, suas costelas gritavam a cada tentativa de respirar mais fundo.
"Marcos...", ele chamou, a voz um sussurro fraco.
Não houve resposta, ele estava sozinho, quebrado, no escuro, o som dos tratores havia parado, mas em sua mente, o barulho da destruição e da perda ecoava, mais alto e mais terrível do que qualquer máquina. A vida, como ele conhecia, tinha acabado.
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