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Capa do romance Um Coração Que Não Lembra

Um Coração Que Não Lembra

Após três anos de luto pelo desaparecimento de Pedro, Sofia descobre que seu noivo está vivo. Ao reencontrá-lo, a esperança se torna agonia: ele não a reconhece, está casado e espera um filho com outra. Vítima de amnésia, Pedro a trata como uma estranha. Com a saúde debilitada e apenas quinze dias para se despedir, Sofia luta para aceitar o divórcio enquanto tenta lidar com a dor da indiferença do homem que sempre amou antes de seu fim inevitável.
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Capítulo 2

Três anos. Fazia três anos que eu contava os dias em um calendário que parecia não ter fim. Três anos que o meu mundo era cinza, desde que o avião que levava Pedro, meu noivo, desapareceu dos radares. Promissor jogador de futebol, o amor da minha vida, o homem com quem eu cresci. Todos o deram como morto. Eu me recusei a acreditar, mas meu corpo traiu minha esperança, definhando na dor da ausência.

Até hoje.

O telefone tocou, estridente na quietude do meu ateliê. Era Ricardo, amigo de infância nosso, colega de time de Pedro. Sua voz estava ofegante, cheia de uma urgência que fez meu coração parar.

"Sofia, você não vai acreditar. É o Pedro. Eu o vi. Ele está vivo."

As palavras ecoaram na minha cabeça. Vivo. Pedro estava vivo. O pincel caiu da minha mão, manchando a tela em branco com uma gota de tinta vermelha. Por um momento, o ar me faltou. Minhas pernas fraquejaram e precisei me apoiar na parede.

"Onde? Ricardo, onde ele está?"

"Em Búzios. Numa cidade litorânea, a centenas de quilômetros daqui. Eu estava de férias, o vi por acaso. Ele... ele parece diferente, Sofia. Mas eu juro, é ele."

Não precisei de mais nada. Em poucas horas, eu e Ricardo estávamos na estrada, devorando quilômetros de asfalto numa viagem que misturava uma esperança avassaladora e um medo paralisante. E se não fosse ele? E se fosse, por que ele nunca voltou? Minha mente era um turbilhão de perguntas, mas uma única certeza me movia: eu precisava vê-lo.

Búzios nos recebeu com o cheiro de sal e o calor do fim de tarde. Ricardo me guiou por ruas de pedra, em direção a um bar de praia rústico, com música suave e o som das ondas quebrando ao fundo. O sol se punha no horizonte, pintando o céu de laranja e rosa.

E então, eu o vi.

Sentado numa mesa de madeira, de costas para a entrada, estava Pedro. O mesmo contorno dos ombros, o cabelo escuro, a forma como ele inclinava a cabeça. Meu coração disparou, uma alegria tão intensa que doeu. Ele estava ali. Vivo.

Eu dei um passo, pronta para correr, para gritar seu nome, para me jogar em seus braços e acabar com o pesadelo de três anos.

Mas então, uma mulher se aproximou dele. Ela era linda, com um sorriso sereno e uma barriga proeminente, denunciando uma gravidez avançada. Ela se sentou ao lado dele, e Pedro se virou, envolvendo-a com um braço. O sorriso que ele deu para ela... era o mesmo sorriso que ele costumava me dar.

Ele acariciou a barriga dela com uma ternura que me partiu ao meio. E eu ouvi sua voz, a voz que assombrava meus sonhos, dizer as palavras que destruíram meu mundo.

"Amor, que nome daremos ao nosso filho quando ele nascer?"

Meu corpo inteiro gelou. O som do mar, a música, as conversas ao redor, tudo desapareceu. Fiquei parada, a poucos metros de distância, invisível para ele. O homem que eu amava, o meu noivo, estava ali, abraçado a uma mulher grávida, planejando um futuro que não me incluía.

Ricardo colocou a mão no meu ombro, tentando me amparar, mas eu mal senti. Minhas pernas tremiam violentamente. O ar que eu respirava parecia vidro moído em meus pulmões. Tentei me consolar, dizer a mim mesma que devia haver uma explicação, uma razão para aquilo. Mas a imagem deles dois, felizes, completos, era uma verdade brutal que se impunha sobre qualquer esperança.

Nós éramos para ser assim. Pedro e eu. Crescemos juntos, nossas famílias eram vizinhas. Nossas vidas estavam entrelaçadas desde sempre. Ele me pediu em casamento no nosso aniversário de dez anos de namoro, com um anel simples e uma promessa de eternidade. Eu era sua fã número um, presente em todos os jogos. Quando ele se machucava, eu cuidava dele. Quando ele viajava, eu esperava.

Nos casamos numa cerimônia civil simples, um mês antes daquela viagem fatídica. A festa seria depois, quando ele voltasse. Ele me prometeu. "Eu volto pra você, Sofia. Sempre."

Mas ele não voltou. A notícia do acidente aéreo foi como uma sentença de morte. A busca, os destroços, a falta de sobreviventes. Eu desmaiei quando recebi a confirmação. Meu corpo, já frágil, sucumbiu. Fui diagnosticada com uma doença do coração, uma condição rara agravada pelo choque e pelo estresse. Os médicos disseram que era o luto.

E agora, o homem por quem eu chorei, por quem adoeci, estava a poucos metros de mim, vivo e apaixonado por outra. O mundo que desabou três anos atrás, desabou de novo, mas desta vez, foi sobre os escombros do que sobrou de mim.

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