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Capa do romance Uma noite de prazer

Uma noite de prazer

Após uma noite traumática, retorno para casa em silêncio absoluto para não despertar minha irmã. Cada movimento é um suplício; rastejo pelas escadas suportando uma dor agonizante. No escuro do quarto, hesito em encarar meus ferimentos. Ao acender a luminária, a visão dos meus dedos machucados traz o choro inevitável. Mesmo ferida, abro o diário que ganhei dela e tento registrar o ocorrido, enquanto lágrimas caem sobre o papel e a dor persiste.
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Capítulo 3

E fiquei mais uma noite sem dormir. Acho que isso está virando rotina mesmo. Aqui estou, sentada na cama com os joelhos dobrados tentando relaxar, mesmo sabendo que não iria conseguir.

Olho para o relógio do criado-mudo e reparo que já são quase cinco da manhã. Resolvo me levantar, sigo para a cozinha e começo a fazer o café da manhã. Logo a Vanessa iria acordar, com uma baita fome.

Às vezes eu tenho uma grande inveja dela. Minha irmã é perfeita em tudo. Tem um corpo de dar inveja. Lindos cabelos negros e compridos. Somos completamente diferentes, eu sou ruiva de cabelos ondulados.

Vanessa sempre fala que puxei à nossa mãe — que Deus a tenha em um bom lugar. Às vezes é difícil pensar que nossos pais acabaram morrendo em um acidente de avião alguns anos atrás.

Faço um café não muito forte e começo a tomar, sentindo logo o seu sabor maravilhoso. Fico ali mergulhada em pensamentos profundos, quando dou de cara com a Vanessa.

— Você está aí parada há muito tempo? — pergunto, curiosa.

— Na verdade não. Perdeu o sono?

— Sinceramente, nem dormi ainda.

— Você teve pesadelos novamente?

— Sim.

— Duda, você precisa procurar ajuda novamente.

— Eu não acho que preciso — desconverso. Não me sinto bem em ficar falando da minha vida para um desconhecido.

— Duda, minha irmã, é claro que precisa!

— Melhor mudarmos de assunto.

— OK, por ora vamos deixar quieto — ela cede, e dou graças a Deus.

— Me conta sobre a festa do trabalho, vai me trazer chocolate? — pergunto, não vendo a hora de comer aqueles chocolates maravilhosos.

— Então, já fechei o Buffet, e as cestas estão preparadas com chocolates, fora a nossa cesta de Natal.

— Oh, delícia, Vane, eu amo aqueles chocolates.

— Eu sei, e estava falando com o meu chefe sobre você — ela diz, sem me olhar.

— Vane! — alerto-a, e olho feio para ela, que me olha como se não tivesse falado nada.

— Fique tranquila, eu não estou querendo juntar vocês dois, não!

— Isso é muito bom — fico mais tranquila.

— Então, deixa te contar, ele pediu para te convidar para ir à festa dos funcionários.

— Ah, é claro que você disse que eu não iria, né?

— Então… — ela demora para responder, e volto a olhar feio para ela.

— Droga, Vane! — desde que fui violentada, peguei um tipo de trauma, ou melhor, vários, e um deles é sair de casa para ir a alguma festa.

— Ei, não falei nada, só disse que eu precisava te perguntar — ela se defende.

— Hum, sei — olho-a desconfiada.

— Mas é verdade, e, sinceramente, eu acho que está na hora de você começar a sair.

— Vane, eu ainda não me sinto pronta.

— Duda, se você não sair de casa, nunca vai achar que está pronta!

Eu sei que o que ela está dizendo é verdade. O único problema é que toda vez que sou convidada para ir a alguma festa ou mesmo um barzinho eu tenho algum tipo de bloqueio.

— Duda, acorda! — Vane me chacoalha.

— O que houve? — pergunto, sem entender nada.

— Parecia que você estava em transe — ela brinca.

— Estava pensando no que você estava dizendo.

— E aí, você vai? — ela pede, toda esperançosa.

— Ainda não decidi.

— Duda, vamos fazer o seguinte, que tal a gente ir ao shopping depois do trabalho? — Vane pergunta, toda animada, e não quero estragar a alegria dela, então decido ceder por ora.

— Eu te encontro lá no shopping, o que acha?

— O que acha de você ir me encontrar lá no serviço?

— Bom… não sei.

— Ora, vamos, ninguém vai morder você! — ela brinca, e fico com a sensação de que isso poderia acontecer.

— OK, OK! Eu te encontro lá — respondo, já me arrependendo de ter concordado com esse passeio.

— Ótimo! Eu quero comprar uma roupa bem bonita para sair com o meu doutor — Vane fala, bem sonhadora.

Minha irmã acabou mesmo namorando o meu médico. É claro que isso não podia acontecer quando eu estava internada. Mas isso não foi empecilho para o meu ex-médico, que agora é meu cunhado e amigo.

Ele é o único homem que eu deixo se aproximar de mim. Sei que ele não me faria mal. Eu devo muito ao doutor Lucas Leão, meu futuro cunhado.

— Vane, está na hora de vocês dois oficializarem a união, não? — brinco, sabendo que ela sempre fala nisso.

— Sim! — ela concorda, toda emocionada.

— Graças a Deus!

— Então, ele me convidou para jantar amanhã, acho que ele vai me fazer a proposta.

— Você merece tanto, minha irmã! — falo, com sinceridade.

— E você também, Duda, é só deixar o amor bater à porta. Olho para o relógio e vejo que são seis horas da manhã.

— Bom, vamos mudar de assunto, preciso tomar um banho e me arrumar, daqui a pouco eu tenho que ir para o curso — desconverso, me levantando e indo em direção às escadas, quando a ouço me chamando. Finjo que não a ouço, mas quando já estou no primeiro degrau escuto o grito dela.

— Duda! — percebo a advertência em sua voz.

— O que foi? — me faço de desentendida.

— Você sabe que não pode fugir para sempre! Eu sei que não, e só respondo:

— Sim, eu sei! — e subo correndo, não querendo responder a mais nada.

Chego à fábrica e logo sinto o aroma de chocolate vindo em minha direção. Gemo de prazer. Amo chocolate. Nossa, e ele usado no meu pau fica perfeito!

Entro no elevador e logo ouço um grito pedindo para segurar a porta. Como todo-cavalheiro que eu sou, seguro-a. Logo vem, praticamente descabelada, a minha secretária.

— Oh, não acredito que é você — brinco.

— Quem você achava que era? A Branca de Neve? — ela ironiza.

— Nossa, o que deu em você? — eu tenho que a tratar bem, senão é bem capaz de ela colocar veneno no meu café.

— Mal dormi — ela resmunga.

— Bom, isso dá para ver na sua cara — brinco, e recebo um olhar mortal. Fico em silêncio.

— Não começa, Leon!

— Você não quer me contar por que não dormiu?

— Minha irmã teve pesadelos novamente — ela dá de ombros, como se fosse normal.

— Nossa, ela deve ter passado por algo bem pesado mesmo!

— Sim, as coisas para ela não foram fáceis.

— Sua irmã deve ter assistido a algum filme de terror — brinco, querendo aliviar o clima, que de repente ficou tenso.

— Quem dera! — ela diz, triste.

— Você não quer me contar?

Quando ela ia responder, as portas do elevador se abrem, e deixo a Vanessa sair primeiro. Ela segue para a copa, e vou também.

Vanessa está muito quieta, e eu não quero forçá-la. E ali fico, observando-a fazer o café. Logo a máquina libera um aroma delicioso.

— Eu quero café, Vane — peço, e ela toma um susto.

— Meu Deus, homem, não me assuste assim, não! — ela diz, brava, colocando a mão no coração.

— Desculpa, mas você está muito calada.

— Me desculpa, eu estava perdida em meus pensamentos.

— Fica tranquila.

Ela agradece e logo está me servindo uma caneca de café. Do nada, diz:

— Leon, minha irmã vai vir aqui hoje.

— Sem problema — concordo com tudo, não quero a minha secretária chateada mesmo não sendo eu o culpado. Porque ela zangada ou chateada é uma coisa do demônio.

— Que bom! — ela abre um sorriso, e fico aliviado que agora ela está mais tranquila.

— E aí, pronta para o Natal?

— Sim, em casa vai ser como todo ano, só que agora meu namorado vai passar com a gente.

— Vane, posso te fazer uma pergunta? — questiono, meio receoso.

— Ah, é claro.

— Por que você nunca fala dos seus pais?

— Bom, não sou mesmo de comentar, meus pais morreram alguns anos atrás em um acidente de avião, e ficamos a minha irmã e eu.

— Nossa, eu não sabia — respondo, meio sem graça.

— Fique tranquilo, aconteceu há alguns anos já.

— Bom, vamos mudar de assunto, que hoje vou dar uma volta para ver como andam os chocolates. Você vem comigo?

— Não, obrigada, já fiquei muito de papo-furado, e meu chefe, quando aparecer, vai me dar a maior bronca — ela brinca, piscando o olho.

— Ah, ele é de boa! — respondo à brincadeira, e ela ri.

Vou para a minha sala. Hoje é o dia de fazer verificação na fábrica, e para deixar uma boa aparência acabei vestindo um terno, sem gravata. Não estou a fim de morrer cozido, aliás, não vejo a hora de tudo acabar e ir para casa, o dia mal começou e já estou cansado.

Quando estou saindo para ir fazer a vistoria pela fábrica, o meu celular toca. Atendo sem nem ver quem era.

— Alô?

— Oi, meu amor, estou morrendo de saudades de você! — ouço a voz melosa da Laura.

— O que você quer, Laura? — me arrependo de ter atendido à ligação e tiro o celular do ouvido. Olho para o número de chamada ativo e percebo que era restrito. Oh, merda.

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