
Um Novo Amanhecer Após a Tempestade
Capítulo 3
A raiva explodiu no rosto do Pedro.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto?"
Ele gesticulou para o quarto, para mim, para o vazio onde o nosso filho deveria estar.
"Isto? Tu chamas a isto 'isto'?" A minha voz tremeu, mas não de tristeza. Era raiva. Pura e fria.
"Eu estava a ajudar uma amiga, Clara! Uma amiga que estava magoada! Não podes ser tão egoísta!"
Egoísta. A palavra atingiu-me. Eu, que carreguei o filho dele durante nove meses. Eu, que quase morri sozinha num carro destruído. Eu era a egoísta.
"Ela caiu das escadas, Pedro. Eu estava presa em metal retorcido, a sangrar até à morte. E o nosso filho... o nosso filho morreu porque tu não estavas lá."
"Isso não é justo!" ele gritou. "Como é que eu podia saber? Tu nem sequer me avisaste que ias sair com aquela chuva!"
A culpa. Ele estava a tentar virar a culpa para mim.
"Eu estava a ir para a casa da minha mãe. A mesma casa para onde vou todas as semanas. E tu não atendeste o telemóvel."
"Eu já te disse, estava ocupado!"
"Com a Sofia."
O nome dela ficou entre nós de novo. Ele não conseguiu encontrar os meus olhos.
"Ela precisava de mim," ele repetiu, mais baixo desta vez.
"E eu não precisava? O teu filho não precisava?"
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, quentes e amargas. Eu tinha-as segurado por tanto tempo.
"Clara, para com o drama. Foi um acidente terrível. Vamos superar isto. Juntos."
Ele estendeu a mão para tocar na minha, mas eu afastei-a.
"Não há 'nós'. Não há 'juntos'. Acabou, Pedro."
O telemóvel dele vibrou no bolso. Ele tirou-o. O nome "Sofia" brilhava no ecrã.
Ele hesitou por um segundo, olhando para mim e depois para o telefone.
Ele atendeu.
"Sofia? O que se passa? Estás bem?" A sua voz estava cheia de uma preocupação que ele nunca me mostrou.
Eu fechei os olhos. Não precisava de ouvir mais nada.
Quando ele desligou, o seu rosto estava tenso.
"Ela está sozinha. Precisa que eu lhe leve umas coisas."
Ele não estava a pedir permissão. Estava a informar-me.
"Vai," eu disse, a minha voz vazia. "Vai ter com ela."
Ele olhou para mim, talvez esperando mais uma luta, mais gritos. Mas eu não tinha mais nada para dar.
"Clara, nós vamos falar sobre isto mais tarde."
"Não, não vamos," eu disse, abrindo os olhos e olhando diretamente para ele. "Pega nas tuas coisas e sai da nossa casa. Vou contactar um advogado amanhã."
Ele ficou ali parado por um momento, chocado com a minha finalidade. Depois, virou-se e saiu do quarto sem dizer mais uma palavra.
A porta fechou-se atrás dele, e o silêncio que se seguiu foi o som mais alto que eu já tinha ouvido.
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