
Vingança e Amor: Uma Farsa Gelada
Capítulo 3
Uma semana depois, a mansão está repleta de pessoas.
A elite da cidade, empresários, políticos, socialites. Todos vieram para a festa de "boas-vindas" de Thiago.
Para eles, eu sou Ricardo, o marido exemplar de Patrícia, um homem de negócios astuto que se casou com uma das famílias mais poderosas do país. Minha imagem pública é impecável, construída meticulosamente ao longo de quatro anos. Sou respeitado, admirado e, para alguns, invejado. Ninguém suspeita da escuridão que carrego dentro de mim.
Patrícia está deslumbrante em um vestido vermelho, circulando entre os convidados, a anfitriã perfeita. Ela segura meu braço, sorrindo para as câmeras dos fotógrafos de colunas sociais.
"Você não acha que está tudo perfeito?" ela sussurra para mim, exultante.
"Está magnífico, meu amor," eu respondo, beijando sua bochecha. O gosto de sua pele é amargo.
A festa é uma obra de arte da hipocrisia. Cada sorriso, cada brinde, cada conversa fiada é uma camada de mentira sobre a verdade podre que se esconde por baixo. Eu planejei cada detalhe com Patrícia, garantindo que o evento fosse grandioso, memorável. E, o mais importante, público.
Então, ele chega.
Thiago entra pela porta principal como se fosse o dono do lugar. Ele está mais saudável do que nunca. O rosto bronzeado, o sorriso arrogante. O coração de Daniel bate em seu peito, dando-lhe uma vitalidade que ele roubou.
Ele caminha direto para nós. Patrícia solta meu braço e corre para abraçá-lo. Um abraço um pouco longo demais, um pouco apertado demais para ser apenas amizade. Alguns convidados notam, trocam olhares discretos.
"Thiago! Que bom te ver! Você parece ótimo!" ela diz, a voz cheia de uma emoção que ela nunca usa comigo.
"Estou me sentindo um homem novo, Paty," ele responde, o olhar dele encontrando o meu por cima do ombro dela. Há um desafio em seus olhos, uma provocação silenciosa.
Ele se afasta dela e estende a mão para mim.
"Ricardo. Bom te ver, cara."
Eu aperto sua mão. A mão do homem que ajudou a matar meu melhor amigo.
"Bem-vindo de volta, Thiago. A viagem foi boa?" minha voz é firme, controlada.
"Excelente. A Europa faz maravilhas pela saúde," ele diz, com um sorriso presunçoso.
A conversa é interrompida por um fotógrafo.
"Patrícia, Thiago, Ricardo! Uma foto dos três juntos!"
Patrícia nos puxa para perto. Eu fico ao lado dela, Thiago do outro. O flash dispara, capturando o momento. A viúva em luto, o marido solidário e o homem que vive com o coração do irmão dela. A imagem é grotesca.
Mais tarde, a festa está no auge. A música é alta, o champanhe flui livremente. Estou conversando com um grupo de investidores quando Thiago se aproxima, um copo de uísque na mão.
"Com licença, senhores. Preciso roubar o Ricardo por um minuto," ele diz, com uma autoridade que não possui.
Os homens se afastam, e Thiago se posta na minha frente.
"Sabe, Ricardo," ele começa, a voz baixa e carregada de desprezo. "Eu nunca entendi o que a Patrícia viu em você. Um cara comum, sem nome, sem família. Você só está aqui por causa do dinheiro dela."
A provocação é direta, infantil. Ele quer uma reação. Ele quer que eu perca a compostura na frente de todos.
Eu mantenho meu rosto impassível.
"Eu estou aqui porque amo sua... amiga," eu respondo, a pausa antes de "amiga" sendo intencional.
O sorriso dele vacila por um instante.
"Amiga? É assim que você chama? Nós nos conhecemos desde crianças. Somos família."
"Claro. Família," eu repito, tomando um gole da minha água.
Ele fica irritado com a minha calma. Ele precisa de mais. Ele dá um passo à frente, e "acidentalmente" derrama o uísque em minha camisa. O líquido gelado escorre pelo meu peito.
Um silêncio constrangedor cai sobre as pessoas mais próximas. Todos os olhos estão em nós.
"Oh, meu Deus! Me desculpe! Sou tão desajeitado," Thiago diz, a falsidade pingando de cada palavra.
Ele pega um guardanapo e começa a limpar minha camisa de forma agressiva, quase me esfregando. É um ato de humilhação claro e deliberado.
Eu seguro seu pulso, com firmeza, mas sem violência. Nossos olhos se encontram.
"Está tudo bem, Thiago," eu digo, a voz baixa e gelada, para que só ele possa ouvir. "Acidentes acontecem. Assim como acidentes de carro, não é mesmo?"
O rosto dele perde a cor. O sorriso arrogante desaparece, substituído por um lampejo de pânico. Ele sabe exatamente do que estou falando.
Eu solto o pulso dele.
"Se me der licença, preciso trocar de camisa."
Eu me viro para sair, mantendo a calma. A multidão abre caminho, sussurrando.
Nesse momento, Patrícia se aproxima, com uma expressão de preocupação forçada no rosto.
"Ricardo! O que aconteceu? Thiago me disse que foi um acidente."
"Claro que foi," eu respondo, sem parar de andar. "Seu amigo é apenas... entusiasmado."
"Thiago, você deveria ter mais cuidado!" ela o repreende suavemente, mas não há raiva em sua voz. É apenas uma performance para o público. Ela coloca a mão no braço dele, um gesto de conforto.
Ela está o defendendo. Mesmo depois de ele me humilhar publicamente.
Eu subo as escadas para o nosso quarto. A raiva queima dentro de mim, mas meu rosto permanece uma máscara de tranquilidade.
Eles estão confiantes demais. Arrogantes demais.
Eles acham que ganharam. Que estão no controle.
Essa festa, essa humilhação, tudo isso só fortalece minha determinação.
Eles me subestimaram. E esse será o maior erro de suas vidas. A cortina está subindo, e o segundo ato está prestes a começar.
---
Você pode gostar





