
Um CEO Fora Do Comum
Capítulo 2
Annie McCoy podia aceitar o pneu furado. O carro estava velho e os pneus deveriam ter sido substituídos na última primavera. Tam¬bém podia entender que o pequeno Cody tinha comido terra no playground, depois vomitado em sua saia favorita. Ela não reclamaria sobre o aviso que havia recebido da companhia de eletricidade, apontando, embora de uma maneira muito educada, que sua conta estava atrasada... Novamente... E que eles aumentariam os valores. O problema era que tudo aquilo acontecera no mesmo dia. O universo não poderia lhe dar um pingo de descanso?
Ela parou diante de sua varanda da frente propensa a ceder e folheou o resto da correspondência. Mais nenhuma conta, a me¬nos que aquela carta de aparência oficial da UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, fosse, na verdade, uma prestação mensal. A boa notícia era que sua prima Julie estava em seu primeiro ano na prestigiada faculdade. A notícia ruim era pagar por isso. Mesmo morando em casa, os custos eram enormes, e Annie estava fazendo o possível para ajudar.
— Um problema para outra hora — disse a si mesma enquanto se dirigia para a porta da frente e a abria.
Uma vez do lado de dentro, colocou sua bolsa sobre a peque¬na mesa perto da porta e guardou a correspondência dentro de uma caixa de macarrão pintada com spray dourado, que sua classe de jardim da infância lhe fizera no ano anterior. Então foi para a cozinha a fim de verificar o quadro de avisos com pincel atômico pendurado na parede.
Era quarta-feira. Julie tinha uma aula noturna. Jenny, a irmã gêmea de Julie, iria para seu trabalho usual num restaurante em Westwood. Kami, a estudante estrangeira de Guam, havia ido ao shopping center com amigos. Annie tinha a casa para si mesma... pelo menos durante as próximas horas. Graças a Deus.
Ela andou até a geladeira e removeu a garrafa de vinho branco. Depois de se servir de um copo, tirou os sapatos e foi des¬calça para o quintal.
A grama era fria sob seus pés. Ao redor de toda a cerca, plantas exuberantes cresciam e florescem. Aquilo era Los Angeles. Cultivar qualquer coisa era muito fácil, contanto que você não se importasse em pagar a conta de água. Annie se importava, contudo, amava demais as plantas, que a lembravam de sua mãe, que sempre fora uma jardineira ávida.
Annie havia acabado de se sentar no velho balanço de ma¬deira ao lado da buganvília quando ouviu a campainha da porta. Pensou em ignorar quem quer que lá estivesse, mas não conse¬guiu fazer isso. Voltou para dentro, abriu a porta e olhou para o homem parado na varanda.
Ele era alto e possuía uma constituição física poderosa. O terno bem-cortado não disfarçava os músculos nos braços e pei¬to. Parecia do tipo que poderia ter enriquecido trabalhando como atleta nas horas vagas. Ele tinha cabelos escuros e os olhos acinzentados mais frios que ela já vira na vida. E parecia seriamente irritado.
— Quem é você? — ele exigiu saber como uma forma de cumprimento. — A namorada? Tim está aqui?
Annie começou a erguer as mãos no formato de um "T". Falando sobre precisar de um tempo. Felizmente, lembrou-se que estava segurando um copo de vinho e conseguiu não derra¬mar o líquido.
— Olá — disse ela, desejando que tivesse pensado em dar um gole antes de atender a porta. — Tenho certeza que foi assim que você pretendeu começar.
— O quê?
— Dizendo "olá".
A expressão do homem se tornou mais mal-humorada.
— Eu não tenho tempo para conversa fiada. Tim McCoy está?
O tom de voz não era amigável, e as palavras não fizeram com que Annie se sentisse melhor. Ela pôs o copo sobre a mi¬núscula mesa ao lado da porta e se preparou para o pior.
— Tim é meu irmão. Quem é você?
— O chefe dele.
— Oh.
Aquilo não podia ser bom, pensou ela, dando um passo atrás a fim de convidá-lo a entrar. Tim não havia contado muita coisa sobre seu emprego relativamente novo, e Annie tivera medo de perguntar. Tim era... problemático. Não, isso não era verdade. Ele podia ser doce e amoroso, mas possuía um aspecto demoníaco.
O homem entrou e olhou ao redor da sala de estar. Era peque¬na e um pouco velha, mas confortável, pensou Annie. Pelo me¬nos era isso que dizia a si mesma. Havia alguns perus de papel na parede, e um par de castiçais de peregrinos sobre a mesinha de centro. Tudo aquilo sairia de lá naquele fim de semana, quando ela começasse a decoração de Natal.
— Eu sou Annie McCoy — disse ela, estendendo uma das mãos. — Irmã de Tim.
— Duncan Patrick.
Eles apertaram as mãos. Annie tentou não se encolher quan¬do dedos grandes envolveram os seus. Felizmente, o homem não os esmagou. Pela aparência das coisas, ele poderia ter feito seus ossos virarem pó.
— Ou os moído para fazer pão — murmurou ela.
— O quê?
— Oh, desculpe. Nada. Um antigo conto de fadas. A bruxa em Joãozinho e Maria. Ela não quer moer os ossos deles para fazer pão? Não, isso é na história dos gigantes. Eu não me lem¬bro. Agora terei de procurar essa informação.
Duncan franziu o cenho e deu um passo atrás. Ela não conseguiu evitar uma risada.
— Não se preocupe. Isso não é contagioso. Eu penso coisas estranhas de vez em quando. Você não vai pegar por estar no mesmo cômodo. — Annie parou de tagarelar e pigarreou. — Quanto ao meu irmão, ele não mora aqui.
Duncan arqueou as sobrancelhas.
— Mas esta é a casa dele.
O problema era com ela, ou Duncan não era muito brilhante?
— Ele não mora aqui — repetiu Annie, falando mais deva¬gar. Talvez fossem todos aqueles músculos. Muito sangue nos bíceps e não o suficiente no cérebro.
— Eu entendi isso, sra. McCoy. Seu irmão é o proprietário desta casa? Foi o que ele me falou.
Annie não gostou daquilo. Ela atravessou para a poltrona perto da porta e fechou ambas as mãos no encosto.
— Não. Esta casa é minha. — Ela sentiu mais do que um pequeno pânico, e seu estômago se revolveu. — Por que você está perguntando?
— Você sabe onde seu irmão está?
— Não no momento.
Aquilo era ruim, pensou Annie freneticamente. Podia dizer que era realmente péssimo. Duncan Patrick não parecia o tipo de homem que ia à casa de um funcionário por um capricho. O que significava que Tim tinha feito alguma coisa muito estúpi¬da dessa vez.
— Apenas me fale — disse ela rapidamente. — O que ele fez?
— Ele usurpou minha companhia.
A sala inclinou-se de leve. O estômago de Annie embrulhou enquanto ela se perguntava se iria se juntar ao pequeno Cody e vomitar em sua saia.
Tim havia roubado o empregador. Ela queria perguntar como aquilo era possível, mas já sabia a resposta. Tim tinha um pro¬blema. Adorava jogar. Adorava demais. O fato de ele morar a somente cinco horas de carro de Las Vegas tornava o problema ainda mais complicado.
— Quanto? — perguntou Annie num sussurro.
— Duzentos e cinqüenta mil dólares.
Ela arfou. Poderia também ser um milhão. Ou dez. Era muito dinheiro. Um valor impossível de devolver. Tim estava arruina¬do para sempre.
— Pela expressão no seu rosto, posso ver que você não sabia sobre as atividades de seu irmão.
Ela balançou a cabeça.
— A última coisa que eu soube foi que ele estava adorando o emprego.
— Um pouco demais — disse Duncan secamente. — Essa é a primeira vez que ele roubou?
Annie hesitou.
— Ele... já teve alguns problemas antes.
— Com jogos?
— Você sabe?
— Tim mencionou isso quando eu falei com ele hoje mais cedo. Também disse que possuía uma casa, e que o valor exce¬dia a quantidade que ele roubou.
Os olhos de Annie se arregalaram.
— De jeito nenhum. Ele não disse isso.
— Lamento, mas disse, sra. McCoy. É esta a casa a qual ele se referiu?
Agora Annie realmente estava passando mal. Tim tinha ofe¬recido a casa? A sua casa? A casa era tudo que ela possuía.
Quando a mãe deles falecera, deixara a casa e um seguro de vida para que os dois dividissem. Annie usara sua metade do dinheiro do seguro para comprar a casa de Tim. Ele deveria usar o dinheiro para pagar os empréstimos da faculdade e investir o restante em algum lugar para morar. Em vez disso, tinha ido para Las Vegas. Aquilo acontecera quase cinco anos atrás.
— Esta casa é minha — declarou Annie com firmeza. — O meu nome é o único que consta na escritura.
Nada na expressão fria de Duncan mudou.
— Seu irmão possui outra propriedade? Ela meneou a cabeça.
— Obrigada pelo seu tempo. — Ele se virou para ir embora.
— Espere. — Annie colocou-se na frente da porta. Tim podia ser um completo irresponsável, mas era seu irmão. — O que acontece agora?
— Seu irmão vai para a cadeia.
— Tim precisa de ajuda, não de prisão. Sua companhia não tem um plano de saúde? Não pode conseguir para ele algum tipo de tratamento psicológico?
— Eu poderia ter feito isso antes que ele me roubasse o dinhei¬ro. Se ele não pode me pagar de volta, irei entregá-lo para a polícia. Duzentos e cinqüenta mil dólares é muito dinheiro, sra. McCoy.
— Annie — murmurou ela distraidamente. Era mais dinhei¬ro do que ele imaginava.. — Tim não pode pagá-lo aos poucos?
— Não. — Duncan olhou ao redor da sala de estar novamen¬te. — Mas se você estiver disposta a hipotecar sua casa, talvez eu considere não prestar queixa.
Hipotecar sua...
— Abrir mão de onde eu moro? Esta casa é tudo que tenho na vida. Não posso arriscá-la.
— Nem mesmo por seu irmão? Agora ele não estava jogando limpo.
— Você não perderia sua casa se pagasse prestações regulares ao banco — apontou ele. — Ou também tem problema com jogos?
O desprezo na voz de Duncan era muito irritante, pensou Annie enquanto o estudava. Notou o terno impecável, o relógio brilhante de ouro que provavelmente custava mais do que ela ganhava em três meses, e teve a impressão de que se olhasse para o lado de fora da casa veria um carro importado bonito, novo e sofisticado. Com bons pneus.
Aquilo era demais. Ela estava cansada, com fome, e esse era o último problema com o qual queria lidar no momento.
Annie pegou a conta de luz da caixa de correspondência e balançou-a na frente dele.
— Você sabe o que é isso?
— Não.
— É uma conta. Uma conta atrasada. Sabe por quê?
— Sra. McCoy...
— Responda a pergunta — gritou ela. — Você sabe por quê?
Duncan pareceu mais divertido do que com medo, o que re¬almente a enfureceu.
— Não. Por quê?
— Porque atualmente estou ajudando a sustentar minhas duas primas. Elas estão na faculdade e possuem bolsa de estudo parcial, e a mãe delas, minha tia, é cabeleireira e tem seus pró¬prios problemas. Você já viu o que garotas na idade da faculda¬de comem? Eu não sei como elas conseguem comer tanto e permanecerem magérrimas, mas conseguem. Siga-me.
Ela andou para a cozinha. Surpreendentemente, Duncan a seguiu. Annie apontou seu quadro de avisos.
— Está vendo isto? Nossa agenda familiar. Kami é uma es¬tudante estrangeira do sistema de intercâmbio. Bem, não real¬mente. Ela é de Guam e fez intercâmbio no ensino médio. Ago¬ra faz faculdade aqui. É amiga de minhas primas e não tem condições de pagar seu próprio lugar. Então mora aqui também. E apesar de todas ajudarem o máximo que podem, ainda não é o bastante.
Annie respirou fundo.
— Eu estou alimentando três garotas em idade universitária, pagando aproximada-mente metade do valor das faculdades, pela maior parte dos livros, e mantendo um teto sobre suas ca¬beças. Eu também tenho um carro velho, uma casa em constan¬te necessidade de reparos e muitos empréstimos para minha própria educação. Faço tudo isso com o salário de uma professora de jardim da infância. Portanto, não. Hipotecar minha casa, o único bem que tenho no mundo, não é uma opção.
Ela olhou para o homem alto e musculoso em sua cozinha e rezou para que o tivesse tocado.
Isso não aconteceu.
— Embora isso tudo seja interessante — disse ele — , não me devolve os 250 mil dólares. Se você sabe onde seu irmão está, sugiro que lhe diga para aparecer. Será melhor para ele dessa forma do que se for encontrado e preso.
Annie sentia como se o peso do mundo tivesse descido sobre seus ombros.
— Não. Eu lhe pagarei em prestações. Cem dólares por mês. Duzentos. Posso fazer isso, juro. — Talvez ela pudesse arranjar um segundo emprego. — Faltam menos de quatro semanas para o Natal. Você não pode jogar Tim na cadeia agora. Ele precisa de ajuda. Precisa se curar do vício. Enviá-lo para a pri¬são não vai mudar nada. E não é como se você precisasse do dinheiro.
O gelo retornou aos olhos acinzentados.
— E esse fato torna roubar uma atitude certa? Annie estremeceu.
— É claro que não. É somente que... Por favor. Eu trabalha¬rei com você. É de minha família que está falando.
— Então hipoteque sua casa, sra. McCoy.
Havia uma determinação no tom de voz de Duncan. Uma promessa de que ele falava sério sobre pôr Tim na cadeia.
Como ela deveria decidir? A casa ou a liberdade de Tim. O problema era que não acreditava que ajudaria seu irmão se hi¬potecasse a casa, mas como poderia deixá-lo ser preso?
— Isso é impossível — disse ela.
— Na verdade, é muito fácil.
— Para você — retrucou Annie. — O que você é? O homem mais cruel do planeta? Dê-me um segundo aqui.
Ele enrijeceu de leve. Se ela não o estivesse olhando fixa¬mente, não teria notado a súbita tensão nos ombros largos ou o estreitar dos olhos acinzentados.
— O que você disse? — perguntou ele, a voz baixa e controlada.
— Pedi que você me desse um minuto. Talvez haja outra opção. Um acordo. Eu sou boa em negociar. — O que ela real¬mente queria dizer é que era boa em negociar com crianças ir¬racionais, mas duvidava que Duncan apreciasse a comparação.
— Você é casada, sra. McCoy?
— O quê? — Annie olhou ao redor cautelosamente. — Não. Mas todos os meus vizinhos me conhecem, e se eu gritar, eles virão correndo.
A expressão divertida voltou ao rosto dele.
— Eu não estou aqui para ameaçá-la.
— Sorte minha. Você está aqui para ameaçar meu irmão. Praticamente a mesma coisa.
— Você falou que é professora de jardim da infância. Por quanto tempo?
— Esse é o meu quinto ano. — Ela nomeou a escola. — Por quê?
— Você gosta de crianças?
— Bem, é claro.
— Algum uso de drogas? Problemas com bebida alcoólica? Outros vícios?
Uma paixão exagerada por chocolate, mas aquela era real¬mente uma característica feminina.
— Não, mas eu não...
— Algum de seus ex-namorados já está na prisão?
Agora era a vez de Annie ficar furiosa.
— Ei, é da minha vida que você está falando.
— Você não respondeu a pergunta.
Annie lembrou-se de que não precisava responder. Aquilo não era problema dele. Entretanto, pegou-se dizendo:
— Não. É claro que não.
Duncan inclinou-se contra o balcão lascado e a estudou.
— E se houver uma terceira opção? Outro jeito de salvar seu irmão?
— E qual seria?
— Temos quatro semanas até o Natal. Quero contratá-la pelo período que vai de agora até o Natal. Eu pagarei você esquecen¬do metade do débito de Tim, enviando-o para uma clínica de reabilitação e estabelecendo um plano de pagamento para o res-tante do dinheiro. Para ser pago por ele quando sair da clínica.
Aquilo parecia bom demais para ser verdade.
— O que eu tenho que vale mais do que cem mil dólares?
Pela primeira vez desde que entrara na casa dela, Duncan Patrick sorriu. O movimento rápido transformou o rosto dele, fazendo-o parecer infantil e bonito. Também deixou Annie mui¬to, muito nervosa.
Ela deu um passo atrás.
— Nós não estamos falando de sexo, estamos? — perguntou com desespero.
— Não, sra. McCoy. Eu não quero fazer sexo com você.
Ela enrubesceu imediatamente.
— Eu sei que não sou realmente do tipo sexual.
Duncan arqueou uma sobrancelha.
— Eu sou mais a melhor amiga — continuou Annie, sentin¬do o buraco ficar cada vez mais profundo. — A garota com quem você conversa, não a garota com quem você dorme. Aquela que você leva para casa e apresenta à sua mãe quando quer convencê-la de que está namorando uma boa moça.
— Exatamente — disse ele.
— O quê? Você quer me apresentar para sua mãe?
— Não. Eu quero apresentá-la para todas as outras pessoas. Quero que você seja minha namorada para todos os eventos sociais que tenho de comparecer nesse período de feriados. Você mostrará ao mundo que eu não sou um imbecil completo.
— Eu não entendo. — Ele a queria contratar para ser sua namorada? — Você poderia sair com qualquer mulher que quisesse.
— Verdade, mas as mulheres com quem eu quero sair não resolvem o meu problema. Você resolve.
— Como?
— Você ensina crianças pequenas, cuida de sua família. É uma boa garota. Eu preciso de uma boa moça. Em retorno, seu irmão não vai para a cadeia. — Ele cruzou os braços sobre o peito. — Annie, se você aceitar, seu irmão consegue a ajuda que necessita. Se negar, ele vai preso.
Como se ela já não tivesse entendido isso.
— Você não joga limpo, verdade?
— Eu jogo para vencer. Então, qual é a resposta?
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