Capa do romance Vendida Ao Don Da Máfia

Vendida Ao Don Da Máfia

8.0 / 10.0
Valentina Rojas achou que amava, mas acabou vendida pelo próprio parceiro para quitar dívidas. Agora, ela pertence a Dante Vitale, o temido herdeiro da máfia italiana que a comprou com um único fim: gerar seu sucessor. Entre o ódio profundo e um desejo avassalador, dois corações feridos que juraram nunca mais se entregar enfrentam uma paixão perigosa. Em um jogo de controle e obsessão, eles descobrirão que o amor pode tanto curar quanto destruir de vez.

Vendida Ao Don Da Máfia Capítulo 1

Valentina

O homem que eu amava me deu flores. Depois, me deu como pagamento.

As rosas estavam frescas quando Giovanni chegou. Vermelhas demais para a noite tranquila que ele tentou pintar, cheiro doce demais para combinar com a tensão que eu sentia no ar desde cedo, uma coisa invisível, mas insistente, como fumaça que entra pela fresta e se recusa a ir embora.

— Pra você. — Ele sorriu, daqueles sorrisos que sempre me desmontavam, e colocou o buquê nos meus braços como se estivesse selando uma promessa.

Eu ri, meio sem graça, apertando as flores contra o peito.

— Não precisava…

— Eu sei. — Giovanni se aproximou e encostou a testa na minha. — Mas eu quis.

Por um segundo, eu acreditei. Acreditei como sempre acreditava.

Giovanni era o tipo de homem que fazia você se sentir escolhida. Não por acaso, não por falta de opção, mas como se você fosse a única coisa certa num mundo cheio de decisões erradas. Ele falava baixo quando estava sério, e quando me chamava de mia bella, eu esquecia que era uma órfã com um sobrenome emprestado, vivendo de pequenos trabalhos e de um orgulho que eu carregava como escudo.

Foi ele quem me apresentou aos Moretti.

“Eles vão te amar”, ele disse, na primeira vez que me levou àquela casa enorme com cheiro de vinho, charutos e comida cara. “Você vai ter uma família.”

Eu não disse em voz alta, mas foi ali que meu coração se abriu pela última vez. Eu queria tanto aquilo… um lugar. Um nome. Alguém que me esperasse.

Os pais de Giovanni me tratavam com uma gentileza medida, educada, correta, distante. Os irmãos me olhavam como se eu fosse um detalhe que ainda não decidiram se incomoda ou diverte. Mas Giovanni segurava minha mão por baixo da mesa e apertava meus dedos, como se dissesse: eu tô aqui.

E eu ficava.

Eu sempre ficava.

Naquela noite, ele me beijou na testa, como se eu fosse de vidro.

— Preciso resolver uma coisa com meu pai. — falou, ajeitando a manga do paletó. — É rápido. Você espera no quarto?

— Agora? — estranhei. — Já é tarde.

— Eu sei. — Ele passou os dedos pelos meus cabelos, carinhoso demais. — Mas é importante. Por mim.

Por mim.

Eu sempre caía nessa parte.

Assenti, mesmo com o estômago apertado por um pressentimento que eu não queria nomear. Caminhei com o buquê até o quarto de hóspedes onde eu ficava quando passava a noite na casa deles. Era bonito. Grande. Impessoal. Tudo ali gritava que eu era visita mesmo quando Giovanni jurava que eu já era parte.

Coloquei as flores numa jarra e tentei relaxar. Tirei os sapatos. Sentei na beira da cama.

Respirei.

Não era a primeira vez que eu me sentia deslocada, mas era a primeira vez que eu sentia… medo. Um medo sem forma, sem rosto. Um medo que não vinha de uma ameaça direta, e sim daquela certeza ancestral que mora no corpo quando alguma coisa está errada.

Levantei e fui até a porta, só para ter certeza de que estava encostada.

Quando girei a maçaneta, ela não cedeu.

Tentei de novo. Mais forte.

Nada.

Meu coração deu um salto seco.

— Giovanni? — chamei, batendo de leve. — Ei… a porta travou.

Silêncio.

Bati mais uma vez, agora com o punho.

— Giovanni! Para de brincadeira.

Ainda silêncio.

Um arrepio subiu pela minha nuca.

Eu não era criança. Não era ingênua ao ponto de achar que homens como os Moretti brincavam com tranca e chave. Algo pesado demais pairava naquele corredor do lado de fora e, de repente, o quarto não parecia mais um quarto.

Parecia uma cela.

Eu respirei fundo, tentando não entrar em pânico. Não tinha janela que desse para o jardim; era uma janela alta, mais decorativa do que útil. O celular estava na bolsa, em cima da poltrona. Peguei rápido, dedos tremendo.

Sem sinal.

Claro. A casa tinha pontos cegos. Pessoas ricas adoravam privacidade.

— Tá… tá tudo bem. — murmurei para mim mesma, como se minha voz fosse capaz de segurar a minha calma no lugar.

Aproximei o ouvido da porta.

Lá fora, finalmente, ouvi passos.

E vozes.

Vozes baixas. Masculinas. Aquelas conversas que acontecem quando alguém acha que não pode ser ouvido.

Me inclinei ainda mais, prendendo a respiração.

— …não dá pra voltar atrás, Giovanni. — disse uma voz mais velha, áspera. — O acordo já foi feito.

— Eu sei. — Giovanni respondeu. E a forma como ele falou meu nome logo depois me fez gelar. — Ela tá aqui. Tá tudo sob controle.

Eu senti o chão fugir um centímetro sob os meus pés.

“Ela”.

Eu.

Meu estômago revirou.

— Você tem certeza? — outra voz entrou na conversa, mais fria, mais impaciente. Um dos irmãos? Talvez o tio. — O Vitale não aceita erro. Se ele desconfiar…

Vitale.

O nome bateu dentro de mim como um soco.

Eu já tinha ouvido rumores. Nas ruas, em cochichos. Em notícias mal explicadas. Em “acidentes” e “desaparecimentos” que todo mundo entendia sem precisar perguntar. Vitale era o tipo de sobrenome que fazia gente adulta abaixar a voz.

— Ela é perfeita. — Giovanni falou, e o desprezo escondido ali me deu vontade de vomitar. — Vinte e dois. Sem ligação com ninguém. Órfã. Não tem amigos. Não tem família.

Meu coração começou a bater tão forte que eu temi que eles ouvissem.

— E… — ele hesitou, e então completou com naturalidade, como quem comenta sobre um carro ou um relógio — …ela é virgem.

O ar sumiu dos meus pulmões.

Eu apertei o celular com tanta força que a capa rangiu.

Virgem.

Eu sempre guardara isso como escolha. Como decisão. Como uma parte de mim que eu controlava num mundo em que quase tudo escapava. E ele… ele usava isso como valor de mercado.

Uma risada baixa surgiu do outro lado.

— Ótimo. — um dos homens disse — Isso vai facilitar as exigências do Don.

Eu me encostei na parede para não cair.

Don.

Meu corpo inteiro começou a tremer, mas não era choro. Era raiva. Era choque. Era aquela sensação de estar olhando para o próprio coração fora do peito, sendo segurado por mãos sujas.

— Ela não pode desconfiar de nada. — Giovanni continuou. — Eu cuidei disso. Ela confia em mim. Sempre confiou.

Ele disse como se fosse mérito.

Como se eu fosse um animal treinado.

Ouvi passos mais próximos. Uma pausa.

— E quando ele vem? — alguém perguntou.

— Hoje. — Giovanni respondeu, e eu quase gritei. — Mais tarde. Eles vão buscá-la. Eu só precisava… preparar.

Preparar.

As flores. O sorriso. O beijo na testa.

Eu senti um gosto amargo subir pela garganta. Eu queria abrir a porta e partir para cima dele. Queria arranhar o rosto bonito que eu tantas vezes beijei. Queria quebrar tudo naquela casa que fingia ser minha família.

Mas eu tinha uma coisa que a raiva não dá: instinto.

Instinto de sobrevivência.

A conversa se afastou pelo corredor.

E eu entendi, com uma clareza cruel: eu não tinha tempo.

Olhei ao redor, desesperada, buscando qualquer saída. O quarto era alto, mas a janela… a janela tinha uma trava simples. Corri até ela, puxei com força. Travada por dentro? Não. Abriu com um estalo.

O vento frio da noite bateu no meu rosto, e foi como se o mundo lá fora me chamasse pelo nome.

O terreno era alto. Não era um segundo andar comum era mais. Mas eu vi uma varanda lateral, uns dois metros abaixo, com uma cobertura de vidro que dava acesso a uma parte menos iluminada do jardim.

Se eu esperasse, eu seria “buscada”.

Eu já sabia o que isso significava.

Meus dedos se fecharam no parapeito. As mãos suavam. O coração gritava para eu ser cuidadosa, mas o medo empurrava mais forte.

Eu respirei uma vez. Duas.

E então subi.

O vidro da varanda parecia frágil, mas havia uma viga metálica na lateral. Eu podia me apoiar ali.

Foi quando ouvi de novo a voz de Giovanni, mais perto, vindo de algum lugar abaixo.

— A ideia é simples. — ele disse, e eu congelei com metade do corpo para fora. — Eu entrego e ele apaga a dívida. Feito.

Dívida.

Então era isso.

Eu fui o pagamento.

Um objeto. Uma moeda. Uma solução.

Eu mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue.

E mesmo tremendo, mesmo com as pernas ameaçando falhar, eu me obriguei a descer.

Meus pés tocaram a cobertura de vidro com um rangido assustador. O material cedeu um pouco, mas não quebrou. Eu me movi devagar, como um animal acuado, até alcançar a estrutura lateral e escorregar para o chão do jardim.

Quando meus pés finalmente tocaram a grama, eu quase chorei de alívio.

Quase.

Porque naquele exato instante, ao longe, eu vi os faróis.

Dois carros pretos, grandes, silenciosos, entrando pelos portões.

E eu entendi, com o corpo inteiro gelando:

Eles já tinham chegado.

Eu apertei as flores que eu ainda carregava sem perceber o buquê que Giovanni me deu e, num impulso, joguei no chão.

As rosas se espalharam como sangue sobre a grama.

Então eu corri.

Sem bolsa. Sem dinheiro. Sem plano.

Só com uma certeza queimando por dentro:

Se eu fosse capturada… eu não voltaria a ser Valentina Rojas.

Eu viraria propriedade de alguém que eu ainda não tinha visto.

E eu precisava, pelo menos uma vez na vida, tentar fugir antes que me tirassem até isso.

E, quando uma mão forte agarrou meu braço na escuridão, eu soube que eu não tinha sido rápida o suficiente.

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