
Uma Segunda Chance Para Salvar Nossas Vidas
Capítulo 2
Ponto de Vista: Camila
"Mamãe, meu ouvido dói", Júlia choramingou, segurando o lado da cabeça. Seu rosto estava corado e uma fina camada de suor cobria sua testa.
"É só um arranhão, Júlia", disse Vanessa com desdém, sem nem olhar para ela. "O Douglas não fez por mal."
Mais cedo, no caos que se seguiu à chegada da assessora de Juliano, Douglas havia deliberadamente tropeçado em Júlia. Ela caiu com força, batendo a cabeça na borda de um vaso de plantas. Juliano, é claro, estava ocupado demais socializando para notar.
"Não é só um arranhão, Vanessa", retruquei, minha voz afiada. "Ela tem um galo do tamanho de uma bola de golfe atrás da orelha. E você prometeu a ela um vestido novo hoje, lembra? Para as fotos da escola."
Vanessa acenou com a mão, dispensando minhas palavras como moscas incômodas. "Ah, isso. Eu esqueci. Olha, tenho certeza que o Juliano compra um para ela mais tarde. Ou você pode comprar. Você é a mãe dela, afinal." Ela remexeu em uma bolsa de grife. "Toma, Júlia. Fique com isso. É uma presilha de cabelo de grife. Muito melhor que um vestido."
A presilha, um acessório de plástico brilhante e de aparência barata, cintilou zombeteiramente em sua mão. Júlia apenas olhou para ela, depois de volta para seu próprio vestido surrado. Seu lábio inferior tremeu.
"Vanessa, ela não quer uma presilha de cabelo", eu disse, minha voz tensa de raiva contida. "Ela queria um vestido. Um vestido novo. Como o Douglas ganha toda semana."
Vanessa suspirou dramaticamente. "Olha, Camila, estou ocupada. E, francamente, sua filha está sendo muito ingrata. Você deveria ensiná-la a apreciar o que tem, não a cobiçar o que os outros possuem." Ela gesticulou para a luxuosa sala de estar. "Vivemos no luxo! Seja grata!"
Meu olhar pousou em um cupcake gourmet meio comido, decorado com confeitos coloridos, jogado no tapete branco impecável. O último petisco descartado por Douglas. Os olhos de Júlia seguiram os meus, uma nova onda de lágrimas surgindo.
"Sabe", continuou Vanessa, alheia, ou talvez deliberadamente cruel, "Juliano mencionou que precisa de alguém para organizar sua próxima gala de caridade. Seria uma excelente exposição para você, Camila. Restabelecer sua carreira. Ajudá-la a se reerguer depois de... bem, depois de tudo." Ela sorriu, uma expressão açucarada que não alcançou seus olhos. "Você poderia até ficar aqui, na suíte de hóspedes, durante o planejamento. Juliano é muito compreensivo, sabe."
Meu sangue gelou. "Juliano já garantiu que eu não tenha acesso aos meus próprios fundos, Vanessa. Não consigo nem chamar um táxi sem pedir dinheiro a ele." Lembrei-me da conta bancária vazia, dos cartões de crédito congelados. A maneira de Juliano garantir que eu permanecesse dependente, impotente. Seu "amor" distorcido.
Os olhos de Vanessa piscaram, um lampejo momentâneo de surpresa. Ela se recuperou rapidamente. "Ah, isso. Bem, ele provavelmente está apenas tentando te ensinar responsabilidade, querida. Mas tenho certeza que ele ficaria feliz em te dar uma mesada se você estivesse trabalhando para ele. Pense nisso como uma ajuda de custo!"
"Uma ajuda de custo para ser sua assistente não remunerada?", zombei. "Não, obrigada. Júlia precisa de uma mãe, não de uma secretária glorificada."
Vanessa fez beicinho. "Tudo bem. Seja difícil. Mas não venha chorando para mim quando sua filha ainda estiver vestindo trapos." Ela se virou para sair. "Sinceramente, algumas pessoas simplesmente não reconhecem uma boa oportunidade quando a veem."
Inclinei-me, puxando Júlia para meus braços. Seu corpinho parecia febril. "Está tudo bem, meu amor. A mamãe vai dar um jeito."
"Mamãe, estou com frio", ela sussurrou, tremendo.
Acariciei seu cabelo, meu olhar caindo sobre o pequeno umidificador portátil no canto da sala. Era dela, um aparelho caro de grau médico que Juliano havia comprado quando ela teve pneumonia no inverno passado. Agora, Douglas o usava para umidificar o terrário de seu lagarto exótico.
Levantei-me, caminhando em direção a ele. "Júlia precisa disso, Vanessa. A respiração dela parece difícil."
Vanessa nem se virou. "Ah, essa coisa velha? O Douglas está usando para o geco dele. É muito importante para o ecossistema dele."
"É para a Júlia!", gritei, minha paciência se esgotando. Avancei para pegar o umidificador, mas a assessora de Vanessa, que estava por perto, apareceu de repente, bloqueando meu caminho.
"Sra. Gutierrez, por favor. Não vamos fazer uma cena."
Eu fervia de raiva, meus olhos queimando nas costas de Vanessa enquanto ela se afastava.
Mais tarde, enquanto eu tentava acalmar Júlia em nosso quarto apertado e improvisado – o antigo depósito que Juliano nos designou – a casa estava cheia de sons de risadas e música. Douglas e Vanessa estavam dando uma festa luxuosa, comemorando alguma nova "conquista" de Juliano.
Júlia tossiu, um som seco e cortante que rasgou meu coração. Lembrei-me do umidificador, aquele que eu não consegui recuperar.
De repente, um grito agudo ecoou do quarto de Douglas. Então, silêncio. Seguido pelos gritos frenéticos de Vanessa.
"Meu geco! Meu precioso Fofucho!"
Ouvi os passos pesados de Juliano correndo em direção ao quarto de Douglas.
Meu coração disparou. Por favor, que não seja...
Mas eu sabia. Eu já tinha vivido isso antes.
Corri para Júlia, sua respiração agora superficial e irregular. "Meu amor, você está bem?"
Ela balançou a cabeça, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Não consigo respirar, mamãe."
O pânico me tomou. Eu precisava do umidificador. Corri para o quarto de Douglas, empurrando os convidados preocupados da festa.
Juliano estava lá, embalando um lagarto sem vida. Vanessa soluçava teatralmente. "O Douglas deixou o umidificador ligado no máximo! Ele afogou o Fofucho!"
"Meu umidificador!", gritei, pegando o aparelho. Estava encharcado por dentro, a fiação claramente queimada. "Está quebrado!"
Juliano mal olhou para mim. "Camila, agora não é hora. O Douglas está arrasado."
"A Júlia não consegue respirar, Juliano! E seu filho quebrou o umidificador dela!"
"Aquele umidificador velho?", Juliano zombou. "Eu compro um novo para ela amanhã. Dificilmente é uma crise." Seu tom era desdenhoso, seus olhos fixos no lagarto morto.
Eu queria gritar, atacar. Mas os suspiros de Júlia por ar me trouxeram de volta à realidade. Eu precisava conseguir ajuda para ela.
Tentei ligar o carro, mas o motor apenas engasgou e morreu. Alguém havia mexido na bateria. Juliano. Tinha que ser ele. Ele não queria que eu fosse embora.
Eu estava presa.
Naveguei freneticamente pelo meu celular, desesperada por uma saída. Sem sinal. Juliano provavelmente o havia bloqueado.
Então, um lampejo. Uma notificação do Instagram. Vanessa acabara de postar uma foto: "A pequena travessura do Douglas! Ops, parece que alguém está com ciúmes do Fofucho! #molequesendomenino #brincadeirinha"
A foto mostrava Douglas, com um olhar presunçoso no rosto, segurando um alicate. Ao lado dele, o umidificador desmontado.
Meu sangue gelou. Não foi um acidente. Foi deliberado.
Uma onda de náusea me invadiu. Juliano sabia. Ele tinha que saber. Ele permitiu isso. Ele tolerou isso.
Eles a querem fora.
Os gemidos de Júlia ficaram mais fracos. Seu peito pequeno arfava. Senti um grito primal subindo pela minha garganta.
Finalmente, o lamento distante de sirenes. Uma ambulância. Eu havia conseguido enviar uma mensagem de texto confusa para uma amiga antes que meu celular morresse completamente.
Enquanto os paramédicos entravam correndo, uma mulher em um jaleco branco impecável se aproximou de mim. "A senhora é a Sra. Gutierrez? Sou a Dra. Beatriz Almeida. Recebemos uma chamada de emergência sobre uma criança com problemas respiratórios."
Sua voz era calma, tranquilizadora. Um farol no caos turbulento.
"Sim, ela não consegue respirar!", engasguei, apontando para Júlia.
Os paramédicos rapidamente estabilizaram Júlia, depois se viraram para mim. "Senhora, precisamos levá-la ao hospital. E há a questão do pagamento..."
Meu coração afundou. Juliano havia esvaziado nossa conta conjunta. Controle. Sempre controle.
Procurei freneticamente por minha carteira. Vazia. Eu não tinha dinheiro, nem cartões.
"Eu... eu não tenho agora", gaguejei, minha voz tremendo. "Meu marido... ele cuida de todas as finanças."
Os olhos da Dra. Almeida se estreitaram. Ela olhou para a comoção em torno de Juliano, que agora lamentava dramaticamente o lagarto de seu filho.
"Não se preocupe, Sra. Gutierrez", disse ela, sua voz firme. "Nós vamos resolver isso. A saúde da sua filha é a prioridade."
Enquanto levavam Júlia, vi Juliano ao telefone, alheio. Tentei ligar para ele, mas a linha estava muda.
Um momento depois, uma notificação apareceu no meu celular, antes que ele desligasse completamente: um alerta de notícias. Juliano acabara de postar uma foto dele e de Vanessa, rindo com champanhe. "Celebrando um novo capítulo! Avante e para cima!"
O mundo ficou turvo. Ele sabia. Ele tinha que saber. E ele não se importava.
"Juliano", sussurrei, um voto silencioso escapando dos meus lábios. "Você vai pagar por isso."
Dra. Almeida, vendo minha angústia, colocou uma mão reconfortante em meu braço. "Vamos, Sra. Gutierrez. Vamos para o hospital. Sua filha precisa de você."
Olhei para ela, uma estranha, um rosto gentil em um mar de indiferença. "Obrigada", engasguei, lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto.
"Não me agradeça", disse ela, seus olhos cheios de uma determinação silenciosa. "Vamos apenas focar na Júlia."
No hospital, as enfermeiras me apresentaram uma conta formidável. "Senhora, precisamos do pagamento imediato para a internação de emergência e o tratamento."
Olhei para os números, minha mente girando. Eu não tinha nada. Juliano havia garantido que eu não tivesse nada.
Tentei ligar para ele novamente, mas ainda sem resposta. Rolei por suas redes sociais, um terrível pressentimento se instalando em meu estômago. Com certeza, um novo post: "Vida de jatinho particular! Partindo para um retiro muito necessário com minha amada Vanessa e Douglas. #abençoado #autocuidado"
Ele havia me bloqueado. Ele nos deixara para morrer.
Um nó frio e duro se formou em meu estômago. Era isso. Este era o momento em que tudo mudava.
"Por favor", implorei à enfermeira, "há algo... que eu possa fazer? Eu faço qualquer coisa."
A enfermeira, uma jovem de rosto gentil, olhou para mim com pena. "Senhora, sinto muito. Política do hospital."
Naquele momento, a Dra. Almeida reapareceu. "Há algum problema aqui?"
"A Sra. Gutierrez não pode cobrir os custos iniciais, Doutora", explicou a enfermeira.
O olhar da Dra. Almeida endureceu. Ela olhou para mim, depois de volta para a enfermeira. "Coloque na minha conta."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. "O quê?"
"Eu disse, coloque na minha conta", ela repetiu, sua voz não deixando espaço para discussão. "O cuidado da Júlia vem em primeiro lugar."
Lágrimas escorreram pelo meu rosto. "Mas... por quê?"
Ela me deu um sorriso pequeno e triste. "Porque às vezes, Camila, você simplesmente tem que fazer a coisa certa."
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