
Um amor de ceo
Capítulo 3
Transei? Ela balança a cabeça assentido. Gargalho… Por que será, que o mundo pensa que junto com o divórcio, assinamos também votos de castidade? — Claro que já... — faço um gesto de pouco caso. — Foi o meu casamento que acabou, não a minha vida. Arrisquei alguns encontros... Não morri só porque me separei, Jasmim. Gosto de sexo e não vejo graça nenhuma em vibradores. Mas no fim das contas, só encontrei muita promessa e nenhuma empolgação. Entretanto, não estou a fim de entrar em um ciclo de fodas vazias e sem sentido com caras que não valem a pena. Minha prioridade é arrumar a bagunça que minha vida virou. Só que um dez é um dez, não tem como ignorar. Ainda mais um exemplar como aquele. Nunca vi um igual. — Nunca viu? — descrente, Jasmim gira o corpo ficando de frente para mim. — Qual é, o Sul está cheio de homens lindos. Pelas fotos que mostrou no Face, seu ex é bem um dez. Estico as pernas e as uso como apoio para dobrar o avental. — Bernardo é bonito sim, mas é um nove menos, muito menos. Os dez mais são raros, quase extintos. Pensando bem, acho que o moreno delícia deve ser um dez menos. Na certa aprontou uma das boas. Aquela beleza inalcançável dele é bem típica dos cretinos, a mulher não iria surtar daquele jeito à toa. — Também não precisa exagerar. — Pode até ser preconceito, mas minha experiência me ensinou que homens bonitos são um perigo. Charmosos e sedutores no começo e depois viram uns demônios insensíveis. — dou uma bufada antes de ficar de joelhos e entregar o avental dobradinho. — Nossa, foi tão ruim assim? Sei que abriu mão de uma vida confortável para estar aqui. Mas, nem o sexo compensava? Achei seu homem tão quente pelas fotos. Levanto e ela me segue. — Meu ex homem você quis dizer. — rebato com ironia. — Ele era quente sim e carinhoso... No começo... Pena que o príncipe transformou-se em tirano, impondo-me coisas não muito prazerosas. Meu casamento virou um mar de solidão e quase pirei, pensei que o problema estivesse em mim. Cheguei ao cúmulo de ler livros e ver filmes para apimentar a relação. Descobri e aprendi coisas que uma senhora de família nem sonharia em fazer com o marido. Tudo em vão. — sorrio tentando disfarçar as más lembranças. — O problema estava nele e em suas preferências nada ortodoxas. Fui muito ingênua, o ordinário já andava frequentando outros parquinhos e a trouxa aqui nem sonhava. O rosto bronzeado de Jasmim contrai em repulsa. — Fez bem em mandar o babaca pastar, Polaca. — Eu sei. — sorrio, agora de verdade, e saio apressada dando um tchau para todos e para ninguém. Dois ●●● ● ● ● ●●● D epois de sair o café, caminho em direção ao prédio da Callas Corporation. Consigo ver o arranha céu daqui. Uma torre de vinte e um andares em concreto, aço e vidros espelhados, que desponta solitária e imponente à minha frente. Os raios de sol incidem nos espelhos a fazem brilhar como um diamante. Há dois meses, faço o mesmo caminho para o trabalho e há dois meses, impressiono-me com sua arquitetura. O prédio fica em um terreno amplo, na principal avenida do bairro. Um contraste moderno diante da simplicidade ao seu redor. Dizem que a escolha do lugar, para a nova sede, foi exigência do próprio dono. Dou a volta no quarteirão e a imagem do homem bonito montando em sua moto, levando a morena com ele, ainda está marcada na minha memória. Rio sozinha do quão idiota eu sou... Fiquei mesmo impressionada pela beleza avassaladora dele. Olho para os lados, antes de atravessar para a reta final de cinquenta passos. Diacho Nina! Praguejo baixinho... Tenho vontade de arrancar minha trança... Foi justamente assim, que me meti no pior relacionamento do século. A beleza de Bernardo me fascinou, nunca estive nem aí para o dinheiro dele. Porém, não nego, fiquei muito animada com seu tipo exótico e olhe que posso dizer com certeza, que ele é bonito, mas não chega aos pés do motoqueiro gentil Pronto, Nina! Chega de bobageira! Deixe o homem no lugar dele... Só na fantasia... Paro na calçada, bem em frente ao prédio e a placa que diz: CUIDADO! SOMENTE PESSOAL CREDENCIADO . Pulo a correntinha de isolamento e os homens da manutenção já estão a todo vapor trabalhando nos jardins. Jardins que eu reformulei! A torre espelhada fica ao fundo. Antes dela, abrindo o caminho como um tapete vermelho, temos uma alameda extensa. Uma espécie de passarela em granito negro que conduz até as portas envidraçadas do hall de entrada. De um lado, um espelho d’água com os mesmos cem metros que a passarela e do outro, um jardim de descanso com canteiros rodeados por bancos rústicos. Em cada um deles: árvores, folhagens e flores. Modéstia parte... Lindo, lindo. Eu amo o meu trabalho! Sou boa no que faço. Hoje, são as árvores que me trouxeram aqui. Podem me chamar de louca, mas elas conversam comigo e não estão felizes. De duas semanas para cá, têm perdido o viço. Fui contra o uso de adubo químico, mas fui vencida pela minha chefe. “ Mais baratos e menos fedidos.” Taí o resultado! Folhas amareladas e caindo. Briguei, argumentei e agora, posso sentir no ar o cheiro do melhor adubo que existe: a boa e potente titica de galinha. Dane-se o fedor. Até segunda-feira, não restará nem lembrança do odor e minhas árvores vão ficar magníficas. — Senhorita Nina! — o chefe de jardinagem acena e vem em minha direção. — Oi André. Vocês adiantaram bem o trabalho. — elogio satisfeita. — A adubação já foi refeita. Reviramos a terra e trocamos as folhagens dos canteiros laterais. Falta só regar, vou dispensar os homens. Posso fazer a rega sozinho. — Eu te ajudo. — digo esfregando as mãos no macacão — Pode liberar o pessoal, que eu vou começando. — Não precisa, Senhorita. Essa mangueira tem uma pressão desgranhenta. — olha para os meus braços finos, sem muita convicção que seja possível. Endireito o corpo tentando parecer maior e mais forte que sou. Quer ver eu tentar alguma coisa até a exaustão? É só dizer que acha que não consigo. Sorrio, abaixo e pego a mangueira. Eitaaaa! Pesaaaada. Não é à toa que os bombeiros são tão sarados. Movo a alavanca no bocal com cara de que sei exatamente o que estou fazendo. — Opa, cuidado com isso aí. — desespera-se. — Só abra depois que o fluxo de água estiver completo. Hum, hum... Ooook... Fluxo de água completo. Molezinha. — Relaxê, André. Libera essa água para mim, piá [8] . — sorrio confiante e preparo-me. Fico de costas para a rua ao assistir ao homem correr até o hidrante. Está escrito na testa dele que não gostou nada, nada. Reviro os olhos, ajeito meu chapéu e agarro firme na mangueira. Afinal, vim aqui para pôr a mão na massa e o que pode dar errado? Mangueira é mangueira. Esses homens e suas malditas manias de acharem que não somos capazes. Sinto uma vibração começar a sacudir a mangueira como um maremoto... Ô... Ooooh. Lascou-se. ●●● ● ● ● ●●● Theo Atrasado, estaciono minha moto na entrada lateral da Callas. Tiro o capacete e a jaqueta depositando-os sobre o banco. Checo o celular e ainda tenho uns minutos. Respiro fundo, aliviado... Menos mal, detesto chegar atrasado e abomino mais ainda, cenas de ciúmes patéticas como as de Andreza mais cedo. Porra! Se não fosse pela platéia assistindo, acho que teria perdido a cabeça. A merda é que eu sou o único culpado, deveria ter cortado as asas daquela maluca logo no início, mas não, arrastei a coisa nem sei por quê? Hummm... Amiguinha de infância... Gata insistente e fácil… Bunda empinada... Seios tentadores e uma boca gulosa... Bem, eu sei por quê. Mas não importa, ela que se controle. Não há beleza que resista a chatice. Pulo a corrente de proteção, que proíbe a passagem, no mesmo momento em que o meu celular vibra... Caminho apressado pela passarela respondendo ao texto de Andreza. Será que ela não entendeu nada do que falei? Praguejo alto... — Mas, que merda de dia. “Meleca! Danou-se! “ Meleca? Ouço um grito de mulher, mas quando desvio a atenção do celular para ver de onde veio o som, sou atingido. Mas que porra? Um jato d’água, mais forte que um soco, golpeia em cheio minhas bolas. — Puta que pariu, como isto dói! — berro deixando cair o celular e inclino-me para frente tentando me proteger. Um jato atinge meu rosto... Um murro doeria menos e tenho que fechar a boca para não me afogar... Umagritariacomeçaesouatingidováriasvezes,atéque finalmente, o jato é desviado para outro lado. Sou invadido pelo alívio, mas ele dura pouco. Abro os olhos só para ver uma onda lamacenta ejetar-se e espirrar em mim. Mais gritos, incluindo os meus, e um cheiro ruim paira no ar. Percebo que minhas roupas, além de encharcadas e cobertas de terra, estão impregnadas pelo fedor. Mas que merda é essa? Respiro fundo para recuperar o fôlego e conter a dor entre as pernas. Caralho!
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