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Um Coração Valente

Helena Lewis, nobre treinada em artes marciais após um trauma, vive dividida entre o dever social e a espada. Embora resista ao amor, sua vida muda ao resgatar o Capitão James Winston. Contudo, a sede de vingança pela morte do irmão, Bernard, fala mais alto. Disfarçada em um navio, ela parte para a guerra, enfrentando um conflito interno devastador: cumprir sua missão sangrenta ou render-se à paixão pelo capitão. Será que o dever superará o desejo?
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Capítulo 3

Helena Lewis

A noite logo chega, e preciso me preparar. As servas me ajudam com o banho e a me vestir como de costume. Por mais que eu me esforce, não compreendo o motivo pelo qual não posso me arrumar sozinha, a quantidade de servos que temos para isso chega ser absurda, quando na verdade eu poderia muito bem escolher o meu próprio vestido e me pentear da forma que eu bem decidir. Penso, enquanto uma serva termina de ajeitar o meu cabelo e outra aperta os espartilhos, já falei que eu odeio espartilhos? Respiro fundo quando sinto que elas estão o apertando mais um pouco. Outra criada tenta ajeitar o meu rosto com alguma pintura, embora prefira de forma natural. Mamãe sempre dizia que meus lábios grossos e meus cílios grandes valorizavam minha aparência. Suspiro ao me lembrar dela, uma dor angustiante me invade, como se meu coração estivesse sendo comprimido lentamente, é assim todas as vezes que me recordo dela, principalmente em noites como esta, na qual preciso me esforçar ao máximo para cumprir o papel que papai e meus irmãos esperam de mim, desejaria muito que mamãe estivesse aqui, ela certamente saberia as palavras certas a me dizer que me deixassem mais confiante.

Observo meus longos cabelos negros serem alinhados e soltos entre a tiara de brilhantes que papai me presenteou pra esse tão sonhado momento, para ele, é claro.

Seguro as pontas dos fios que chegam até minha cintura e os enrosco entre os dedos várias vezes numa atitude nada sofisticada, mas que me ajuda a conter a ansiedade, se minha cunhada me visse certamente me recriminaria por isso. Uma das criadas me ajuda com o vestido longo levemente aveludado num tom de claro de rosa, ergo meus braços e ela transpassa uma das mangas bufantes e na sequência a manga longas com rendas francesa na manga formando uma leve saia, depois repete com o outro braço, logo ajeita o decote casto do vestido, sinto elas abotoarem a infinidade de pregas por detrás numa paciência constante, muito mais que a minha. Quando finalmente terminam com as vestes, complementam com as joias já postas em cima da penteadeira de marfim, Catherine as escolheu, felizmente minha cunhada tem um gosto requintado. A gargantilha de pedras da cor do vestido são colocadas delicadamente sobre mim, bem como os brincos. Assim que todas se afastam entendo que finalmente devo estar pronta, depois de longas e incansáveis horas.

—  A Srta. está digna de uma princesa, Mademoiselle ! —  uma serva fala com seu sotaque francês aos suspiros enquanto me analisa.

Neste momento sou o centro das atenções e admirações por todas as criadas que não param de me analisar. Agradeço ao gentil comentário com apenas um aceno de cabeça, desejaria profundamente estar tão animada com tudo isso quanto as jovens ao meu redor que suspiram ao me olhar tão bem vestida como se minha vida fosse um conto de fadas igual ao dos livros. E é normal que estejam assim, todas as moças da minha idade ficariam em êxtase com o tão sonhado momento na qual conhecerá seu futuro marido, o homem com quem irá compartilhar sua vida até seus últimos suspiros. Eu no entanto, apenas sinto como se tudo isso não tivesse sentido algum para mim.

Sra. Benect entra fazendo uma delicada mesura anunciando:

— Srta., Helena, estão todos lhe aguardando.

A observo como se ainda me restasse alguma saída, Sra. Benect é uma mulher elegante de meia idade que me acompanha desde a infância. 

Minhas criadas se organizam de forma impecavelmente enfileiradas, então, respiro fundo aceitando meu destino, e sigo passando por todas até a saída do meu quarto.

Nossa casa é grande e bem confortável, uma bela construção de pedra, bem parecida com a dos castelos reais, digno de uma família com posses como a dos Lewis. Segundo papai, o nosso bisavô almejava um título da nobreza, e não poupara ao construir uma moradia digna disto. Respiro aliviada por seus desejo mão terem se concretizado, afinal ter um título de tal grandeza sobrecarregaria ainda mais minhas responsabilidades.

Chego até o salão principal em passos lentos ainda sentindo um leve enjoo, certamente resultado de todo nervosismo. Paro no alto da escada enquanto faço esforço para reconhecer as figuras presentes lá embaixo. Minha família está em peso, todos vestidos impecavelmente para a ocasião, papai em sua túnica bem alinhada, minha cunhada esplêndida em seu vestido azul turquesa e os cabelos dourados presos em um penteado impecável que deixa alguns cachos soltos, está ao lado de Eduard que conversa com mais dois rapazes desconhecidos, aliás noto muitas pessoas desconhecidas e sei que entre elas está o meu... Futuro marido. Edgar está fazendo uma bela demonstração de flauta doce e todos lhe admiram, o som é delicado e encantador, meu irmão tem uma fascinação por música, além de muito talento. Às vezes tenho a impressão de que ele desejava ter investido em tal carreira, mas papai jamais aceitaria, Edgar tem suas responsabilidades e assim como eu está enfadado a seguir um destino traçado para ele, por papai. 

Como se eu não pudesse me sentir mais tensa, de repente a atenção de todos se voltam para mim. Edgar deixa uma pausa em seu instrumento, e um grande silêncio invade o recinto. Busco fôlego, mas o espartilho... Parece um pouco apertado demais. Inclino meu corpo levemente de forma elegante depositando parte de meu peso nas pontas dos pés na tentativa de aliviar a peça que comprime meu abdômen mais do que deveria. Papai vem ao meu encontro em passos lentos me analisando com um belo sorriso orgulhoso. Ele ergue a mão para mim e faz uma mesura elegante, inclino a cabeça de leve correspondendo. Logo passo meu braço por entre o seu lhe recebendo de forma carinhosa, apesar de estar sendo praticamente obrigada a aceitar esse noivado, sei que papai me ama e apenas faz o que acha ser o melhor para mim, juntos continuo seguindo meu destino, descemos as escadas, sorrio da melhor forma que consigo.

—  Você está maravilhosa, filha. Se parece tanto com sua mãe! —  ouço ele sussurrar orgulhoso e admirado.

Ainda observo a multidão que nos aguarda enquanto sorrio e solto um arfado quase imperceptível com a saudades que sinto dela.

—  Ela faz tanta falta.

—  Tenho certeza de que ela está orgulhosa de você, querida —  sinto ele depositar sua mãos sobre minhas mãos carinhosamente.—  Como eu também estou.

Preciso me esforçar para não me emocionar com suas palavras, papai espera muito de mim, e é por isso que não devo decepcioná-lo. Me esforço para recuperar o fôlego em meio a dificuldade por tê-lo praticamente preso em meu diafragma comprimido. 

Vejo que finalmente chegamos ao hall do salão.

—  Esta é Helena, minha filha —  papai me apresenta como se eu fosse um troféu e todos os olhares permanecem em mim.

Faço uma mesura de forma bem elegante. Vejo entre os desconhecidos um belo rapaz de porte alto, pele negra, cabelo bem cortado, confesso que ele é bonito, e observando as medalhas de honra presas ao seu peito, acredito se tratar do meu "noivo". Vejo um casal se aproximando logo atrás, o homem tem praticamente a idade de papai e a mulher me olha de canto, não parece estar ali de bom grado. O homem faz uma mesura e fala em tom gentil:

—  Srta. Helena Lewis. Sou Antony Trovi, pai de Alexandre e esta é Rosene Trovi , é um prazer para nós conhecê-la. 

Sorrio para ambos.

—  O prazer é todo meu, Sr. Antony e Sra. Rosene.

—  A Srta. é muito bela minha jovem, confesso que estou surpresa com sua elegância —  a mulher fala com sinceridade.

Fico imaginando o que ela esperava. Uma moça de armadura e botas? Confesso que sorrio mentalmente da minha imaginação.

O homem parece constrangido com o comentário da mulher.

—  Minha esposa quis dizer, que estávamos um tanto curiosos em conhecê-la, devido às peculiaridades dos gostos da Srta..

Os olhos revirados da mulher não o desmentem.

Papai pigarreia a fim de quebrar o embaraço.

O rapaz que está ao lado do senhor Antony dá um passo à frente, ele me olha com uma admiração incomum, fico sem saber como reagir. De repente sinto que o ar me falta um pouco mais, talvez realmente seja o espartilho! O mesmo rapaz faz uma mesura e estende o braço para que eu lhe dê a mão. Estendo- a delicadamente fazendo muito esforço para me manter firme, porém a cada instante tenho mais dificuldades.

— Srta. Helena Lewis, é um enorme prazer finalmente conhecê-la. És tão bela quanto eu esperava. —  ele se inclina ainda mais e deposita um beijo casto no dorso de minha mão.

Se trata de um cavalheiro muito fino e educado, e não posso negar que também é belo, o suficiente para me roubar o fôlego, porém, neste instante minha falta de ar, tem outro motivo. Alexandre parece um pouco perdido entre suas feições e se afasta, ouço a voz de papai soar preocupada em meus ouvidos.

—  Srta. Helena, está tudo bem? —  ele sussurra discretamente.

Penso em respondê-lo, mas estou me sentindo confusa, minha visão fica turva e tudo em volta começa a girar e quando tento pedir socorro, não consigo mais respirar, o ar me falta completamente nos pulmões, sinto minhas pernas fraquejarem e de repente meu corpo vai ao chão, mas papai me segura em seus braços fortes.

Ouço um coro de "oh" todos em volta se assustam.

Na sequência não vejo mais nada, tudo fica escuro.

*

—  Ela está acordando. —  Ouço a voz de Catherine esperançosa.

Abro meus olhos e minha cunhada está sentada na beirada da cama, Sra. Benect está em pé ao meu lado, como sempre, cuidando de mim.

—  O que ouve? —  pergunto ainda zonza.

Me sinto aliviada ao perceber que não estou vestida com aquele espartilho e uso apenas minhas roupas para dormir.

Sra. Benect me entrega um copo de água e ajuda a me sentar.

—  Menina, você desmaiou. Apertaram muito seu espartilho.

Bebo um gole da água devagar e o entrego a Sra. Benect.

—  Como papai está, e os convidados...? —  pergunto angustiada.

Catherine faz um carinho em minhas costas com as mãos, a fim de me acalmar.

—  Está tudo sob controle. Apesar de que o Senhor Theodoro está irritado com as servas por terem apertado em excesso seu espartilho. Os convidados foram dispensados, a Sra. Rosene não ficou muito satisfeita —  fala a última frase arqueando as sobrancelhas.

A Sra. Benect se levanta e faz uma mesura para se retirar do quarto. Deseja avisar papai que despertei e estou bem. 

Quando estou a sós com minha cunhada falo sem rodeios:

—  Papai deve estar realmente bravo, foi difícil conseguir um pretendente. Acho que não devo me casar, isso que aconteceu foi um recado do destino.

Catherine ri.

—  Helena, você sabe que seu pai não vai desistir. Aliás, Eduard me contou que Alexandre também não. Ele ficou encantado com sua graça, também estava tão linda. O noivado ainda está de pé!

O tom animado de minha cunhada no final da frase me inquieta. Confesso que por um instante pensei que estivesse livre.

—  Então…ele não desistiu? Mas talvez sua mãe o faça mudar de ideia, Sra. Rosene não pareceu rendida aos meus encantos.

Minha cunhada faz outro carinho em minhas costas.

—  Helena, você não precisa de ter medo de se casar. 

—  Catherine, nem todas as mulheres tem a sorte de se casar e se apaixonar, assim como você e Eduard, ou como meus pais. Mamãe venerava papai, eles se amavam.

—  Quando me casei com seu irmão, eu não o conhecida, assim como você não conhece seu noivo. Mas Eduard é um homem incrível e hoje eu o amo. Minha mãe sempre disse que o amor pode ser extremamente perigoso, principalmente quando não se está casada.

Tento entender o que minha cunhada quer dizer, mas não me sinto em paz. Porém, também não sei como expressar o que se passa dentro de mim.

— Acho que nunca serei capaz de me apaixonar — falo mais alto do que eu esperava.

Catherine me olha surpresa com minhas palavras.

— Helena… Irá chegar o dia em que um homem roubará seu coração, e você sentirá suas pernas fraquejarem em sua presença, o ar lhe faltar com sua ausência…— ela diz aos suspiros.

— Isso parece mais um estado de enfermidade — falo não achando nada interessante aquele assunto.

Minha cunhada ri.

— Mas o amor, é como uma doença, causa reações em todo nosso corpo, mas seria uma doença boa, digamos assim…

As palavras de minha cunhada não são o suficiente para me aquietar.

— Algum dia você irá entender o que eu digo. Agora descanse, Helena. 

Catherine diz ajeitando meus travesseiros para que eu descanse. Entretanto sei que não será fácil, minha mente me atormenta em vários pensamentos. Eu não desejaria desapontar minha família de forma alguma, mas confesso que poderia estar um pouco mais animada com meu futuro.

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