
Vingança e Redenção
Capítulo 3
Na escuridão fria do porão, as memórias vinham sem serem chamadas. Sofia se encolheu no chão de cimento, o corpo dolorido, mas a mente ainda mais. Ela começou a conectar os pontos, a ver o padrão que esteve ali o tempo todo, mas que ela se recusou a enxergar.
Ela lembrou de anos de pequenas injustiças. Marcos sempre tratando Isabella com uma deferência especial, um carinho que ele nunca lhe mostrou. Ele comprava presentes caros para a cunhada, alegando que era para "manter a família feliz", enquanto reclamava de cada centavo que Sofia gastava no supermercado.
"É para o bem dos negócios, Sofia. A família de Isabella tem contatos" , ele costumava dizer.
E ela acreditava.
Uma memória em particular queimava como brasa viva. Cerca de um ano atrás, um colar caro que Marcos havia comprado para a mãe dele desapareceu. Isabella estava visitando. Foi ela quem "descobriu" o colar na bolsa de Sofia.
Sofia ficou chocada. Ela nunca pegaria nada.
"Eu não sei como isso foi parar aí!" , ela protestou, o rosto vermelho de vergonha e confusão.
Isabella a olhou com olhos tristes e decepcionados. "Sofia, eu não quero acreditar nisso, mas... você tem agido de forma tão estranha ultimamente. Tão estressada com o dinheiro."
Marcos não hesitou. Ele não lhe deu o benefício da dúvida. Ele a acusou na frente de toda a sua família.
"Como você pôde? Roubando da minha própria mãe? Que tipo de pessoa você é?"
Ele a forçou a pedir desculpas à mãe dele e a Isabella. A humilhação foi imensa. Sofia sentiu como se sua dignidade tivesse sido arrancada dela. Ela chorou por dias, e Marcos a tratou com um desprezo gelado.
"Você me envergonhou. Precisa compensar por isso" , ele disse.
A compensação foi ela trabalhar em dobro, pegando todos os turnos extras que podia em seu emprego de meio período como designer gráfica, para que "sobrasse mais dinheiro" e ela não sentisse a "tentação" de roubar novamente. Todo o dinheiro que ela ganhava ia diretamente para a conta conjunta que só ele controlava.
Agora, no porão, ela entendia. Foi uma armação. Isabella plantou o colar. Marcos usou a situação para controlá-la, para justificar sua exploração.
Ela pensou em todos os sacrifícios que fez. Ela abandonou sua própria carreira promissora para apoiar os sonhos de Marcos de ter sua própria empresa. Ela trabalhava incansavelmente, cuidava da casa, de Pedro, e ainda fazia trabalhos freelance à noite para pagar as contas, enquanto ele passava os dias em "reuniões de negócios" que agora ela sabia que eram encontros com Isabella. Ele era um fracasso, um homem que vivia da força dela, mas agia como um rei.
A porta do porão se abriu de repente, a luz forte ferindo seus olhos. Marcos estava lá, o rosto uma carranca.
"Levante-se. Vamos sair."
Sofia não se moveu. "Eu não vou a lugar nenhum com você."
"Ah, você vai" , ele disse, um sorriso cruel nos lábios. "Vamos visitar o Pedro. E a Isabella vem conosco. Ela quer prestar suas homenagens."
A menção de Isabella no mesmo fôlego que seu filho a encheu de nojo.
"Você é um monstro."
"Cale a boca" , ele rosnou, puxando-a pelo braço. "Você vai se comportar. Estamos de luto. Somos uma família."
A dor em seu corpo era um lembrete constante de sua brutalidade. Seu braço estava roxo onde ele a havia agarrado. Sua cabeça latejava. Ela sabia que não tinha escolha. Lutar só lhe traria mais dor.
"Eu quero o divórcio, Marcos" , ela repetiu, a voz fraca, mas firme. "Eu não quero nada de você. Só quero ir embora."
Ele riu na cara dela. "Ir embora? Para onde, Sofia? Você vai morar na rua? Você não tem um centavo. Você não é nada sem mim. Eu te dei uma vida. Eu te dei um filho."
"Você o matou!" , ela gritou, a dor crua em sua voz.
O tapa veio rápido e forte. A bochecha dela ardeu, o som ecoando no pequeno porão.
"Nunca mais diga isso" , ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. "Foi um acidente. Um acidente que você provavelmente causou com todo o seu estresse e suas cobranças."
Ela o encarou, o ódio queimando através da dor e do medo. Ela não disse mais nada. Por dentro, ela ria. Um riso frio, amargo. Ele achava que a tinha quebrado, mas ele apenas a estava forjando em algo novo, algo duro como aço. Ele não veria isso chegando.
Ele a arrastou para fora, para o carro. Isabella já estava no banco do passageiro, usando óculos de sol escuros e uma expressão de tristeza perfeitamente ensaiada.
"Sofia, estou tão feliz que você veio" , disse Isabella, a voz suave como seda. "É importante estarmos juntos agora."
Sofia a ignorou, olhando pela janela enquanto eles dirigiam para o cemitério.
O túmulo de Pedro era uma mancha de terra fresca em um mar de grama verde. Uma pequena lápide temporária marcava o local. Sofia sentiu um nó na garganta. Era tão pequeno. Tão final.
Ela se ajoelhou, tocando a terra úmida. As lágrimas que ela não conseguiu chorar no hospital finalmente vieram, silenciosas e quentes.
Isabella se aproximou e colocou uma mão em seu ombro. "Ele está em um lugar melhor agora, irmã."
A hipocrisia era sufocante.
"Não me toque" , disse Sofia, afastando a mão dela.
Isabella recuou, os lábios tremendo. "Marcos, veja como ela me trata! Eu só estou tentando consolar."
Marcos, que estava parado atrás delas, interveio. "Sofia, já chega! Peça desculpas à sua irmã."
Sofia se levantou, encarando-o. "Pedir desculpas? Ela é a razão pela qual meu filho está neste buraco. Você é a razão!"
A raiva de Marcos explodiu. Foi feio, irracional, uma tempestade de fúria.
"Você quer saber a razão? A razão é ele!" , ele gritou, chutando a pequena lápide temporária. A placa de madeira quebrou e voou longe. "Ele era fraco! Sempre doente, sempre precisando de atenção! Ele te distraía do que era importante: eu! Meu sucesso!"
Ele começou a pisotear as flores que alguém havia deixado, esmagando-as na terra com seus sapatos caros. Ele chutava a terra, destruindo o pequeno monte que cobria o caixão de seu filho.
"Você o amava mais do que a mim! Tudo era sempre sobre o Pedro! Agora ele se foi! E você ousa me culpar? Você o sufocou! Você o tornou fraco! A culpa é sua!"
Sofia observou, paralisada pelo horror. Ele não estava apenas profanando o túmulo de seu filho; ele estava dançando sobre ele, cuspindo em sua memória. Isabella assistia a tudo com um pequeno sorriso satisfeito nos lábios, mal disfarçado por sua mão.
Aquele ato de profanação finalizou qualquer resquício de humanidade que ela pensava que Marcos ainda pudesse ter. O homem com quem ela se casou, o pai de seu filho, não existia mais. Em seu lugar, havia um monstro. E ela iria destruí-lo.
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