
Vingança de Direito
Capítulo 3
Consegui me desvencilhar de Nicolas tranquilamente naquela noite! Tenho verdadeiro nojo desses garanhões que tomam como certo conseguir me arrastar. Eu estava feliz, em outra vibe! Comecei a estagiar no escritório do meu pai, e precisava aprender tudo o que fosse possível. Até o final da faculdade, ia ser tão grande quanto ele! E ele precisava me treinar com bastante eficiência, pós queria se aposentar e me passar o bastão o mais rápido possível!
Eu percebia que muitos dos seus sócios ficavam irritados com minha presença. Estavam acostumados com profissionais brilhantes, o alto escalão do Direito. Ter uma loirinha iniciante acompanhando tudo de perto era desolador.
Mas eu não me importava. Tinha uma memória fotográfica e um alto poder de guardar ressentimento. Quando percebia alguém torcendo o nariz para mim, automaticamente guardava rosto, nome, posição e tudo o que podia sobre a pessoa na minha caixinha de memórias. Sabia que iam ser informações úteis quando quisesse me vingar.
Por isso, quando em meu terceiro dia no escritório, concentrada nas tarefas que meu pai deixou enquanto ia ao Tribunal, precisei atender um dos contadores e ele foi extremamente gentil e atencioso comigo, até estranhei.
— Senhorita Duprat, sinto muito incomodá—la, mas preciso realmente de uma orientação. Na falta de seu pai, a senhorita é a pessoa com maior responsabilidade aqui.
— Por favor, senhor... — Li o nome em seu crachá — Paulo. Menos formalidades. Eu sou Bianca, prazer . — Estendi a mão pra ele, que hesitou. Estava muito acostumado ao jeito sério e seco que meu pai atendia as pessoas. — Só falo com pessoas que me chamam pelo meu nome. E não sou melhor que ninguém. Pra mim, não são empregados, são colaboradores e podemos agir entre nós sem formalidades.
Paulo retribuiu o cumprimento e começou a explicar a situação. Ele era o chefe dos contadores, quem contratava e revisava o serviço dos outros. Recentemente recebeu a ficha de um recém formado, indicado por um amigo funcionário público. Eles eram irmãos.
— E o senhor pede autorização de meu pai para cada contratação?
— Não, senhorita... Desculpe. O problema é grande. Fazemos uma grande checagem de todos os funcionários novos. Esse processo demora um pouco até a contratação. Mas esse senhor não me interessou muito, a princípio. Então nem mandei fazer a checagem. Mas hoje ele veio até meu escritório, com um relatório que me envergonha.
— Não entendi.
— Eu sou responsável por cada trabalho daqui, e não percebi que temos um contador comprado. Que está sendo pago para dar baixa em 2% de nossas comissões nos processos que ele trabalha.
— Estamos sendo roubados, é isso?
— Sim.
— E o que esse contador tem a ver com tudo isso?
— Ele queria pedir uma entrevista para mostrar sua capacidade, então estudou alguns processos e percebeu o erro. Então estudou mais alguns e percebeu o padrão, e que todos que apresentam erros, são assinados pelo mesmo contador.
— Ele está aqui?
— Sim, por isso a urgência. Está esperando em meu escritório.
— Traga-o pra mim.
Fiquei aguardando Paulo voltar com o rapaz com o estômago revirado. Sabia que essa era minha chance. Deveria saber resolver esse problema e mostrar a todos no escritório que estava no nível do meu pai.
Mas qual seria a reação de papai nesse momento? Eu acreditava que jamais alguém teria coragem de roubá-lo, e sabia que ele também não. Então, não tinha nenhum parâmetro para qual seria a atitude dele.
Estava apavorada em como lidaria com aquele problema. E percebi que era isso o que me esperava para o futuro. Não só ser uma advogada brilhante, com uma carteira vasta de clientes. Eu tinha que lidar com problemas administrativos também. E funcionários, colaboradores, parceiros, sócios. Nem sempre conseguiria agradar a todos, como era o caso no atual momento.
Eu era só uma menina. Uma princesinha criada cheia de mimos. Meu estômago embrulhou de novo quando ouvi a batida na porta, mas me revesti de toda confiança que meu pai depositou em mim, controlei os nervos e fingi que não estava com o estômago cheio de borboletas quando mandei que entrassem.
Tudo em vão quando coloquei os olhos em Gustavo, em nada parecido com o velho nerd de óculos que imaginei.
Quando Gustavo, alto, forte, com cabelos negros e olhos parecendo jabuticabas apertou minha mão, todas as borboletas fugiram do pote que eu prendi e deram crias, espalhadas por meu estômago e fazendo minhas mãos suar.
— Muito prazer, senhorita. Gustavo Namioto, a seu dispôr.
De novo, controlei o nervosismo. Agora estava me tremendo toda! Mas tinha ali um problema maior do que o frio na barriga por conhecer um homem lindo:
— Gustavo, você pode provar e apontar o que está dizendo?
— Sim, senhora.
— Nem senhora, nem senhorita. Paulo, você corrobora o que ele diz?
— Sim, Bianca.
— Então está contratado, Os dois tem uma hora para me trazer as provas. Chequem a origem dos roubos.
— Já fiz isso, Bianca.
— E do que a gente precisa então?
— Chamar a polícia.
— Não. Escândalo e propaganda negativa. Gustavo, você concorda em fazer uma pequena encenação?
— Sem problemas.
— Ótimo! Paulo, imprima toda a checagem do Gustavo e me traga o ladrãozinho!
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