
Um Amor Em Ruínas
Capítulo 2
Amanhã seria o casamento, quatro anos deste acordo estranho chegavam ao fim, ou talvez, a um novo começo.
Ricardo Oliveira olhava para a taça de vinho tinto, o líquido escuro espelhava a sua mansão no Alentejo, um império de cortiça e vinho que herdara.
Ele tinha trinta e poucos anos, mas sentia-se mais velho, carregado por um fardo que o dinheiro não aliviava.
Sofia Almeida, a sua noiva, era a razão deste peso.
Ele tinha-a tirado de Alfama, uma fadista talentosa mas pobre, com uma mãe doente e um irmão mais novo para sustentar.
Pagou o tratamento raro da mãe no estrangeiro, curou-a.
Colocou João, o irmão, numa academia de futebol de renome.
Transformou Sofia numa estrela nacional do fado.
Tudo porque ela se parecia incrivelmente com Beatriz.
Beatriz Costa, a sua paixão de infância, morta num acidente de viação há anos, no dia em que iam fugir para casar.
Ricardo bebia mais um gole, o sabor amargo do vinho misturava-se com as suas memórias.
Ele acreditava que Sofia estava com ele por interesse, como não estaria?
Ele dera-lhe tudo, mas uma parte dele, uma parte tola e desesperada, desejava que fosse mais.
Esta noite, na véspera, ele precisava de ar. Saiu para o jardim, a noite alentejana estava fresca.
Ouviu vozes vindas de uma pequena sala de estar que Sofia usava quando a família a visitava.
Aproximou-se, uma sensação ruim a crescer no peito.
A voz de Tiago Mendes, o guitarrista de Alfama, amigo de infância de Sofia, era clara e cheia de uma emoção que Ricardo reconheceu como manipulação.
"Sofia, não podes fazer isto. Não podes casar com ele."
A voz de Dona Lurdes, a mãe de Sofia, soou, surpreendentemente a apoiar Tiago.
"Ele tem razão, minha filha. O Tiago é um bom rapaz, do nosso bairro. Sempre gostou de ti."
João, o irmão, também estava lá.
"Mana, o Tiago está a sofrer muito. Ele disse que se mata se tu casares com o Ricardo."
Ricardo parou, o sangue a gelar nas veias. Chantagem. Suicídio. As palavras ecoavam na sua cabeça.
Tiago continuou, a voz embargada.
"Tu sempre me amaste, Sofia. Estás com o Oliveira só pelo dinheiro, para ajudar a tua mãe e o João. Eu sei disso. Toda a gente sabe."
Um silêncio pesado. Ricardo prendeu a respiração.
"Se te casas com ele amanhã, eu juro que me mato. Não consigo viver sem ti."
Mais silêncio. Ricardo sentia o seu mundo a ruir. A confirmação do que sempre temera.
Dona Lurdes insistiu.
"Pensa bem, Sofia. Não queremos uma desgraça."
João acrescentou.
"Não faças isso ao Tiago, mana."
A pressão era palpável, mesmo do lado de fora da porta.
Sofia finalmente falou, a voz baixa, quase um sussurro.
"O que é que queres que eu faça, Tiago?"
A sua voz não continha a raiva que Ricardo esperaria de alguém inocente, mas uma resignação cansada.
Tiago respondeu rapidamente, a sua voz agora mais firme, vitoriosa.
"Quero que o humilhes. No altar. Diz que não casas. Foge."
Ricardo sentiu uma náusea. Humilhá-lo publicamente. Era esse o plano.
Sofia hesitou, um longo momento de silêncio que pareceu uma eternidade para Ricardo.
Depois, a sua voz, ainda mais baixa.
"Está bem, Tiago. Eu faço isso."
Ricardo fechou os olhos. Devastado.
Ela não era apenas uma substituta de Beatriz, era uma atriz, e a sua família, ingrata e cúmplice.
Ele não interveio. Ouviu tudo, cada palavra a cravar-se no seu peito como vidro partido.
A verdade era feia, mas libertadora.
A decisão formou-se na sua mente, fria e clara como gelo.
Ele cancelaria o casamento. Ele mesmo.
E iria embora, para a sua propriedade nos Açores, permanentemente.
Cortaria todos os laços. Sofia era uma sombra, e ele estava cansado de viver nas sombras.
As memórias de Beatriz invadiram-no.
Beatriz, a sua alma gémea, artística, gentil.
Tinham crescido juntos, o amor deles era puro, inocente.
No dia em que iam fugir para casar, um camião desgovernado.
Ele sobreviveu, ela não.
A dor nunca o abandonou.
Começou a procurar por ela em cada rosto feminino. Uma obsessão.
Encontrou muitas que tinham um traço dela, um sorriso, um olhar.
Mas nenhuma era ela.
Até Sofia. A semelhança era assustadora. A voz dela, melancólica e bela, lembrava-lhe a forma como Beatriz descrevia a arte.
Com Sofia, ele parou de procurar. Pensou que talvez pudesse moldá-la, recriar o que perdeu.
Que tolo.
Um substituto nunca seria o original.
Ele finalmente percebeu isso. Era tempo de seguir em frente, de verdade.
Os Açores seriam o seu refúgio, longe de Lisboa, longe das memórias que o assombravam aqui.
Voltou para dentro, o coração pesado mas a mente decidida.
Pegou no telefone, começou a cancelar os preparativos do casamento. Floristas, catering, músicos.
Tudo cancelado.
A porta abriu-se e Sofia entrou, um sorriso nos lábios, alheia à tempestade que se formava dentro dele e à decisão que ele acabara de tomar.
"Ricardo, querido, estava à tua procura."
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