
Um professor Irresistível
Capítulo 3
Ligo meu carro acelerando pelas ruas de Curitiba, desnorteada e sem saber para onde ir. Lembro-me da casa da minha amiga, hoje seria minha despedida de solteiro, mas não tinha avisado meu ex-noivo sobre a noite do pijama, e ali seria o último lugar que me procurariam. Preciso conversar com alguém, desabafar tudo que estou sentindo. Chego à casa de Rebeca arrasada e assim que ela abre a porta e vê meu rosto...
— Merda! — exclamam as três amigas juntas. Elas já estavam por ali arrumando tudo para a noite.
— Você descobriu, não foi? — Rebeca a morena de cabelos cacheados e olhos negros questiona, surpreendendo-me e fazendo meu coração rachar mais um pouco.
— Vocês... Vocês sabiam? — indago num fio de voz, três anos de amizade jogados fora. Mais uma decepção para minha conta.
— Lilian, desculpa. A gente não sabia como contar — Steh revela apreensiva, mordendo os lábios grossos de forma aflita e me fitando com seus olhos castanhos intensos.
— E iriam me deixar casar sendo corna. Meu Deus! Que tipos de amigas vocês são? Ele estava me traindo com a minha própria irmã! — Elas arregalam os olhos e percebo que Leona foi apenas a foda da vez.
— Nós não... Nós não sabíamos que ele te traía com ela. Ellie viu ele com outra mulher em uma boate há um tempo.
— Quanto tempo?
— Lili... — Stephane começa, mas eu a interrompo.
— Quanto tempo, Ellie? — vocifero transtornada, mirando meu olhar na morena de cabelos lisos e olhos tão verdes quanto os do meu ex-noivo e que até uns minuto atrás eu considerava minha amiga.
— Dois meses atrás. — Novamente as lágrimas vêm com força e eu apenas viro as costas para aquelas que diziam ser minhas amigas. O que eu esperava?! Elas eram primas de Henrique! Lógico que nunca me contariam nada.
— Lilian espera! — Ainda ouço me chamarem assim que saio da casa e entro no carro batendo a porta com fúria.
Dirijo meu carro novamente, pegando a estrada agora indo direto à casa dos meus pais. Exausta coloco o carro na garagem do condomínio de classe média alta em que vivemos e entro em casa em silêncio, estranho ao ouvir vozes alteradas vindas do escritório do meu pai e então vou até lá quieta apenas para ouvir o que seria. Chego ao cômodo e a porta está apenas encostada e pela fresta consigo ver, minha mãe, minha irmã uma ao lado da outra. Meu pai está sentado em sua cadeira e Henrique na cadeira que fica de frente para a mesa do meu pai.
— Eu disse para vocês acabarem com este casinho um mês atrás, assim que vocês começaram! — meu pai esbraveja, e eu me sinto ainda mais decepcionada se é que isto é possível. Sinto-me mais uma vez traída pela minha própria família.
Todos sabiam!
Eu era a chacota de todos!
— A culpa foi dela. Essa vadia tinha que ir ao meu apartamento se oferecer.
— Rapaz, olha como você fala da minha filha. — Meu pai o encara vermelho, contendo a fúria e defendendo minha irmã. Vejo Henrique se levantar transtornado e começar a andar de um lado para o outro.
— Quando estava comigo não reclamou — minha irmã insinua, e Gisela minha mãe diz algo baixo em seu ouvido.
— E agora o que faremos? O casamento é amanhã, Lorenzo. Me recuso a passar por essa vergonha de ter que cancelar a festa e ter nosso nome manchado. — Nunca entendi porque minha mãe não gostava muito de mim e sempre preferia minha irmã. Eu fui traída pelas duas pessoas que amava e ela ainda quer manter o casamento preocupada com as aparências? Eu nunca fui importante nesta família e dói saber disso.
— Cancelar? Jamais, Lilian vai ter que aparecer! Não vou passar este vexame diante dos meus apoiadores. Aliás, se não me casar amanhã com sua filha nosso acordo está cancelado, Lorenzo. — Henrique volta a olhar para o meu pai de forma ameaçadora.
— Não precisaremos cancelar nada e pare de me ameaçar, Henrique. Minha filha está abalada o que é normal, mas logo voltará para casa e conversaremos que o que houve entre você e Leona foi algo passageiro que não foi relevante. Temos negócios em jogo, Henrique, não podemos colocar tudo a perder... — Meu pai apoia as mãos abertas sobre a mesa do escritório e encara meu ex-noivo com seriedade.
Essa foi a gota para eu transbordar. Sigo em silêncio até meu quarto enquanto eles continuam a conversar, puxo duas malas de viagem e começo a colocar tudo que cogito ser necessário, documentos, roupas, produtos de higiene e meus cartões de crédito.
Sempre achei que família fosse para cuidar e acolher. Só que nunca me senti acolhida na minha. Eu era sempre o patinho feio, sendo criticada e apontada vivendo de migalhas de carinho que achava que meus pais às vezes me davam.
Desço da escada com dificuldade arrastando duas malas de rodinha, pego o caminho mais curto até a porta da cozinha para que ninguém me veja saindo e encontro Cissa, nossa empregada terminando de fazer o jantar.
— Vai viajar, menina? — questiona a mulher de pouco mais de cinquenta anos, baixinha e com curvas avantajadas. Seus olhos castanhos me olham com espanto, afinal todos sabem que me caso amanhã.
— Sim! Cissa, vou fazer uma pequena viagem — afirmo, abrindo a porta que dá acesso ao jardim.
— E o casamento? — pergunta ainda mais atônica.
— Não vai mais ter casamento! — exclamo, deixando-a em choque, seguindo pelo jardim de trás da casa, arrastando minhas malas até a garagem rapidamente.
Coloco toda a bagagem dentro do porta-malas e bato a porta com força. Entro no veículo e ligo o carro, acelero, saindo dali o mais depressa que consigo. As lágrimas saem como enxurradas, tomam meu rosto caindo em meu colo e chega a ser difícil dirigir. Tento retomar o fôlego enquanto vejo pelo retrovisor tudo que achei que tinha, ficando para trás, ainda sem saber para onde e o que irei fazer. Às vezes tudo que você precisa é de pequenos segundos de coragem, não importa o que virá depois. Só deixe tudo para trás, aquilo que te feriu, aquilo que não lhe merece e siga.
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