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Um Acordo Para Aileen

Lady Aileen viu sua vida mudar após a morte do pai, o Conde de Bellmant. Agora, ela carrega o peso de proteger seu legado contra um homem vil. Damien Silverstone, um influente magnata, sempre admirou Aileen em segredo, mas temia que sua falta de nobreza fosse um entrave. Ao descobrir que ela precisa de um marido para salvar o título da família, ele propõe um acordo audacioso. Esse pacto inesperado promete transformar o destino de ambos para sempre.
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Capítulo 3

Muitos se perguntavam como Michel Benson tornou-se tão influente. O advogado vivia um uma luxuosa residência, e entre as pessoas de seu círculo de amizade estavam grandes empresários e aristocratas. Ele era sempre presença certa em eventos da temporada, e naquele final de tarde Anthony Silverstone incumbia ao filho mais velho, Damien, a “honra” de representar a família no banquete oferecido por Benson. Damien suspirou, não era exatamente um admirador do advogado, e a recepção tinha como motivo aparente seus vinte e tantos anos de profissão, então para ele, não passava de mais uma oportunidade de ter algum tipo de adulação.

Se muitos questionavam o motivo do Sr. Benson ser tão celebrado, ele bem sabia que nem de longe ele era o homem bom e honrado, como parecia ter necessidade de demonstrar a todo instante. Para ele, Damien, ele só era considerado ilustre porque cuidava de assuntos constrangedores de muitos dos homens ditos importantes da sociedade londrina. Provavelmente, os mesmos que imploravam por mais tempo para pagar as dívidas no banco da sua família.

Damien Silverstone, o primogênito de uma família sem laços com a nobreza, cujo a riqueza começou a ser conquistada no convés de um navio pirata, tomou um gole generoso do uísque enquanto pensava em alguma maneira de dizer não ao pai.

– Não é nada de mais – disse o pai - tome alguns drinques, deixe Benson achar que tem alguma importância para os Silverstone. Pode levar Lilly, se quiser.

– Não vou expor Lilly a isso - respondeu prontamente.

– Eu aposto como ela gostaria de ir – o pai riu, divertido – sabe o quanto sua irmã se diverte com as conversas nessas ocasiões.

– Sei bem o quanto ela costuma zombar dessas ocasiões, mamãe deveria pensar duas vezes antes de decidir se uma temporada agora seria o melhor para ela – Damien apreciava o humor e a inteligência da irmã mais jovem, que não importava-se com algumas das convenções, estando presente em eventos com os pais e os irmãos sempre que queria.

– Se fosse possível, sua mãe arrumaria uma temporada para você e Elijah.

– Não dê essa ideia a ela, por favor….

– Não pode esperar que esse seu caso com a Srta. Blake dure para o resto da vida, D – Anthony levantou-se, indo à procura de um charuto – se ao menos gostasse dela, mas como todos sabemos dos seus hábitos….

– Meus hábitos não incomodam ninguém – ele deu os ombros.

– Aposto que cada uma das senhoritas desavisadas que você ilude discordam, filho – ele fez uma pausa enquanto acendia o charuto, e depois de uma tragada continuou – já considerou assumir um compromisso com Gabrielle Blake?

– Não vou me casar com ela – a resposta veio como o corte afiado de uma lâmina – aliás, casar não é algo que eu pretenda fazer tão cedo.

Ele viu Lilly entrando no escritório do pai, e ela sorriu ao vê-lo:  - Ora, veja só quem resolveu nos honrar com sua presença! - Damien levantou-se para receber um abraço carinhoso da irmã mais nova.

– Ouvi dizer que você precisa de uma acompanhante para ir ao banquete na casa do Sr. Benson – ela riu do discreto revirar de olhos de Damien – posso fazer esse sacrifício – Lilly acomodou-se em uma cadeira ao lado do irmão – a menos que queira levar alguma de suas queridas amigas, quem sabe a Srta. Blake.

– Já tive essa conversa com ele, querida – disse Anthony, parecendo não se importar com o ligeiro mal - humor de Damien – e ele não quer levá-la.

– Oh! – Lilly colocou a mão sobre o colo, e Damien fez que não viu sua expressão ultrajada bem conhecida por todos na família, e que obviamente ninguém levava a sério – bem, você é quem sabe D., mas vou avisando que não quero ouvir reclamações sobre senhoritas desesperadas por um marido cercando-o como se fosse uma caça.

– Que péssima comparação! - Damien resmungou.

– Você sabe muito bem que eu as assusto…. Bem, eu faço isso de propósito….

– Ninguém percebeu…. - ele olhou para a irmã, pensando que sua presença realmente poderia espantar as senhoritas, pelo menos parte delas, já que Lilly era o tipo de língua afiada, e que as fazia pensar. Tinha a desconfiança que muitas daquelas moças não gostavam de questionamentos ou das ideias da irmã, que já havia pedido para trabalhar em alguns dos negócios da família.

– Então você só tem a ganhar com minha presença! - ela regojizou.

– Ok, Lilly, vou levá-la comigo – ele sabia que ela provavelmente só queria ir porque sabia que algumas de suas poucas amigas também estariam lá – assim tenho a desculpa perfeita para não me demorar muito.

A noite estava agradável, e Damien pedia a Lilly que se comportasse, mas que se notasse alguma aproximação exagerada do Sr. Benson não hesitasse em desacatá-lo. Ela riu dizendo que Elijah havia lhe ensinado alguns golpes de boxe. Achou que o irmão estava brincando quando havia lhe contado que estava ensinando defesa pessoal à Lilly,  mas com o tempo, percebeu que poderia ser muito útil que ela soubesse se defender caso não estivessem por perto. Lilly era muito graciosa, e bonita, havia herdado os cabelos castanhos claros da mãe, e também o sorriso encantador. Ainda assim havia muito dos Silverstone nela. Principalmente o temperamento.

A residência de Michel Benson, estava iluminada e enquanto ajudava Lilly a descer da carruagem, pensava que talvez fosse um dos últimos a chegar, aquele compromisso não estava em seus planos. Só queria ir para algum clube, jogar pôquer, e depois de limpar alguns bolsos alheios, arrumar alguma boa companhia feminina, quem sabe mais de uma. A verdade é que eventos como aqueles, na casa de Benson, o entediavam. Ele sabia no fundo, que apesar de ter muito mais recursos que a maioria dos aristocratas que estariam lá, não era um deles. Isso não o afetava, mas, atrás da sua mesa, fosse na companhia ou no banco, ele conseguia ver o quanto muitas daquelas pessoas que gostavam de parecer superiores, apenas viviam de aparências.

Quando entraram na casa, ele teve certeza que a palavra recepção havia sido mal empregada diante da quantidade de pessoas que ali estavam. Conhecia a maioria, que apenas tolerava, entre eles o próprio anfitrião. Trocou um olhar com a irmã, que deveria pensar a mesmo que ele, que era apenas uma convenção social, e que eram Silverstone, e nada abala um Silverstone.

Benson logo os avistou, e abriu um sorriso acenando com a cabeça, o que fez Damien pensar que era melhor trocar alguma cordialidade logo, e depois, como o desprezo era recíproco, não precisariam mais ficar um na presença do outro.

– Sr. Silverstone – Benson se aproximou, com aquele sorriso ensaiado de sempre nos lábios, e olhou para Lilly logo em seguida, demorando-se mais do que necessário ao admirar a jovem – como tem passado? Soube que o senhor esteve navegando pela costa.

– Estou muito bem, Sr. Benson, obrigada – disse Damien, apertando mãos de alguns conhecidos que foram se aproximando – estava apenas fazendo alguns testes com o navio.

– Não pretende nos saquear, assim espero – Benson comentou provocando Damien, que riu discretamente.

– Seria ambicioso de minha parte, o “Divine Lauren” é apenas para transporte – ele disse aceitando a bebida que lhe foi oferecida – mas recuperei o “Cicloner”, então, não posso prometer nada.

– O navio pirata que pertenceu ao seu bisavô…. – disse Benson pensativo – por certo não deveria pertencer agora ao tesouro? Ou permanecer como parte histórica em alguma doca?

– Nada que um pouco de conversa, advogados, favores e uma soma considerável de dinheiro não resolvesse – Damien respondeu despreocupado, ele bem sabia que Benson em pessoa estava cuidando para que o navio não voltasse para a família Silverstone – o senhor sabe como funciona.

– Ah, claro – ele dissimulou e o sorriso ensaiado voltou a aparecer nos lábios finos e pálidos, enquanto Lilly pedia licença dizendo que havia visto uma das amigas.

Damien olhou para onde sua irmã estava indo, um grupo de garotas em seus lindos vestidos, juntas lhe pareciam encantadoras, seus sorrisos inocentes e a vivacidade ainda juvenil de quem estaria na temporada que começaria em breve. E ele não foi o único a olhar, mas muito provavelmente o que aconteceu a seguir fez seu coração errar uma batida, não estava preparado, nem sequer havia pensado que a veria novamente. E pensava que não achava possível que ela estivesse ainda mais bonita do que da última vez que a vira. Os cabelos cacheados negros como a noite mais fria de inverno e seus olhos felinos acinzentados. Lady Aileen Ballard, em seu vestido branco era para ele a visão mais perfeita do que uma garota poderia ser. Levou a taça já quase vazia aos lábios, tentando desviar seu olhar dela, mas era quase impossível.

Ao seu redor falavam de negócios, perguntavam sobre a economia do país, bancos, terras, e ele sentiu-se como se estivesse preso no sorriso doce de Aileen, amaldiçoando-se por portar-se como um incauto colegial, e esperando não emudecer quando tivesse que falar com ela, afinal, não eram íntimos, mas Lilly e Aileen pareciam estar cada vez fortalecendo mais seu vínculo de amizade.

– Silverstone - ele ouviu alguém, e logo viu Eugene Barton, um velho amigo da família, parado ao seu lado – interessado no título?

Tentou atinar à que título Barton se referia, achando a visão cobiçada pelas mulheres um tanto desagradável em comparação à de Lady Aileen, mas Eugene sorriu de canto e continuou:

– Lady Aileen tem feito admiradores aparecer à porta da casa Bellmant, dispostos à casarem-se com ela, afinal o título do falecido conde deve passar adiante – ele piscou – já sou comprometido, no entanto se não fosse, já teria tentado.

– Sou plebeu, meu amigo - disse Damien, evitando olhar na direção da jovem novamente – não teria a menor chance diante de tantas opções de sangue azul.

– Não seja pessimista, D - Eugene aceitou uma taça de champagne, assim como Damien – ela rejeitou todos, até mesmo Lorde Cavendish, que parece ter uma reputação impecável.

– A temporada dela será agitada…. - tentou ignorar o fato de que aquilo o incomodava.

– Eu não acho que ela terá uma... - Barton fez uma pausa – a um comentário, bem, não acho que isso seja verdade...

– Comentário? - ele surpreendeu-se, afinal além de ser filha de um homem cuja a reputação era imaculada, o Conde Dorian Ballard falecera recentemente, e ele pensou se isso poderia tê-la afetado a ponto de gerar comentários. E não só isso, mas sobre o que seriam esses comentários.

– Ela tem poucos dias para se casar, para evitar que o título vá para um parente distante do falecido conde, pelo que se sabe, um homem desagradável e de péssima índole - Eugene olhou para o Sr. Benson, fazendo com que Damien também olhasse – há boatos que ela recusaria esses jovens lordes, porque vai se casar com nosso anfitrião.

Damien pensou não ter ouvido direito, não podia acreditar que aquilo fosse verdade e olhou novamente para Aileen, que agora olhava na sua direção, enquanto Eugene ainda falava sobre a recepção, que seria um pretexto para que as pessoas vissem Aileen e Benson mais próximos. Damien viu os lábios dela entreabrirem ligeiramente, e depois curvarem-se em um tímido esboço de um sorriso, capturando sua atenção novamente.

Nunca teve ilusões sobre ela, tinha certeza que assim que Aileen debutasse, teria muitos pretendentes, e conformado pensava que seria até mesmo divertido ver os pobres idiotas tentando impressioná-la. Como raramente frequentava esses bailes, possivelmente estaria se embriagando, de clube em clube até que chegasse aos seus ouvidos, que a garota dos lábios mais doces que ele nunca provaria, se casaria.

Provavelmente a veria entrar na igreja, e a encontraria em outras ocasiões, e certamente um dia ele mesmo acabaria se casando, e sua vida também seguiria em frente. Só não imaginava que fosse acontecer tão rápido, e em que mundo Aileen se casaria com um homem detestável como Michel Benson era o que se perguntava.

Aceitou mais uma taça de champagne e voltou a olhar para Aileen, ela ainda estava no grupo animado de moças, ela ainda mantinha uma expressão suave em seu rosto, então ela sorriu, e depois de lhe enviar um olhar que era quase um convite à sua doce presença, saiu do seu campo de visão, indo para o outro cômodo. Damien prendeu a respiração, evitando o suspiro quase doloroso diante da beleza arrebatadora daquela que permeava seus pensamentos mantidos em segredo até de si mesmo.

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