
Vidas Trocadas: A Esposa Errada do CEO
Capítulo 3
Balancei a cabeça devagar, tentando organizar os pensamentos que se atropelavam dentro de mim.
- Paula... não é só vestir suas roupas e repetir seu nome - falei, finalmente. - Sua vida é outra. Seus amigos, seus hábitos, sua forma de falar... Eu não sei viver naquele mundo.
Ela respirou fundo, como se já esperasse por aquilo.
- Eu sei. - Aproximou-se da janela, apoiando as mãos no parapeito. - Você sempre foi... inteira. Eu sempre fui moldada.
Virei o rosto para ela.
- Isso não é verdade.
- É, sim - respondeu, sem me olhar. - Você sabe quem é. Eu sei o que esperam que eu seja.
O silêncio caiu entre nós.
- E sua profissão? - perguntei. - Seus colegas, seus contatos... Eu não posso fingir entender coisas que nunca vivi.
Ela se virou então, com um meio sorriso cansado.
- Nossas áreas são diferentes, mas conversam entre si. Você entende o suficiente para não levantar suspeitas. E o resto... - deu de ombros - ninguém realmente presta atenção quando acha que já sabe quem você é.
Aquilo me arrepiou.
- E seus amigos? - insisti. - Eles te conhecem. Sabem como você age.
- Os mais próximos já se afastaram desde que esse casamento foi anunciado - respondeu, amarga. - E os outros... gostam mais do que eu represento do que de mim.
Caminhou até a cama e se sentou.
- Clara, eu pensei em tudo.
Essa frase nunca é reconfortante. Nunca.
- Antes de voltarmos pra cidade, vamos fingir um acidente doméstico.
Meu coração falhou uma batida.
- Um... o quê?
- Uma queda - disse com naturalidade demais. - Nada espetacular. Escada, banheiro, algo comum. Mamãe vai anunciar tudo com aquele tom dramático que ela sabe usar tão bem.
Engoli em seco.
- Você bate a cabeça - ela continuou. - Fica desacordada por um dia inteiro. Na clínica particular de uma amiga dela. De confiança.
- Eu?
- Sim. Você. Sedada. Quando acordar, vai dizer que está confusa. Pequenos lapsos. Esquecimentos pontuais. Nada grave demais para justificar um afastamento, mas o suficiente para explicar mudanças.
Meu estômago embrulhou.
- Isso explica, caso eu não reconheça algumas pessoas... - murmurei, começando a entender.
- Exatamente. - Os olhos dela brilharam. - Médicos adoram zonas cinzentas. E pessoas ricas não gostam de questionar diagnósticos quando eles são convenientes.
Fiquei em silêncio.
- Temos a semana toda pela frente. Nós vamos estudar juntas - Paula continuou. - Meus gostos, minhas manias, meus amigos mais citados. A mansão. Os empregados. O que cada um espera ouvir.
- E Leonardo? - perguntei, sentindo o nome pesar na língua.
Ela deu de ombros.
- Não temos muito contato. E isso joga a nosso favor.
A ideia crescia diante de mim, assustadora e cada vez mais possível.
- E nossos avós? - minha voz saiu baixa. - E papai?
Ela hesitou pela primeira vez.
- É a parte mais difícil - admitiu. - Talvez... não contemos tudo. Inventamos uma desculpa para sua ausência. Um trabalho. Um projeto temporário.
- Você quer que eu minta para o homem que nunca me escondeu nada?
- É para salvá-lo, Clara! Se dissermos a verdade, ele morre antes da doença. Deixe que ele pense que você está feliz, realizando seu sonho.
- E o dinheiro?
- Pagamento adiantado. - respondeu rápido. - Algo que seja justificado por uma proposta de emprego ou por um projeto remunerado.
Fechei os olhos.
Mentir para estranhos era uma coisa.
Mentir para quem me criou... era outra.
- Eu não posso ficar aqui - Paula acrescentou, quase em defesa. - Não aguentaria. Isso me sufocaria.
- Então você vai pra onde? - perguntei.
Ela respirou fundo, como quem finalmente fala de algo que ama.
- Vou viajar. Como sempre planejei. Um descanso sabático. Europa, Ásia, África... - sorriu de leve. - Termino no Canadá.
Meu peito apertou.
- Tudo já está organizado - continuou. - Agência, roteiro, hotéis. Só vou mudar o nome do pacote.
- Para o meu.
- Sim.
Olhei para ela. Para o mesmo rosto que o meu refletia. Para a distância invisível entre nossas escolhas.
- Você nem vai viver minha vida... enquanto eu vivo a sua - murmurei.
- Quase. Pelo que me lembro, você também sempre quis conhecer o mundo. Estar entre as culturas e os povos que você tanto estuda. Serão apenas alguns meses. É só uma troca temporária.
A palavra "temporária" nunca pareceu tão frágil.
Lá fora, ouvi a tosse do meu pai. Seca. Dolorosa.
Abri os olhos.
- Se eu fizer isso - falei, sentindo o peso da decisão esmagar meus ombros -, não é por você. Nem por esse acordo maldito.
Ela se aproximou.
- Eu sei.
- É por ele - completei. - E só por ele.
Ana Paula assentiu, emocionada.
Naquele quarto simples, entre lembranças de infância e um futuro que eu jamais planejei, entendi que minha vida acabara de se dividir em duas.
A que eu conhecia.
E a que eu estava prestes a roubar.
E, pela primeira vez, senti medo não do que eu perderia, mas de quem eu poderia me tornar.
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