
Vingança e Novo Amor
Capítulo 3
No dia seguinte, a dor no peito era uma presença física e constante. O luto pela minha mãe era uma névoa densa, mas a humilhação me mantinha de pé, movido por uma raiva fria.
Eu precisava ter certeza.
Uma parte de mim, uma parte pequena e tola, ainda se agarrava à possibilidade de um erro.
Fui até o berçário. Os dois bebês estavam em berços separados. Tão parecidos, mas agora eu os via com outros olhos.
A enfermeira me olhou com compaixão.
"Qual deles é o... qual é o meu?", perguntei, a voz rouca.
Ela apontou para o berço da esquerda. "Este é o menino A. O que tem o seu tipo sanguíneo."
Aproximei-me e olhei para o pequeno ser adormecido. Com cuidado, afastei um pouco o cobertor e levantei a manga de seu macacão.
Ali, na parte de trás do ombro esquerdo, estava a pequena mancha de nascença, em formato de lua crescente.
Exatamente como a minha. Exatamente como a do meu pai. Uma marca da nossa família.
Meu coração se apertou, uma mistura de alívio e dor. Este era meu. Meu sangue.
Respirei fundo e me virei para o outro berço, o do menino B. O filho de Fernando.
Com o coração martelando, fiz o mesmo. Levantei a manga do seu macacãozinho.
O ombro dele estava liso, sem marca alguma.
A última faísca de esperança se apagou. Era real. Tudo era real.
Voltei para o corredor vazio, sentei-me em uma das cadeiras de plástico e peguei meu celular, sem saber o que fazer. Abri as redes sociais por puro hábito, um gesto automático.
E então eu vi.
A primeira foto no meu feed.
Era Ana.
Ela estava sorrindo, radiante, em um quarto que claramente não era de hospital, mas de uma clínica de luxo. Ao seu lado, Fernando, com um braço possessivo ao redor dela. E no colo de Ana, o outro bebê, o filho deles.
A legenda era um soco no estômago: "Começando a nossa família. O amor verdadeiro sempre encontra um caminho. ❤️"
Mas o que me quebrou foi o detalhe na mão dela. Na sua mão esquerda, onde antes estava nossa aliança de casamento, agora havia um anel de diamantes enorme e chamativo.
Eles não estavam apenas juntos. Eles estavam noivos.
Enquanto eu estava no inferno, velando o corpo da minha mãe que ela matou com sua traição, ela estava comemorando sua nova vida, seu novo noivo, sua nova família.
A bile subiu pela minha garganta.
Levantei-me, caminhei até a janela no fim do corredor que dava para um pátio interno. Olhei para a minha própria mão esquerda, para a aliança de ouro simples que eu usava há cinco anos.
Um símbolo de promessas quebradas, de um amor que era uma farsa.
Com um gesto rápido e furioso, arranquei o anel do meu dedo. Ele deixou uma marca pálida na minha pele.
Sem pensar duas vezes, abri a janela e joguei a aliança para longe. Vi o pequeno ponto dourado desaparecer na grama lá embaixo.
Um adeus. Um fim.
Os dias seguintes foram um borrão de dor e burocracia.
Tive que organizar o funeral da minha mãe sozinho.
Ligar para parentes, escolher um caixão, decidir sobre as flores. Cada passo era uma tortura, um lembrete de que ela se foi.
Ana não ligou. Não mandou uma mensagem. Não enviou uma única flor. Era como se minha mãe, que a tratou como uma filha por anos, nunca tivesse existido.
No funeral, os olhares de pena dos parentes e amigos eram quase insuportáveis. Todos sabiam. A história já tinha se espalhado como fogo. O homem traído, cuja mãe morreu de desgosto. Eu era um espetáculo de tragédia.
Depois que o último parente foi embora, voltei para o hospital para buscar meu filho.
Eu o chamei de Léo.
Enquanto a enfermeira me dava as últimas instruções sobre mamadeiras e fraldas, meu celular tocou. Era o número de Ana.
Meu coração deu um salto estúpido. Talvez ela estivesse arrependida. Talvez quisesse pedir perdão.
"Alô?"
"Ricardo. Só estou ligando para avisar que meu advogado vai entrar em contato com você para tratar do divórcio. E para você não se esquecer de tirar todas as minhas coisas do apartamento. Não quero nada que me lembre do passado."
A voz dela era fria, empresarial.
"Minha mãe foi enterrada hoje, Ana."
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Eu soube. Meus pêsames", ela disse, com o mesmo tom de quem comenta sobre o tempo. "Olha, preciso ir. O Lucas está chorando."
Lucas. Ela já tinha dado um nome para o filho de Fernando.
"E o Léo, Ana?", perguntei, a voz embargada. "Você não vai nem perguntar sobre ele? Ele também é seu filho."
"Eu fiz a minha escolha, Ricardo. O Léo tem você. Ele vai ficar bem. Adeus."
E desligou.
Fiquei parado no meio do corredor do hospital, com meu filho nos braços e o telefone mudo na mão.
Abandono.
Ela não apenas me traiu. Ela não apenas causou a morte da minha mãe.
Ela abandonou o próprio filho.
Olhei para o pequeno Léo, que dormia tranquilamente no meu colo.
Naquele momento, todo o amor que um dia senti por Ana se transformou em cinzas. Não havia mais nada. Apenas um vazio gelado e a determinação de proteger aquela pequena vida que dependia inteiramente de mim.
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