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Capa do romance Vendida para o Dono do Complexo

Vendida para o Dono do Complexo

Luana viveu sob a sombra da miséria até ser entregue como pagamento de uma dívida de sua mãe a Miguel Torres, o implacável Dono do Complexo. Nesse domínio de regras rígidas, ela se torna propriedade de um homem que exige obediência total. O que era castigo vira um embate perigoso entre submissão e desejo. Miguel busca quebrar a resistência de Luana, exigindo não apenas seu corpo, mas sua alma. Em um ciclo de dor e prazer, ela deve escolher entre ceder ou ser destruída.
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Capítulo 1

Luana

A noite caiu sobre o Complexo como uma maldição. O ar estava espesso, carregado de fumaça, suor e silêncio - o tipo de silêncio que precede o grito, o tiro ou o choro. Eu já conhecia bem aquele som invisível. Era o mesmo que cobria as ruas quando alguém ia morrer. As luzes brilhantes dos postes mal conseguiam romper a escuridão opressora, projetando sombras alongadas e distorcidas que dançavam ao ritmo de um vento lúgubre. O cheiro acre de pólvora e esgoto misturava-se ao aroma adocicado da maconha, criando uma sinfonia olfativa nauseabunda que perfumava cada viela, cada beco, cada barraco improvisado que se amontoava na paisagem caótica do Complexo.

As vozes abafadas dos moradores, antes tão vibrantes e cheias de vida, agora eram apenas sussurros temerosos que se perdiam no véu da noite. Crianças que antes brincavam na rua até altas horas, agora estavam trancadas em suas casas, apertadas contra as mães, com os olhos arregalados, esperando o inevitável. Os cães, normalmente tão barulhentos, jaziam quietos, seus latidos silenciados pelo instinto de autopreservação. O Complexo inteiro parecia prender a respiração, ciente de que cada segundo que passava era um passo mais perto da tempestade que se anunciava. Eu, no entanto, não sentia medo. Apenas a familiar sensação de torpor que me acompanhava desde o dia em que o Complexo se tornou meu purgatório. Era a calmaria antes do furacão, a promessa silenciosa de que a violência logo explodiria, arrastando consigo mais uma vida, mais uma esperança. E eu, como um fantasma, observava tudo, ciente de que logo estaria envolvida na tragédia que se desenhava.

E aquela noite... tudo em mim gritava que a morte tinha vindo cobrar. Só não sabia que seria a minha.

Eu estava descalça no chão da sala, as pernas dobradas contra o peito, ouvindo minha mãe sussurrar do outro lado da parede. A voz dela tremia. Eu nunca tinha escutado minha mãe tremer. Nem mesmo quando o marido dela sumiu com tudo o que tínhamos. Nem quando o gás acabou e ela teve que fazer miojo com vela. Mas agora... agora ela tremia.

E quando ela voltou, os olhos dela não se fixaram nos meus.

- O que foi? - perguntei.

Ela não respondeu.

- Mãe?

Ela engoliu seco. Sentou no sofá e soltou a bolsa no chão como se ela pesasse uma tonelada. A bolsa não pesava. Mas a culpa, sim.

- Eu fiz uma besteira, filha.

Meu estômago se revirou.

- Que tipo de besteira?

- Eu... eu pedi ajuda ao Miguel.

Miguel.

O nome bateu no meu peito como um soco seco. Quase cuspi.

Miguel Torres. O nome que ninguém dizia em voz alta no Complexo. O Dono. O Chefe. O Inferno com rosto.

Ele não era só traficante. Era o arquiteto do medo. O homem que mantinha todos em silêncio. O tipo de homem que podia arrancar sua língua por olhar torto. Que fazia do castigo um ritual. E agora... minha mãe tinha ido até ele?

- Você tá brincando - sussurrei.

- Eu não tinha escolha, Luana. Ele... ele emprestou o dinheiro. Era isso ou...

- Ou o quê? Deixar a gente com fome? A gente já passou fome antes! Mas isso? Isso é se vender pro diabo!

Ela fechou os olhos. A culpa explodindo nas rugas dela.

- Eu vou pagar - ela disse. - Eu juro que vou pagar.

Mas até eu sabia que era mentira. A dívida era grande demais. E Miguel não cobrava em reais.

Ele cobrava em carne. Em alma. Em obediência.

Duas noites depois, vieram me buscar.

Três homens bateram na porta. Não precisaram dizer nada. Um deles estendeu a mão, como se eu tivesse escolha. Minha mãe chorava em silêncio no corredor, encolhida como criança. Eu encarei aquele homem com ódio. Mas minhas pernas tremiam.

Fui com a roupa do corpo. Um short jeans, regata preta e chinelo. Fui como se fosse pro matadouro.

A Kombi velha me levou morro acima. Cada curva parecia mais escura. As luzes das casas iam sumindo. E então, o portão. Duplo, de ferro, alto. Guardas com fuzis. Eu nunca tinha chegado tão perto da casa dele.

A mansão do Miguel era um insulto no meio da favela. Muro alto, câmeras em todo canto, fachada branca imaculada. Como se o inferno tivesse decidido se vestir de paz.

- Sai - ordenou um dos capangas.

Saí.

Eles me conduziram até dentro como se eu fosse nada. A sala era ampla, com móveis caros demais pro cheiro de pólvora e suor que impregnava tudo. E ali, no centro da sala, ele estava sentado.

Miguel Torres.

Alto. Corpo largo. Camisa social preta, mangas dobradas nos antebraços. Olhos que não piscavam. Uma presença que esmagava.

Ele não me olhou de imediato. Continuou bebendo uísque como se eu não estivesse ali. Como se fosse apenas mais uma coisa que ele havia comprado.

- Senta - ele disse, sem levantar os olhos.

Não obedeci.

Foi instinto. Raiva. Medo disfarçado de orgulho.

Ele levantou o olhar. E quando nossos olhos se encontraram, eu senti como se ele me atravessasse.

- Senta - repetiu, mais baixo.

Eu sentei.

Minha respiração estava descompassada. As mãos suavam. E ele... apenas me observava. Como quem analisa uma peça. Como quem escolhe por onde vai começar a desmontar.

- Teu nome é Luana, né?

Assenti com a cabeça.

- A dívida da tua mãe é alta. Dinheiro que ela não tem. E diferente dela... você vale alguma coisa.

Meu coração disparou. Ele se aproximou. Os passos lentos. As mãos nos bolsos. Ele parou na minha frente.

- Você vai pagar por ela.

Eu cerrei os punhos.

- Como?

Um canto da boca dele se curvou, como quem aprecia a pergunta.

- Com obediência.

Fiquei em silêncio. Mas por dentro eu gritava. Meu corpo todo tremia.

- Aqui dentro, você não fala sem permissão. Não sai sem autorização. E, acima de tudo... não me desafia.

Ele inclinou o rosto. Tão perto que eu senti o hálito quente no meu pescoço.

- Entendido?

Engoli seco. E pela primeira vez, senti as correntes invisíveis apertarem.

- Entendido - sussurrei.

Ele se afastou.

- Boa garota - disse com um sorriso frio.

Aquela noite, ele não me tocou.

Mas me trancou em um quarto escuro com apenas um colchão no chão, sem janelas. As paredes nuas pareciam gritar. E mesmo no escuro, eu sabia: ali não era um quarto. Era uma jaula.

E eu era a nova propriedade do Dono do Complexo.

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