
Um Tapa na Cara da Indiferença
Capítulo 2
A dor na minha lateral era aguda, um lembrete constante do que eu tinha feito. O cheiro de antisséptico do hospital enchia o ar, misturando-se com a minha ansiedade. Eu tinha acordado há poucas horas da cirurgia. Uma cirurgia secreta. Eu doei meu rim para Lucas, o amor da minha vida.
Ele estava em outro quarto, se recuperando do acidente de carro que quase o tirou de mim. O mesmo acidente que danificou seus rins e o deixou em coma. Os médicos disseram que era um milagre ele ter sobrevivido, mas que precisaria de um transplante urgente. Eu não pensei duas vezes. Meu tipo sanguíneo era compatível. Era o destino.
Nós éramos namorados desde a adolescência, antes dele se tornar Lucas, o famoso jogador de futebol. Para mim, ele era apenas o meu Lucas. Aquele que prometeu que ficaríamos juntos para sempre, não importava o que acontecesse.
Reuni as poucas forças que tinha, ignorei a dor lancinante e me levantei da cama. Eu precisava vê-lo. Precisava saber que ele estava bem.
arrastei-me pelo corredor, segurando na parede para me apoiar. Cada passo era um esforço tremendo. Finalmente, cheguei ao quarto dele. A porta estava entreaberta.
Meu coração parou.
Lucas estava acordado. E ao lado dele, segurando sua mão, estava Patrícia. Uma modelo famosa, filha de um empresário que patrocinava o time de Lucas. A família dele sempre a adorou. E sempre me detestou.
"Lucas, querido, você está se sentindo melhor?" a voz de Patrícia era doce, melosa.
"Sim, Patrícia. Obrigado por estar aqui", ele respondeu, sua voz ainda fraca. "Os médicos disseram que você esteve ao meu lado o tempo todo."
"Claro, meu amor. Eu nunca te abandonaria."
Meu mundo desabou. Ele não se lembrava de mim. Os médicos me avisaram que a amnésia era uma possibilidade, mas eu não quis acreditar.
Eu entrei no quarto devagar.
"Lucas?" minha voz saiu como um sussurro.
Ele se virou para mim. Seus olhos, os mesmos olhos que me olhavam com tanto amor, agora estavam frios, vazios. Era o olhar de um estranho.
"Quem é você?"
A pergunta me atingiu como um soco no estômago. Eu senti o ar faltar.
"Sou eu... Mariana."
Ele franziu a testa, confuso. "Mariana? Eu não conheço nenhuma Mariana."
A mãe dele, que estava sentada em uma poltrona no canto, levantou-se abruptamente. Seu rosto estava contorcido em uma máscara de desprezo.
"O que essa mulher está fazendo aqui? Como ela entrou?" ela gritou. "Seguranças!"
Patrícia sorriu, um sorriso vitorioso e cruel.
"Senhora, por favor, não se exalte. Deve ser apenas uma fã equivocada", disse Patrícia, com falsa gentileza.
"Fã? Ela parece mais uma aproveitadora! Olhe para ela, mal se aguenta em pé", a mãe de Lucas cuspiu as palavras. "Saia daqui agora! Lucas precisa descansar. Ele está se recuperando graças à noiva dele, Patrícia."
Noiva. A palavra ecoou na minha cabeça, me deixando tonta.
"Não... eu sou a namorada dele", eu insisti, as lágrimas começando a escorrer pelo meu rosto. "Nós moramos juntos. Lucas, por favor, tente se lembrar."
Lucas me olhou com uma mistura de pena e irritação.
"Olha, moça, eu não sei quem você é. Minha cabeça dói. Por favor, vá embora", ele disse, virando o rosto para Patrícia.
Dois seguranças enormes entraram no quarto. A mãe de Lucas apontou para mim.
"Tirem essa mulher daqui. E garantam que ela não entre mais neste hospital."
Eles me agarraram pelos braços, sem nenhuma delicadeza. A dor na minha cicatriz se intensificou, era quase insuportável.
"Não! Lucas! Por favor!" eu gritei, desesperada.
Ele nem sequer olhou para trás.
Fui arrastada para fora do quarto, pelo corredor, e jogada na rua como se fosse lixo. A humilhação era tão forte quanto a dor física. Sentei na calçada fria, a roupa do hospital fina demais para o vento gelado. Eu tinha dado a ele uma parte de mim, e em troca, fui expulsa, negada, esquecida. Naquele momento, eu entendi. Eles tinham conseguido. A família dele finalmente tinha conseguido nos separar.
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