
Uma caipira ou uma lenda?
Capítulo 2
Com movimentos rápidos, Fernanda puxou uma peça de roupa da mala, sua voz afiada e fria. "Isso não é da sua conta. Acho que já está na hora de você ir embora."
Tudo o que ela desejava agora era apressar a partida do homem.
Pouco antes, quando ele a abraçou, seus dedos roçaram as costas dela, demorando-se um pouco mais do que o necessário. Os calos ásperos em suas pontas denunciavam anos de trabalho árduo, um desgaste que não passava despercebido. Além disso, sua habilidade com faca e seus reflexos rápidos sugeriam um passado longe de ser comum.
Deixando o pensamento de lado, Fernanda afastou qualquer curiosidade sobre o passado dele.
De repente, o silêncio foi rompido pelo som estridente de uma buzina vindo lá de fora.
O homem se levantou suavemente. Durante a intimidade anterior, ele havia despido a camisa, mas as calças permaneciam impecavelmente ajustadas.
Sem pressa, ele abotoou a camisa enquanto se dirigia à janela, e jogou algo para Fernanda. "Desculpe se causei algum desconforto. Considere isso um agrado."
Com a destreza de um felino, ele subiu no parapeito e saltou pela janela.
Fernanda se aproximou da janela e, sob a luz fraca dos postes, viu a silhueta dele se movendo com uma agilidade impressionante, escalando a parede sem esforço. Ele percorreu os parapeitos com naturalidade, até se fundir com as sombras.
Fernanda se abaixou e pegou o cartão preto que ele havia deixado.
Era óbvio que isso não era apenas um gesto de desculpas, mas um pagamento — uma compensação pelas perturbações da noite. Sem mais delongas, ela guardou o cartão no bolso e puxou as cortinas.
Na manhã seguinte, o mordomo se aproximou de Fernanda com uma expressão carregada de preocupação. "Senhorita Morgan, espero que tenha descansado bem. Houve uma inspeção inesperada ontem à noite, que causou bastante alvoroço."
Ela deu de ombros casualmente e murmurou: "Foi tranquilo."
Durante o caminho, o mordomo lançava olhares para Fernanda pelo retrovisor. Reclinada no assento de couro, a jovem parecia alheia ao mundo ao seu redor, mas sua postura elegante e o ar distante não passavam despercebidos.
Ele não conseguia evitar uma reflexão silenciosa: Fernanda não era como as jovens criadas no campo. Havia algo de refinado nela, um tipo de sofisticação natural que combinava com sua beleza serena.
Após dois dias de viagem, eles finalmente chegaram a Esaham.
Ao pisar nas ruas movimentadas da cidade, Fernanda foi imediatamente envolvida pelo caos vibrante da metrópole.
Pouco depois das 8h, a limusine Lincoln, imponente e reluzente, atravessou os portões de uma propriedade exuberante conhecida como Vilas Fajar, parando em frente a uma vila branca de três andares que exalava poder e riqueza.
Fernanda saiu do carro com graça, erguendo o olhar para a construção que parecia desafiá-la com sua grandiosidade.
O estilo arquitetônico era imponente e opulento, mas, para ela, um tanto pretensioso. Seus lábios se curvaram em um sorriso leve, quase irônico.
A vila pertencia a Robert Morgan, seu pai, um homem que, apesar das origens humildes, havia conquistado uma fortuna impressionante com o apoio de sua falecida mãe.
Contudo, assim que alcançou o topo, Robert descartou a mãe de Fernanda sem cerimônia, optando por se deleitar em um relacionamento com sua amante.
Aquela mulher, Michelle Morgan, não havia contribuído em nada para o sucesso da família Morgan, mas agora ocupava um lugar que a mãe de Fernanda havia conquistado com muito esforço. Ela desfrutava dos luxos e do respeito que nunca deveriam ser seus por direito. Pior ainda, ela ousara exibir sua vitória, desfilando sua vida roubada diante da mãe enlutada de Fernanda, uma crueldade que acabara levando à morte prematura da mãe de Fernanda.
Para o mundo, Michelle era vista como a segunda esposa de Robert, um ícone de elegância e charme inabaláveis. Ela teve até a audácia de declarar, sem pestanejar, que era a verdadeira mãe de Fernanda.
Mas Fernanda sabia a verdade. Por trás da fachada polida de Michelle havia outra realidade, fria e implacável.
Os olhos de Fernanda endureceram por um instante, refletindo uma determinação quase palpável.
Sua mãe não estava mais ali para buscar justiça, mas Fernanda prometeu que faria isso no nome da mãe.
Foi nesse momento que as portas imponentes da vila se abriram, revelando o casal responsável por transformar sua vida em um emaranhado de incertezas.
Robert surgiu primeiro, impecável como sempre. A linha perfeita do terno sob medida destacava sua postura altiva, e os óculos de aro dourado refletiam a luz amarelada do entardecer, lhe conferindo um ar de sofisticação cuidadosamente calculado.
Ao seu lado, Michelle era o retrato da elegância. O vestido ajustado abraçava sua figura esguia, exalando refinamento e compostura.
"Fernanda, você voltou. Entre", Robert a cumprimentou com um sorriso, sua voz transbordando hospitalidade.
Fernanda mantinha os olhos baixos, tentando esconder a tempestade de emoções que fervilhava dentro dela. Com passos calculados, ela atravessou a soleira da porta.
Envolvendo a cintura de Michelle com um braço, Robert apresentou: "Fernanda, esta é sua mãe."
Com outro gesto descontraído, ele apontou para a sala de estar, completando: "E aquela ali é Erika, sua irmã."
No sofá, Erika Morgan estava entretida com a televisão, apenas levantando o olhar quando Fernanda se aproximou. A expressão crítica veio quase de imediato quando seus olhos analisaram o vestido simples que Fernanda usava, e um sorriso de desprezo curvou seus lábios.
Com um revirar de olhos cheio de desdém, Erika resmungou: "Essa caipira? Pai, ela não pode ser minha irmã."
Antes que Fernanda pudesse reagir, Michelle entrou na sala com um sorriso acolhedor, entrelaçando seu braço com o de Fernanda. "Ah, Fernanda, não dê atenção a Erika. Ela está apenas brincando. Preparei o café da manhã pra você. Você deve estar com fome. Vamos comer algo."
Com um movimento calmo, Fernanda se soltou do toque de Michelle e seguiu em direção à sala de jantar.
Michelle ficou parada por um instante, o sorriso oscilando antes de desaparecer. Ela se virou para Robert, que estava por perto, e perguntou em um tom que misturava preocupação e perplexidade: "O que deu nela?"
Ele suspirou, sua voz uma mistura de empatia e resignação: "Fernanda cresceu no campo, Michelle. Ela ainda é um pouco grosseira. Não é nada pessoal, mas só tem o jeito dela."
Michelle franziu a testa levemente, mas logo balançou a cabeça, deixando escapar um sorriso tranquilo. "Tudo bem, eu entendo. Vou ajudá-la a se ajustar e ensinar o que for preciso para que ela se sinta à vontade e se torne uma jovem elegante."
Robert lhe lançou um olhar solidário, carregado de apreciação e uma calma tranquilizadora.
Na sala de jantar, Michelle se acomodou ao lado de Fernanda e, colocando uma fatia generosa no prato dela, disse com um sorriso encorajador: "Fernanda, você precisa experimentar essa carne. É a favorita de Erika."
Com um movimento lento e deliberado, Fernanda pegou o pedaço de carne com o garfo e o jogou em um prato vazio ao lado, afirmando friamente: "Isso é nojento."
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