
Um Peão, Um Filho, Um Casamento Forçado
Capítulo 3
Ponto de Vista de Ayla Medeiros:
Casa. A palavra soava como um eco oco, desprovida de qualquer significado vindo dos lábios dele. Esta ilha era minha casa agora, em sua beleza crua e indomada. Não a mansão estéril em São Paulo, onde cada canto guardava uma memória de sua crueldade casual.
"Casa?", zombei, puxando meu braço. "Que casa, Heitor? Aquela onde eu fazia papel de empregada para você e sua amante? Ou aquela onde eu era sua conveniente peça de relações públicas?" Minha voz estava áspera, afiada pelos dois anos de silêncio que me forcei a manter. "O que você realmente quer que eu faça? Voltar e polir sua prataria? Ou talvez cuidar do seu novo bebê?"
As memórias brilharam, nítidas e claras. Como noiva de Heitor, eu era pouco mais que uma serviçal glorificada. Eu buscava seu café, organizava seus intermináveis compromissos sociais e, o mais humilhante, limpava a bagunça de seus encontros noturnos com Isabela. Eu era a parceira perfeita e equilibrada, sempre sorrindo, sempre agradável, enquanto meu coração sangrava lentamente. Eu os via rir, os via se tocar, e depois continuava com minhas tarefas, mantendo a fachada perfeita que ele exigia.
Eu o encarei, meus olhos ardendo. Ele não tinha o direito de me pedir para voltar àquele pesadelo.
Heitor, surpreendentemente, parecia genuinamente exasperado. "Você nunca pensa em ninguém além de si mesma, Ayla? Você sabe pelo que eu passei? O tempo, o dinheiro que gastamos procurando por você!" Ele passou a mão por seus cabelos perfeitamente penteados, sua frustração palpável, mas totalmente egoísta. "A reputação da minha família ficou em frangalhos. A imprensa nos perseguiu. Me chamaram de monstro, me acusaram de te abandonar no mar! Você sabe o que isso fez com o preço das nossas ações? Com a minha posição na empresa?" Ele fez uma pausa, respirando fundo. "E você? Você está aqui, brincando de pescadora, fugindo de suas responsabilidades!"
Suas palavras eram tão ridiculamente egocêntricas, tão completamente desprovidas de compreensão, que eu quase ri. Responsabilidade? Ele estava falando de salvar a própria pele.
"Eu não 'fugi'", corrigi, minha voz perigosamente baixa. "Eu fui jogada na praia pela maré. Você me deixou para morrer."
Virei as costas para ele, afastando-me de sua narrativa egoísta, em direção à borda escura da ilha, ao rugido familiar e reconfortante do oceano. Ele não me queria de volta porque se importava. Ele me queria de volta porque eu era uma ponta solta, uma mancha em sua imagem perfeita.
Lembrei-me do dia em que a família Montenegro me encontrou, uma criança perdida e aterrorizada, com apenas cinco anos, órfã e traumatizada após ser vítima de tráfico humano e abandonada. Eles me acolheram, financiaram minha educação, me moldaram na esposa perfeita da alta sociedade para seu herdeiro, Heitor. Nunca foi por bondade, não de verdade. Minha história trágica, a "criança perdida salva pelos filantropos Montenegro", foi uma mina de ouro para a imagem deles, impulsionando sua imagem corporativa, silenciando sussurros sobre suas práticas de negócios impiedosas. Eu era seu ativo oculto, seu endosso silencioso.
Desde cedo, eu sabia que Isabela era quem Heitor realmente desejava. Sua amiga de infância, sua confidente. Mas quando ela foi para a faculdade no exterior, ele voltou sua atenção para mim. Uma distração conveniente, um tapa-buraco. Ele segurava minha mão, oferecia palavras gentis e me dizia que eu era linda. Eu, ingênua e desesperada por amor, acreditei nele. Pensei que ele havia se apaixonado por mim, que eu tinha um lugar em seu coração. O sonho durou até Isabela voltar, radiante e sofisticada. Foi quando meu mundo se despedaçou, novamente.
"Esta ilha, Heitor", declarei, virando-me para encará-lo, minha voz firme, "esta é a minha casa agora. Minha verdadeira casa."
Seu rosto se contorceu de raiva. "Não seja ridícula, Ayla! Você está sendo ingrata! Você pertence a nós!"
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