
Tyler Creed livro 3 irmãos Creed
Capítulo 3
A DIFERENÇA DE quinze anos entre as idades dos dois estava evidente no rosto cansado de Doreen de um jeito que não estivera antes. Ela parecia magra no seu uniforme de garçonete de cassino, e os vincos em sua testa eram profundos. Estava desenvolvendo uma papada e a boca era dura, o batom vermelho demais e ligeiramente mal aplicado.
Ainda assim, os olhos cansados da mulher se suavizaram ao reconhecer Tyler, de pé em um dos vários restaurantes do cassino. Davie estava sentado em uma mesa próxima, tomando um pouco de refrigerante e fingindo que estava lendo uma daquelas revistas em quadrinho metidas à besta que se faziam passar por livros de arte.
Ele não parece muito comigo, Tyler pensou, com distraída tristeza. Por outro lado, ele mesmo jamais parecera muito com Jake Creed. No fundo, tivera suas fantasias de que a mãe pulara a cerca, e o concebera com um amante, contudo, sempre duvidara da própria fantasia, A pobre Angie não parecia ter a força necessária para desafiar Jake desse jeito. Ou talvez simplesmente amasse demais o marido para traí-lo.
No final das contas, tal amor a destruíra.
— Tyler — Doreen disse, quase lhe suspirando o nome.
— Doreen — Tyler retrucou, assentindo.
Agora que estava cara a cara com a mulher que podia ter dado à luz o seu filho, sem se dar ao trabalho de avisá-lo, todas as coisas que planejara dizer, todas as coisas que ensaiara a caminho da cidade com Kit Carson no banco do carona o desertaram.
― Eu poderia dar uma parada para descansar em meia hora — ela informou.
Tyler simplesmente voltou a assentir. Deixara Kit Carson na casa de Cassie para poupá-lo de uma longa espera na Blazer, de modo que tinha tempo. Poderia fazer um pouco de hora.
Doreen hesitou por alguns instantes, alternando o olhar entre Tyler e Davie. Depois, suspirou, e virou-se, afastando-se para anotar mais outro pedido de um prato de nachos, outra caneca de cerveja.
Tudo no tocante a ela, o modo como se movia, o modo como falava, dizia que a garçonete estava infeliz. Odiava a própria vida, mas não sabia como escapar dela.
Ao contrário de Angela Creed. Ela encontrara uma saída, e para o inferno com o sofrimento que deixaria para trás com a sua partida.
Tyler aproximou-se da mesa de Davie.
— Importa-se que eu me sente?
Davie não ergueu o olhar. Apenas deu de ombros.
A capa do livro ilustrado mostrava uma mulher sendo devorada por uma fera horrenda, e Davie parecia completamente entretido.
Tyler sentou-se do outro lado da mesa de Davie, fez sinal para outra garçonete e pediu café, Ele gostava da cerveja ocasional, mas tendo Jake Creed por pai, e com uma juventude turbulenta no passado não tão distante assim, um homem costumava moderar o seu consumo de álcool. Por um instante, perguntou-se se Logan e Dylan não teriam o mesmo cuidado para não exagerar na bebida.
― Um bom livro? — perguntou.
— Para que quer saber? — Davie retrucou.
— Todos esses ganchos e argolas doem? — Tyler insistiu, franzindo a testa ao olhar para o piercing da sobrancelha.
A argola atravessando o lábio inferior de Davie o deixou ligeiramente pouco à vontade, e, considerando algumas das brigas de bar nas quis se metera, isso não era pouca coisa.
— Doeu quando eu fiz — Davie admitiu, parecendo ao mesmo tempo desafiador e interessado. — O que está fazendo aqui?
— Vim conversar com a sua mãe — Tyler disse.
— Sobre o quê?
Tyler não estava disposto a abordar a questão da paternidade, pelo menos não sem antes dar uma palavrinha com Doreen.
― Nada de mais. Dylan me contou que o xerife Huntinghorse queria enviá-lo para um lar adotivo, e que você disse que fugiria se ele o fizesse.
Não havia humor no sorriso que Davie deu e nem nos seus olhos.
— Cidades pequenas. As notícias realmente se espalham como fogo em capim seco.
— Fugir seria uma péssima idéia.
— Você não conhece o namorado da mamãe. O xerife disse que ia encontrar Roy e avisar para que ele não batesse mais em mim. — Davie bufou uma risada amarga. — Isso vai tornar as coisas realmente agradáveis quando mamãe e eu voltarmos para o velho trailer, após o turno dela.
Tyler sentiu seu âmago se contorcer, só de imaginar o que o menino poderia ter de enfrentar mais tarde, naquela mesma noite. E, subitamente, deu-se conta de que não poderia suportá-lo, independente de Davie ser ou não seu.
— Eu estive pensando melhor -— Tyler disse, cuidadosamente. — Talvez eu precise mesmo de alguém para me ajudar com o chalé.
Embora houvesse tentado, Davie foi incapaz de disfarçar o seu interesse. Ele fechou a revista, pousou-a na mesa e franziu a testa ao fitar Tyler.
— Que tipo de ajuda? — perguntou, com certa desconfiança. Isso vindo do garoto que praticamente implorara para ficar.
— Você mesmo disse, esta tarde. Para cuidar de Kit Carson, aparar o capim, coisas do gênero.
— A casa é pequena. Onde é que eu dormiria?
— Poderíamos lhe arrumar uma cama de armar e um saco de dormir.
— Você sequer tem uma televisão. Tyler sorriu.
— De repente, você está um bocado exigente, para alguém que, antes, não queria perder tempo em se mudar.
— Você seria um pai adotivo? — Davie perguntou, como se fosse um advogado. — Quem sabe não vai receber um pequeno cheque do condado ou do estado?
Tyler riu, tomando um gole do café ruim do cassino, antes de responder.
— Diabos — disse —, não há quantia de dinheiro que pudessem me dar que pagaria por agüentar a sua atitude. É uma oferta hospitaleira, mais nada. E sua mãe precisa aprovar, é claro.
Peia aparência de Doreen, ela há muito que devia estar se colocando entre o bom e velho Roy, o namorado, e o filho. Considerando todos os seus problemas, deixar Davie ficar com Tyler por algum tempo provavelmente seria um alivio para a garçonete.
— O que o fez mudar de idéia? — Davie perguntou, de má vontade, mas com um pouco menos de atitude do que antes.
Tyler podia perceber que ele tinha medo de ter esperança, e isso o deixou furioso. Também trouxe de volta lembranças demais.
A vida não deveria ser tão difícil assim para Davie, tão difícil assim para tantas crianças.
Como fora para ele.
— Só precisava de um tempo para pensar, mais nada — Tyler disse. Davie provavelmente deve ter achado as palavras tão pouco convincentes saindo de sua boca quanto ele se sentiu proferindo-as. — É claro que, se fizer besteira, está fora.
Os olhos de Davie se arregalaram. Eram os olhos de Doreen, não os de Tyler, ou de qualquer outro membro da família de que ele pudesse se lembrar. Contudo, ainda assim.
Ainda assim.
— Está falando sério? Eu poderia ficar na sua casa?
— Estou falando sério. Contanto que não cause problemas.
— Você vai arrumar uma TV? Tyler riu.
— Eu não disse isso — salientou. — Contudo, assim que eu vir que tipo de recruta você é, talvez eu o deixe usar o meu laptop de vez em quando.
— E tudo que terei de fazer é cuidar do cachorro e aparar um pouco o capim?
— Você já viu o capim. Está na altura da cintura. Estou certo de que há um gramado em algum lugar ali embaixo, mas não tenho certeza. — Tyler interrompeu-se, ponderando. ― A verdade é que tenho pensado em expandir o lugar. — Será que havia mesmo pensado nisso? Não conscientemente, mas agora que a idéia se apresentava, provavelmente estimulada pela menção de Dylan de derrubar sua casa antiga para erguer uma nova, e pelo pouco que sabia das reformas acontecendo na casa principal, sob a direção de Logan, ele meio que gostou da perspectiva. — Isso significaria um pouco de carpintaria. Talvez também um pouco de trabalho no encanamento e na parte elétrica.
Davie parecia preocupado. Talvez todo o trabalho duro impedisse o fechamento do negócio.
— Não sei nada a respeito de construção — por fim disse.
— Neste caso, somos dois — Tyler disse.
Um alívio cauteloso substituiu a preocupação no rosto de Davie.
― Contudo, eu não me importaria de aprender. Sempre achei que seria legal saber fazer estantes para livros e coisas do gênero.
Tyler olhou sugestivamente para o livro ilustrado esquecido sobre a mesa.
— Tem uma coleção dessas coisas? — perguntou. Davie fungou, o som uma mistura de humor e amargura.
— Não — disse. — Peguei esta aqui na biblioteca. Geralmente vou até lá usar os computadores, mas Kristy disse que eu deveria experimentar ler um pouco, e ela jamais me expulsa quando estou querendo apenas um lugar para passar o tempo, de modo que peguei este livro aqui.
Intrigado, Tyler ergueu uma das sobrancelhas.
— Suponho que ela... Kristy, é claro,., tenha sugerido algo como Caninos Brancos ou Ivanhoé — disse.
Davie riu, e, desta vez, pareceu sincero. Quase normal.
— Não. Ela mesma escolheu este para mim. Disse que seria bom para eu molhar os pés e descobrir como ler pode ser divertido.
Tyler lembrou-se da predecessora de Kristy, a srta. Rooley Uma solteirona, de poucas palavras, que parecia desaprovar tudo. Ela também permitira que ele se escondesse na biblioteca quando criança, quando Jake estava tendo um dia especialmente difícil, e Logan ou Dylan não estavam por perto para se meter entre ele e os punhos do pai, mas ela sempre exigira algo em troca. Ele fora forçado a ler o que a srta. Rooley reverencialmente chamava de "Os Clássicos", sempre enfatizando o termo com o seu tom de voz.
A princípio, fora pura agonia, arrastando-se ao ler os tomos que mal compreendia. Depois, começara a gostar, embora isso fosse algo que jamais quisera que ninguém soubesse, principalmente os irmãos mais velhos. Comparava-se à sua queda secreta pela música de Andréa Bocelli. Também gostava das grandes bandas de Jazz... Glenn Miller, Tommy Dorsey, esse pessoal.
Em se tratando de segredos, esses não eram lá grandes coisas, mas mesmo assim eram segredos. E, com um garoto morando sob o seu teto, seriam ainda mais difíceis de guardar.
— Você gosta de Kristy? — Tyler perguntou, mais para não deixar a conversa morrer.
— Ela é legal — Davie admitiu. — Mas, na biblioteca, devo chamá-la de sra. Creed.
— É — concordou Tyler.
Sra. Creed. Contando a esposa de Logan, havia duas delas agora.
Só para mostrar como aqueles que não aprendiam com a história de fato estavam condenados a repeti-la.
Kristy morara toda a sua vida nos arredores de Stillwater Springs. Sabia o que significava casar-se com um arruaceiro, o que a deixava sem desculpas para correr tal risco. Briana, por outro lado, era uma desconhecida, uma vítima inocente.
Será que ninguém a alertara que os Creed eram notoriamente ruins em se tratando de casamento? Não lhe mostraram as três covas no velho cemitério depois do pomar, o descanso final da última geração de esposas Creed, todas mortas muito antes da hora?
Observando Davie, Tyler achou que o rapaz estudava-lhe o rosto com demasiada intensidade, enxergando coisas demais. Ele parecia que queria fazer uma pergunta, mas a engoliu quando receberam uma companhia inesperada.
Um homem enorme apareceu ao lado da mesa, a barriga de cerveja quase pulando para fora da camiseta sem mangas. Seus braços eram tatuados da ponta dos dedos até os ombros. Ele precisava fazer a barba, e o boné cobrindo-lhe os olhos parecia ter sido atropelado por uma jamanta com um sério vazamento de óleo.
Davie pareceu encolher para dentro de si mesmo, como se estivesse tentando desaparecer.
A presença de Roy teve justamente o efeito oposto em Tyler. Ele deslisou até a extremidade do banco e ficou de pé. Doreen sempre gostara de tatuagens. Talvez isso explicasse por que ela se envolvera com cento e cinqüenta quilos de pura feiúra, embora houvesse coisas que fugissem a explicações racionais, e este cretino era uma delas.
Os sinistros olhinhos de porco de Roy se arregalaram ligeiramente. Era óbvio que ele estivera tão concentrado em Davie que sequer notara que o garoto não estava sozinho.
Agora, fitava Tyler com uma cautela hostil.
— Quem é você?
— O nome dele é Tyler Creed, Roy ― Davie, informou, obviamente apavorado. — Estávamos apenas conversando. Ele não estava fazendo nada de mal...
Tyler estendeu a mão para silenciar o garoto. Roy, sendo uma cabeça mais baixo, porém, mais encorpado, levantou os olhos para fitar o rosto de Tyler.
— Um Creed, não é? — disse. — Conheço bem essa raça, Tyler cruzou os braços e aguardou.
Roy recolheu um pouco as presas.
— Olhe — disse. — Eu só vim levar o menino para casa. Não há por que causar problemas.
— Ele não vai a lugar algum — Tyler respondeu. — Pelo menos, não no momento.
Roy claramente não apreciava ser contrariado, Como todos os valentões, estava acostumado a conseguir tudo que queria só com a banca de durão. O problema de bancar o durão, Jake costumava salientar, é que inevitavelmente havia a possibilidade de aparecer alguém ainda mais durão.
E isso podia fazer toda a diferença.
— Eu disse que não queria problemas — Roy reiterou, calmamente.— Só quero o garoto em casa, que é o lugar dele.
— Ainda estamos discutindo sobre onde é o lugar dele — Tyler disse, com semelhante calma, mas com a costumeira determinação dos Creed.
— Neste instante, tudo que sei é que ele vai ficar aqui mesmo, e que você não vai encostar nem um dedo nele.
Um rubor intenso pulsou pelo que passava pelo pescoço de Roy, embora sua cabeça parecesse estar enfiada diretamente nos ombros. Ele cerrou um dos punhos gordos, querendo bater em alguém.
— Está atrás de briga, caubói? — perguntou para Tyler.
— Não. Mas, quando a oportunidade de brigar aparece, também não corro dela.
O rubor se espalhou para o rosto de cão de caça de Roy Evidentemente, Tyler ponderou, Doreen havia desistido de ensinar aos homens como tratar uma mulher. Este sujeito não fazia idéia de como tratar ninguém.
Roy esfregou o seu queixo com a barba por fazer, estreitando pensativamente os olhos, Pensar, Tyler supôs, provavelmente devia ser doloroso para ele, sendo assim, devia ser evitado a não ser nas circunstâncias mais extremas.
— Você falou com Jim Huntinghorse — Roy especulou, de modo rabugento. Ele olhou para Davie, sua expressão tão venenosa que o próprio ambiente parecia ser poluído por ela. — O garoto mente. Eu jamais fiz nada que ele não merecesse.
Pelo canto do olho, Tyler avistou Doreen, espiando de trás de uma das máquinas caça-níqueis que rodeavam o restaurante. Por um lado, sentia pena dela. Por outro, estava furioso que ela não se posicionasse em defesa do filho. Provavelmente não devia ter dois tostões furados no bolso, mas, outrora, tivera personalidade, vivera pelas próprias regras, e não só sobrevivera. Ela prosperara. Tivera tatuagens, pelo amor de Deus, em uma época em que mulheres não faziam esse tipo de coisa. Viajara com gangues de motoqueiros e com bandas de rock. Ela o ensinara a usar os dedos e a língua, de tais maneiras que chegavam a ser quase conhecimento sagrado, e que lhe haviam servido muito bem desde então.
O que diabos acontecera com ela?
A mesma coisa que acontecera com a mãe dele, Tyler supôs, no instante seguinte. A vida simplesmente acabara com ela. Ela enfrentara reviravoltas demais, decepções demais.
Roy deve ter parecido para ela o último trem deixando a cidade.
Que perspectiva mais deprimente.
— Venha — Roy rugiu, gesticulando na direção de Davie.
Davie fez menção de se levantar. Depois, diante do olhar de Tyler, ficou onde estava.
— Ele não vai a lugar nenhum — Tyler afirmou.
— Eu deveria fazê-lo engolir os dentes — Roy retrucou. Não ficou claro se estava se dirigindo a Tyler ou a Davie.
— Pois é mais do que bem-vindo a tentar — Tyler retrucou, cordialmente. — Alguma vez brigou com um homem, Roy? Ou apenas com mulheres e crianças?
Roy parecia a ponto de explodir.
— Esta não é a última vez que nos encontraremos — disse.
— Não só é durão, mas também é original — Tyler observou. — O que virá em seguida? "Esta cidade não é grande o bastante para nós dois?"
Ante o comentário, Davie encolheu-se, como se estivesse esperando um safanão.
E isso fez Tyler ter vontade de arrancar fora a cabeça de Roy, ali mesmo no restaurante. Se o fizesse, acabaria passando a noite como hóspede do xerife, uma perspectiva que não lhe agradava, dada a sua última experiência, cinco anos antes, mas mesmo assim, a tentação foi grande.
Roy gruniu, sacudiu a cabeça uma vez, como um homem sendo incomodado por um enxame de moscas, depois, virou e se afastou marchando pesadamente.
— Ele vai pegá-lo, Tyler — Davie disse, pragmaticamente. — Também vai me pegar. Ele é assim.
— Eu sei muito bem como ele é — Tyler afirmou, observando Roy desaparecer.
Quando ele se foi, Doreen saiu de seu esconderijo. Ela parecia encabulada e tremendamente apavorada. Davie não tinha de ir para casa (Tyler entregaria pessoalmente o menino ao juizado de menores antes que isso acontecesse), mas ela tinha.
— Vá esperar no saguão dos empregados — disse para Davie, demonstrando uma ligeira semelhança com a antiga Doreen, a que vivia livre e fazia o que queria. — Roy não conseguirá pegá-lo lá.
Davie hesitou, assentiu, deixou a mesa e, em seguida, o restaurante.
Tyler fez um gesto para que Doreen se sentasse. Os dois poderiam ter querido um lugar mais discreto para ter a conversa seguinte, mas não ia ser assim, e, por Tyler, tudo bem.
Dorren deslisou pelo banco da mesa, encolhendo-se da mesma maneira que Davie o fizera.
Tyler sentou-se do outro lado da mesa, e inspirou profundamente.
— Suponho que as coisas não estão nada boas — disse, quando Doreen nada falou.
Ela assentiu.
— Muito pior do que isso.
— Ele é meu?
As palavras foram proferidas antes mesmo que Tyler tivesse a chance de pensar nelas. Não que pensar tivesse mudado alguma coisa, mas ele poderia ter sido mais diplomático.
Por alguns instantes, Doreen fingiu não entender. Tyler simplesmente ficou olhando fixo para ela.
— Não — enfim, ela disse. — Davie não é seu. Gostaria que fosse. Deus, como eu gostaria que ele fosse.
Tyler sentiu um misto de alívio e decepção, e ainda não estava convencido de que Doreen estava dizendo a verdade.
— Quantos anos tem Davie? — perguntou, baixinho.
— Treze — Doreen admitiu, após morder um pouco o lábio inferior e retorcer as mãos.
— As contas batem — Tyler disse.
Doreen deixou escapar uma risada triste, erguendo e abaixando os ombros curvados.
— É — concordou. — Para muitos caras, Ty. Não só para você. Davie é filho de um caminhoneiro que parou no Skivvie's uma noite de verão, chorando as mágoas, porque a esposa não o entendia. Eu o alegrei um pouco. E Davie é a cara dele.
— Tudo bem. Então, por que deixa que seu namorado quique Davie nas paredes?
Lágrimas encheram os olhos de Doreen.
— Passei a vida inteira lutando contra muitas coisas. Um dia, simplesmente me vi sem forças.
— Que pena para Davie — Tyler comentou, calmamente.
— Acha que eu não me odeio por isso? Por tudo isso? — Doreen empertigou-se um pouco, embora, infelizmente, não o suficiente. — jamais esperava terminar desse jeito. Eu poderia ter feito um aborto, o pai de Davie se ofereceu para pagar um, mas eu tinha essa idéia maluca de que, um dia, encontraria um bom homem. Eu, Davie e o príncipe, — Ela voltou a rir, — Que conto de fadas.
— Deixe-me levar Davie para casa comigo. Apenas por algum tempo. Até que consiga colocar as coisas em ordem.
Doreen o fitou com intensidade, claramente surpresa.
— Por quê? Por que faria isso?
— Porque já fui um menino, com um pai maluco — Tyler respondeu, tão surpreso com o que disse, quanto Doreen deve ter ficado de tê-lo escutado admiti-lo. Passara a vida inteira em estado de negação no tocante a Jake Creed, chegara a lhe compor canções, pelo amor de Deus. — O que está fazendo agora não está funcionando, Doreen. Está na hora de tentar algo diferente.
— Você não entende ― Doreen sussurrou, em um suspiro triste, — Davie não é moleza. Ele tem problemas, Tyler. E Roy.. Bem, você pôde ver como Roy é. Ele tentará emboscá-lo. Jamais se esquecerá da altercação que tiveram esta noite. Mesmo que tenha de esperar o resto da vida, ele vai achar um modo de ir à forra, e quando o fizer, não será nada bonito.
— Eu sei como lidar com Roy — Tyler afirmou. — A meu ver, a preocupação mais imediata é o que ele pode fazer com você ou com Davie.
Permita-me deixá-la em algum lugar, Doreen. Agora mesmo, esta noite. Existem abrigos, ou poderia ficar na casa de Cassie... O rosto de Doreen pareceu se transformar em pedra.
— Eu sei como são esses "abrigos," Minha mãe e eu vivíamos entrando e saindo deles quando eu era pequena. Mulheres de igreja nos fitando com ar de superioridade. Roupas de segunda mão. Era como estar na prisão, e só servia para deixar o meu pai mais furioso, quando ele nos achava. E ele sempre nos achava.
— Isso foi no passado, Doreen. Agora é diferente.
— Leve Davie para casa com você — Doreen disse, agora formal e ruborizada de tanta vergonha, fúria, frustração e sabe lá Deus o que mais. — Não demorará a querer devolvê-lo.
— Pode ser — Tyler concordou.
Contudo, estava se recordando de todas aquelas vezes em que Cassie enfrentara cara a cara Jake Creed e se recusara a permitir que ele arrastasse o filho caçula para casa pelos cabelos, O que teria acontecido com ele senão por Cassie e, de um certo modo, por Logan e Dylan?
Era chegada a hora de retribuir.
Havia um garoto em dificuldades, e ele não podia ignorar isso. Doreen olhou para o relógio. Um pedaço de sua tatuagem favorita apareceu no antebraço, uma fênix ressurgindo majestosamente das cinzas.
— Faça o que quiser — disse. — Banque o herói, Vai se arrepender, Tyler. Vai se arrepender. E este é o último aviso que receberá de mim.
Tyler pegou um guardanapo e gesticulou para que Doreen lhe passasse a caneta que usava para anotar os pedidos. Ele anotou o número do seu celular no guardanapo.
— Ligue se precisar de ajuda — disse.
Doreen fitou o número com desdém, mas, no final das contas, aceitou-o, enrolando o guardanapo e enfiando-o no bolso do avental
Tyler a observou afastar-se. Pagou o café. Atravessou o cassino na direção do saguão dos empregados. Ele fora colega de escola do guarda de segurança postado no corredor e andara sempre com Jim Huntinghorse quando este ainda estava administrando o local, de modo que ninguém se colocou em seu caminho.
Davie estava encolhido em uma poltrona do canto, sozinho no recinto, segurando o livro da biblioteca com ambas as mãos.
— Está na hora de irmos — Tyler disse.
— E se ele estiver lá fora — Davie perguntou. — E se Roy estiver lá fora?
— Eu jamais teria tanta sorte — Tyler respondeu, com um sorriso. Contudo, Roy não estava esperando no estacionamento. Davie ficou surpreso; Tyler não. Roy iria à forra, mas não quando houvesse a chance de acabar levando uma surra em um estacionamento público. Ele era do tipo que atacava pelas costas. Usaria uma chave de roda ou, talvez, até um revólver.
Coisa séria. Mas Tyler estava acostumado a vigiar a própria retaguarda. Na verdade, passara a vida inteira fazendo isso.
E, como um Creed, não tinha bom senso o suficiente para ter medo.
De modo que ele e Davie fizeram uma parada breve em uma Wal-Mart para comprar um saco de dormir e uma cama de armar, artigos de banho e uma muda de roupa para Davie.
— Não espera realmente que eu use isso, espera? — Davie protestou, assim que estavam de volta na Blazer de Kristy e seguindo para a casa de Cassie para pegar o cachorro. Estava segurando os jeans que Tyler escolhera para ele. — Definitivamente, não são transados.
— Andar transado é o menor dos seus problemas — Tyler salientou. — Você vai usá-los.
Kit Carson os recebeu na porta quando chegaram à casa de Cassie, provavelmente, aliviado por não ter sido largado ali por mais tempo. Não que Cassie não o teria tratado bem. Apesar de ter um jeito meio brusco, Cassie era uma alma bondosa, com lugar no seu coração para cães perdidos. E meninos perdidos.
— Agora anda acolhendo qualquer coisinha desgarrada que encontra pelo caminho? — ela perguntou, sob o cone de luz rodeado de insetos de sua varanda, observando Davie erguendo Kit até a traseira da Blazer emprestada.
Tyler sorriu.
— Apenas dando continuidade à tradição — disse.
Stillwater Springs era uma cidade pequena. Cassie, tendo morado a!i desde antes da Batalha de Littie Big Horn, tinha de conhecer Davie e sua mãe também. Talvez até se recordasse do verão que Tyler passara na cama de Doreen, no quartinho acima da Skivvies Tavern, aprendendo a ser um homem.
— Ele é seu? — ela indagou, comprovando a teoria de Tyler.
— Pode ser — Tyler respondeu. — A mãe nega, mas pode ter inúmeras razões para fazer isso.
— Como o quê?
— Como não querer que eu exigisse meus direitos sobre ele, quando Davie ainda era pequeno, e ela ainda podia controlá-lo — Tyler cogitou.
— Doreen sempre foi independente ao extremo. Talvez ainda reste um pouco disso nela, mesmo agora.
— Isto vai lhe complicar a vida — Cassie previu, com um ar resignado.
— Talvez minha vida tenha ficado simples demais.
— Falou como um verdadeiro Creed — Cassie retrucou, mas ela estava sorrindo, com os lábios, pelo menos. Seus olhos escuros estavam sérios. — As pessoas têm boa memória, Tyler, Todo mundo, inclusive Lily Ryder, vai se lembrar do que houve entre você e Doreen e vai somar dois mais dois.
Tyler suspirou, Não deixara transparecer para ninguém que Lily estava em seus pensamentos, mas Cassie o conhecia bem demais para se deixar enganar por mentiras de omissão.
— Ela está envolvida com alguém? Talvez tenha se casado novamente?— ele perguntou, com a voz rouca.
Não teria feito as mesmas perguntas a mais ninguém na face da terra, nem mesmo a Lily O orgulho não teria permitido. Mas Cassie, uma ameríndia de meia-idade com uma tenda no quintal, era como uma avó para ele.
— Não — Cassie disse. E pousou a mão no braço dele, um sinal de que estava prestes a dizer algo que Tyler não ia gostar de escutar. — O marido dela era piloto. Matou-se há cerca de dois anos.
Suicídio.
Tyler fechou os olhos, projetado de volta para aqueles terríveis dias, como se houvesse se deparado com um túnel do tempo. Poderia muito bem ser um garoto novamente, não um homem postado na varanda de Cassie, mas um menininho escondendo-se do outro lado da porta da cozinha de sua casa, escutando o xerife Floyd Book, o lendário predecessor de Jim Huntinghorse, dar a notícia para Jake.
Angie está morta. Eu sinto muito. Nós a encontramos no hotel Skylight, na antiga rodovia estadual Foi uma overdose, Jake...
Tyler escutara um grito, primitivo e lancinante, e pensara ter sido Jake.
Só se dera conta de que o grito vinha de sua própria garganta quando Logan e Dylan seguraram os seus braços, cada um de um lado, e o ajudaram a ficar de pé, apoiando-o entre os dois.
Cassie apertou-lhe o braço, trazendo-o de volta do abismo, o lugar onde as perguntas jamais cessavam.
E todas elas começavam com a mesma palavra.
Por quê?
— O que poderia ser tão ruim assim? — ele indagou. — Uma esposa como Lily? Uma filhinha como Tess. O que poderia levar um homem abrir mão de tudo isso?
— Mais uma vez, você está tentando buscar uma explicação — Cassie salientou, gentilmente. — E não há explicação, Tyler. As pessoas são frágeis. Elas podem quebrar. É tão simples e tão complicado, assim.
Não tente entender.
Quantas vezes escutara o mesmo conselho de tantas pessoas diferentes? De Dylan, certamente. De Logan, também. Até mesmo da falecida esposa, Shwana, quando ela tentara tirá-lo de alguma depressão. E não era a primeira vez que Cassie também o oferecera.
O problema era que não conseguia deixar de voltar a percorrer o mesmo terreno, procurando pistas. Analisando. O suicídio da mãe era a razão de tantas coisas que haviam acontecido e deixado de acontecer em sua vida. Às vezes, a necessidade de saber por que ela o fizera meio que o enlouquecia. Por que não fora capaz de agüentar, deixar Jake e começar a vida em algum outro lugar.
— Suponho que vá estar com Lily? — Cassie arriscou o palpite.
— Vamos jantar juntos, amanhã à noite — Tyler informou, preparando-se para mais conselhos.
Deixe para lá, Cassie dissera, após o rompimento naquele verão, quando quisera voltar para Lily, implorar para que ela o perdoasse por dormir com Doreen, que lhe desse outra chance.
Esqueça a menina, Jake aconselhara. Ela é mesmo boa demais para você.
Perdeu o juízo? Logan perguntou, após quicá-lo algumas vezes na parede do celeiro. Andando por aí com uma garçonete que tem o dobro da sua idade quando Lily é louca por você?
Às vezes, as vozes do passado costumavam mesmo aparecer assim do nada, fazendo com que Tyler tivesse a vontade de cobrir os ouvidos com as mãos. Não que teria adiantado de alguma coisa.
O que acontecera, acontecera.
Então, por que não conseguia deixar a mãe descansar em paz?
Por que não podia perdoá-la por ter desmoronado aquela última vez?
Por fim, ficou atordoado ao se dar conta.
Fora por isso que voltara para casa em Stillwater Springs, abandonando o circuito de rodeios, o trabalho de duble e as sessões de foto que pagavam muito bem, vendendo a enorme casa vazia em Los Angeles e trocando a Escalade por um calhambeque que sequer funcionava.
Ele voltara para encarar os antigos fantasmas, um por um, ou todos ao mesmo tempo, independente de como viessem. Ganhando ou perdendo, a batalha havia começado.
Será que ainda estaria de pé quando tudo terminasse?
Só havia um jeito de descobrir
E estava cansado de fugir.
Depois de servir um saudável café da manhã para o pai e a filha (toranja, torradas de pão integral e claras de ovos mexidas), Lily entrou sorrateiramente no escritório do pai para usar o telefone.
Ligaria para Tyler. Decidira fazer isto na noite anterior, enquanto rolava de um lado para o outro na cama. Avisaria que, no final das contas, não poderia sair para jantar com ele. Voltaria atrás, contaria uma mentira descarada se não houvesse outro jeito, diria qualquer coisa para escapar do encontro combinado precipitadamente.
Só que não tinha o número do telefone dele.
É claro que poderia consegui-lo com Kristy. Poderia ligar para ela ou simplesmente caminhar até a biblioteca e pedi-lo pessoalmente. Considerando que Tyler era, agora, o cunhado de Kristy, ela, com certeza, devia saber como entrar em contato com ele.
Seus olhos pousaram sobre o caderninho de endereços surrado do pai. Hal jamais aprovara Tyler Creed, contudo, agora, após pegar Ty na beira da estrada, no dia anterior, parecia que o homem era o novo melhor amigo do pai. Talvez o número dele estivesse ali, bem ao seu alcance.
Seria tão mais fácil se não tivesse que procurar Kristy em pessoa ou por telefone.
Lily pulara para a letra C. O caderninho estava repleto de anotações em pedaços de papel grudentos e números rabiscados uns sobre os outros, todos colados em ângulos estranhos e confusos, e Lily estava procurando o número de Ty quando o pai entrou.
— Quer alguma coisa? — ele perguntou, com um ligeiro sorriso. Lily engoliu em seco.
— O número de Tyler — ela respondeu.
Pronto, aí estava. O pai que pensasse o que quisesse a respeito disso.
— Não tenho — Hal informou, ainda observando, agora, mais atentamente. — A propósito, Tess e eu votamos. O café da manhã estava uma droga.
Lily fechou o caderninho gordo, colocou-o de lado e endireitou as costas.
— Suponho que teria preferido ovos com bacon? — perguntou, com um pouco de rispidez por ter sido flagrada examinando o caderninho de telefones dele e por ter tido de admitir que pretendia ligar para Tyler.
— Preferido não é bem a palavra — Hal disse, sorrindo. — Está mais para adorado. Por que quer ligar para Tyler... como se eu não soubesse?
Lily sentiu o rosto arder, Ele não sabia, Hal provavelmente achava que ela quisesse escutar a voz de Tyler, ou coisa parecida, como uma colegial apaixonada, Ou que estivesse a fim de algo.
— Ele me convidou para jantar — explicou. — E eu decidi não ir. Hal franziu a testa.
— Por quê?
Lily respondeu a pergunta com uma outra. Uma tática para ganhar tempo, é claro, e uma tática que não daria certo durante muito tempo, se é que daria.
— Não era você que vivia reclamando que os Creed não eram boa gente e que me envolver com eles apenas levaria a ruína certa?
— Lily, trata-se de um jantar, não de uma orgia.
Lily engoliu uma resposta instintiva. Estar frente a frente com Tyler Creed, mesmo em um local público, era o equivalente sexual de combustão espontânea. O homem provavelmente poderia fazê-la chegar ao orgasmo sem sequer tocá-la... E ela seria uma tola em se deixar levar por isso.
Ou uma tola em não deixar.
— Ora — disse, ainda enrolando —, mas como as coisas mudaram.
— Eu estava enganado sobre Tyler — Hal disse, pegando-a completamente de surpresa. Ele jamais fora de admitir seus erros, mas, por outro lado, para ser justa, ela também não, — Estava enganado sobre muitas coisas. Saia com ele, Lily. Use um vestido bonito e um pouco de perfume e aproveite a noite.
Aproveite a noite. Pessoas da geração de seu pai eram tão inocentes, tão ingênuas.
Mas, será que eram mesmo?
— E quanto a Tess? — ela perguntou.
— Ela ficará bem aqui comigo. É uma menina inteligente. Se eu sofrer falência cardíaca, ela ligará para a emergência.
— O que é falência cardíaca? — Tess perguntou, aparecendo no vão da porta do escritório. Estava usando caríssimos shorts rosa, uma blusa florida e sandálias de dedo, tudo presentes adquiridos na sua última visita a Eloise, em Nantucket, Um pequeno vinco se desenhou no espaço entre as sobrancelhas da menina, — Alguém vai deixar o vovô sem dinheiro?
Meio contra a própria vontade, Lily sorriu.
— Ninguém vai deixar o vovô sem dinheiro — disse, para tranqüilizar a menina, era difícil lembrar como as crianças podiam ser literais. — E, a propósito, você está muito bonita hoje. Tem planos?
— Tem uma criança brincando no quintal do vizinho — Tess respondeu, colocando de lado a questão de apuros financeiros e de intervenção médica de emergência, pelo menos, por hora. — Acho que é um menino, mas vou me apresentar de qualquer forma.
— Tem um casal simpático morando ali, agora — Hal informou, diante do olhar preocupado de Lily. Em Chicago, ela não conhecia nenhum dos vizinhos, Tess também não. — Eles compraram a casa depois que os Henderson se aposentaram e se mudaram para a Flórida. — Ele sorriu para a neta. — A criança em questão é uma menina, e seu nome é Eleanor — acrescentou. — Tem sete anos de idade e está visitando os tios durante o verão.
— Ela é legal? — Tess perguntou, com uma expressão séria.
— Bem — Hal respondeu, com uma expressão igualmente séria —, ela nunca atirou nada na minha janela, nem ateou fogo nos arbustos, nem esvaziou os meus pneus. Tirando isso, não há muito que eu possa lhe dizer. Acho que você vai ter que ir até lá descobrir por conta própria.
— Acho que vou mesmo — Tess disse, com um daqueles súbitos sorrisos estonteantes dela. Com um pouco de tristeza, Lily se deu conta de que, desde antes da morte de Burke, ela não via a filha sorrir daquela maneira. — Será que posso ter um pouco de dinheiro para o caminhão de sorvete? Escutei a sineta há alguns minutos... Acho que deve estar a umas três quadras daqui, vindo nesta direção.
— Não — Lily disse.
— Pode — Hal respondeu, exatamente no mesmo instante, colocando a mão no bolso para retirar a fortuna requisitada. Seus olhos, menos cansados do que no dia anterior, se demoraram no rosto de Lily, enquanto entregava algumas notas para Tess. — É verão — disse, baixinho, para a filha. — Tess tem seis anos de idade, está linda de rosa e pretende fazer uma nova amiguinha. Dê uma chance à menina, Lily.
Um discurso sobre comida processada e conservantes e higiene duvidosa nos caminhões de sorvete e nas fábricas de embalagem veio à garganta de Lily, mas ela se conteve. O pai tinha razão. Decerto, um cone mergulhado em chocolate não iria comprometer a saúde e o bem-estar da menina.
— Tudo bem — Lily concordou com um sorriso.
Tess e Hal pareceram tão surpresos com a aceitação dela que Lily se perguntou o que eles deviam achar que ela era. Obviamente, alguma fanática por comida natural.
— Divirta-se — disse para Tess. — E não vá além do quintal do vizinho ou da calçada em frente à casa.
Tess sorriu, agradeceu ao avô pelo dinheiro e saiu correndo.
— Vou precisar de um vestido — Lily disse, pensando em voz alta. Visto que voltara para Montana para cuidar do pai doente, ela não trouxera consigo nenhuma roupa especial, apenas jeans, camisetas, shorts e algumas camisolas.
Ela enrubesceu, dando-se conta de como deve ter dado a impressão de estar ansiosa. De estar excitada. Cinderela indo ao baile.
— Você sempre ficou bem de vermelho — Hal disse, satisfeito. — Tem uma pequena butique no centro da cidade, que costuma atender mais turistas, mas acho que poderá encontrar algo bonito lá.
O bom senso natural de Lily retomou. Pelo menos, parte dele.
— Não vou deixá-lo sozinha. Acabou de sair do hospital.
— Não corro o risco de ter um treco, Lily — Hal afirmou. — Se quer saber, na verdade, um pouco de solidão até viria a calhar. Estou acostumado a morar sozinho, — Ele interrompeu-se, com uma expressão comicamente inspirada. — E pense nas possibilidades, Você poderá comprar algo horrível para o almoço. Quem sabe, vagem ou algo feito de soja congelada.
Lily riu, E foi uma sensação nova e boa, uma habilidade esquecida, recém-redescoberta.
— Não me demoro — avisou. — De modo que é melhor você não ver nenhum paciente de quatro patas e nem procurar salsichas de cachorro-quente ou waffles de torradeira, no congelador, enquanto eu estiver fora. Até onde você sabe, um daqueles ímãs na geladeira pode ser, na verdade, uma câmera oculta.
— Não me surpreenderia se você fizesse algo do gênero — Hal brincou. Obedecendo a um impulso, Lily avançou até o pai e lhe beijou a face sulcada.
Cinco minutos mais tarde, após aplicar uma camada de brilho labial e escovar o cabelo, Lily estava em seu carro alugado, seguindo para a rua principal.
A butique indicada por Hal era pequena e deplorável, pelos padrões de Chicago, mas ela conseguiu encontrar um vestido de verão vermelho com bolinhas brancas do seu tamanho, experimentou-o e gostou do que viu no espelho do provador. Ela comprou o vestido, uma suéter de renda fina branca e um par de sandálias de tira para completar o figurino.
A próxima parada foi no setor alimentício do Wal-Mart, visto que o mercadinho local havia ido à falência anos antes, e não conseguiu encontrar tofu. Pretendera provar para Hal que tofu podia ser delicioso, mas, evidentemente, o mercado para o alimento era muito restrito em Stillwater Springs, Montana.
De modo que, em vez disso, selecionou ingredientes para uma salada de frutos do mar, todos frescos e vendidos como sendo orgânicos, acrescentou um pacote de peitos de frango para o jantar de Tess e Hal e estava virando uma curva, determinada a chegar na fila dos caixas antes das três mulheres com fartas compras, quando quase chocou o seu carrinho com O de Tyler.
Desde quando ele fazia compras no Wal-Mart no meio da manhã?
Droga, mesmo a esta hora, ele estava lindo. Estava usando uma camiseta branca e jeans surradas, e um cacho de seu cabelo negro pendia sobre a testa, no mais puro estilo bad-boy.
Seu olhar percorreu lentamente Lily, cujos dedos se curvaram no interior dos tênis. Ela até se flagrou desejando ter tido a presença de espírito de ter usado algo mais sexy do que jeans e uma blusa.
A realidade a atingiu como um banho de água fria.
Em questão de poucas horas, estaria sozinha com aquele homem.
Correndo o sério risco de entrar em combustão espontânea, se é que isso não ocorreria ali mesmo no Wal-Mart, diante de Deus e todo mundo.
Um ardor começou a subi pelo pescoço de Lily, pulsando nas suas faces.
Ela tentara tanto fazer as coisas darem certo com Burke, especialmente na cama. Contudo, quantas vezes chegara ao clímax imaginando ser Tyler Credd, e não o marido, que a estivesse acariciando, sugando-lhe os seios, arremetendo para dentro dela? Será que, no auge do prazer, ela gritara o nome dele, em vez do de Burke?
Provavelmente.
O pensamento a encheu de vergonha... e de um tipo excitante, concentrado, de ardor
Jamais fizera amor com Tyler, embora, com certeza, o que não tinham faltado fossem carícias ardentes enquanto estavam namorando. Até onde ela sabia, ele podia ser um fracasso na cama. E, de qualquer modo, por que sequer estava debatendo tal questão?
— Como está o seu pai? — Tyler perguntou.
Lily mordeu o lábio inferior. Não era algo tão difícil assim de responder Deveria ser fácil, assim que conseguisse resistir ao clímax que já se armava no seu íntimo.
— Ele está... bem. Teimoso. Mas acho que ficará bem.
— ótimo — Tyler disse.
Lily olhou para o que estava no carrinho dele. Ferramentas elétricas. Lençóis e cobertores. Cereais açucarados e uma enorme embalagem de leite integral. Uma TV de tela pequena.
Uma combinação e tanto.
Ele sorriu, um ardente sorriso lento, observando-a. Será que a estava imaginando nua?
Não, era a imaginação dela que estava desgovernada. Controle-se, ordenou-se.
Ele tocou na mão dela, onde ela estava segurando com força a barra do carrinho. Foi apenas um simples, inocente, roçar das pontas dos dedos, nada mais.
E Lily chegou ao apogeu.
Sorriu determinadamente, enquanto suava. Aquele pequeno músculo especial no seu íntimo se contraiu com violência, depois se contraiu mais uma vez, Ela quase não conseguiu conter o gemido alto ante o prazer inesperado e totalmente inapropriado.
Ela acabam de chegar ao clímax no interior de um Wal-Mart, pelo amor de Deus. Totalmente vestida. Â plena luz do dia.
Tyler não sabia, sabia? Ele não tinha como adivinhar.
— O ar-condicionado não deve estar funcionando direito — Tyler disse, mas havia uma expressão no seu olhar que dizia que ele sabia muito bem o que acabara de acontecer, ou, pelo menos, que suspeitava. Que provocara a coisa toda de propósito.
Mas, isso era impossível, é claro. Até mesmo para um Creed. Não era?
— Sobre hoje à noite — ela disse, com dificuldade, sentindo os tremores começando a aliviar. Ainda estava ofegante demais. — Eu realmente não devia...
— Não tem como voltar atrás agora — Tyler interrompeu-a. ― Seu pai vai ficar bem, e Tess também. É apenas um jantar, Lily.
É apenas um jantar. Onde foi que escutou isso antes?
E se Tyler era capaz de levá-la ao clímax com um simples olhar e um toque da mão, o que aconteceria quando ficasse sozinho com ela? O que aconteceria no restaurante?
Lily não queria descobrir. Muito.
De modo desesperado, começou a inventar desculpas para si mesma. Simplesmente não costumava ter orgasmos aleatórios em lugares públicos. Não, era apenas por que passara tanto tempo sem sexo, só isso, é permitira que os pensamentos seguissem pelo caminho errado.
Não, provavelmente jamais voltaria a acontecer.
Maldição.
Justamente quando Lily estava prestes a avançar para a fila do caixa mais próximo, dando um fim à conversa sobre o encontro daquela noite, um menino que mal entrara na adolescência com a tatuagem de uma aranha no pescoço e vários piercings apareceu dois corredores a frente.
— Encontrei o martelo ― disse para Tyler, erguendo a ferramenta como prova.
Lily sentiu um estranho tremor de medo na boca do estômago, algo que nada tinha a ver com os doces tremores de puro êxtase feminino a que acabara de sobreviver.
— Lily — Tyler disse, com tranqüilidade, mas com os olhos atentos —, este é Davie McCullough. Davie, Lily Ryder.
— Lily Kenyon — Lily tratou de corrigir.
Qualquer coisa para estabelecer alguma distância entre ela e a miragem de ardor que era Tyler, Adiantava muito fechar a porta do celeiro após o cavalo ter fugido.
— Oi — Davie cumprimentou.
Seu jeans e a camiseta listrada, obviamente novos, faziam um estranho contraste com os piercings e a tatuagem. Lily sorriu.
— Olá — respondeu.
— Eu a vejo às seis — Tyler disse.
— Ela é o encontro empolgante? — Davie perguntou.
Tyler revirou os olhos, mas se ficou constrangido pelo comentário de Davie, não deu sinais disso. Afinal de contas, ele era o lendário Tyler Creed. Provavelmente fazia mulheres chegarem ao orgasmo em lojas de departamentos o tempo todo, Não era nada demais.
— Ela é o encontro empolgante — Tyler confirmou. Lily voltou a corar e, em seguida, simplesmente foi embora, sabendo que qualquer coisa que dissesse seria a coisa errada e provavelmente a colocaria em uma situação pior do que já estava.
E a risada baixinha e maliciosa de Tyler a acompanhou durante todo o caminho.
— Aquilo não foi nada legal — Tyler disse para Davie, um instante após Lily fugir correndo.
Davie sorriu, sem dar a impressão de estar arrependido.
— Ah, bem — disse. — Ela é bonita. E você me avisou que eu talvez tivesse de dormir na casa do seu irmão caso as coisas corressem como você esperava.
Tyler viu Lily escolher a fila mais comprida e sabia que ela o havia feito por ser a fila mais longe de onde ele estava. Ela estava linda naqueles seus jeans de cidade grande, e, na opinião de Tyler, foi uma boa coisa ter consigo um carrinho cheio de compras atrás do qual pudesse ficar.
Vira Lily chegar ao orgasmo, soubera pelo rubor de suas faces e pela expressão atordoada de seu olhar que o truque mental ensinado por Doreen havia funcionado, e ficara duro como pedra no instante em que ela atingiu o apogeu.
Isso, junto com o atual estado de sua anatomia, encaixava-se na seção de Coisas que Davie Não Precisava Saber, de modo que teve o cuidado de ficar atrás do carrinho.
— Não banque o espertinho — disse para o menino.
— Eu tenho problemas — Davie retrucou, presunçosamente. — Sou um Adolescente Problemático. Nunca se sabe o que eu posso dizer. O menino admirou Lily de longe, enquanto ela colocava as verduras para a salada e uma embalagem do que parecia ser frango sobre a bancada móvel do caixa. Ele sacudiu a cabeça. — Faz um homem desejar que fosse vinte anos mais velho.
Tyler teve de rir, embora parte dele tivesse vontade de agarrar Davie pela gola e arrastá-lo para algum lugar onde não pudesse olhar para Lily.
O que era uma loucura típica dos Creed. Apesar de querer falar grosso, Davie não passava de um menino.
— Pode colocar os olhos de volta na cabeça, menino desenho animado. Ela já tem dono.
Por sorte, Davie deixou o assunto para lá. Talvez porque acabara de vencer um round, na segunda visita deles ao Wal-Mart em menos de vinte e quatro horas, ao convencer Tyler a lhe comprar uma TV.
Tyler, por outro lado, não parecia ser capaz de esquecer o encontro com Lily. Sem dúvida nenhuma, Lily estava no ponto. Se ao menos conseguisse deixá-la nua, poderia desatar todos aqueles nós em seu íntimo. E, quando ela se soltasse de verdade, deixasse-se ir além do clímax improvisado que acabara de ter e experimentasse o artigo genuíno, o universo tremeria nas bases.
Não apenas para ela, mas para ele também.
Alto lá, caubói, disse para si mesmo, silenciosamente. Pensamentos como esses não contribuiriam para fazer o mastro ameaçando arrebentar a parte da frente do seu jeans amolecer, e ele não podia esconder a ereção atrás do carrinho de compara a vida inteira.
Precisava colocar as coisas em perspectiva.
Perspectiva, diabos. Já estava planejando a ligação que tencionava fazer para Dylan, assim que Davie não estivesse por perto. Será que se importa de ser babá para um garoto de treze anos de idade?
Já estava imaginando Lily gemendo em sua cama, arqueando as costas sob sua mão e sua boca, já imaginando-a mais tarde, após os dois terem se recuperado, deliciosamente nua, boiando nas águas escuras e refrescantes de Hidden Lake, pouco além da extremidade de seu antigo deque de natação.
Nadar ao natural com Lily Kenyon, como ela fizera questão de lhe lembrar.
Ah, sim.
Bem-vindo ao lar, Tyler Creed. Bem-vindo ao lar.
— Como estou? — Lily perguntou, nervosamente, às cinco e trinta daquela noite, experimentando o vestido de verão vermelho na cozinha da casa do pai.
Tess e a nova amiguinha, Eleanor, estavam sentadas à mesa, beliscando os peitos de frango que ela cozinhara mais cedo, para a janta das duas e de Hal.
Ambas as meninas pareciam ter esquecido como falar, como se jamais houvessem visto uma mulher usando um vestido antes, mas Hal encontrou as palavras.
— É um belo vestido — disse. Será que ela notou mesmo um brilho em seu olhar? — fico feliz que tenha aceitado o meu conselho e escolhido o vermelho.
— É apenas um jantar — Lily retrucou.
Não era isso que as pessoas vinham lhe dizendo o dia todo? Ela não estava fugindo para se casar com Tyler. Provavelmente, nem mesmo se beijariam, visto que eram praticamente desconhecidos um para o outro. Hal riu, sacudindo a cabeça.
Será que dissera algo engraçado? Se dissera, o que teria sido?
— Minha mãe tem um nome para sapatos como esse Eleanor disse, com ar de sabedoria.
Eleanor, assim como Tess, era uma adulta em miniatura, disfarçada de criança. Na verdade, o nome antiquado era perfeito para ela.
— Parecem saídos de Sex and the City — Tess comentou.
— Tess Kenyon — Lily censurou. — E o que você sabe sobre Sex and the City?
Não sendo burra, Tess tratou de apaziguar a mãe.
— Só o que as meninas mais velhas às vezes comentam na escola — ela disse, com doçura. — E que todas as mulheres no programa conseguem correr usando saltos realmente altos.
— Essa foi a gota d'agua — Lily afirmou. — Vou bloquear a TV a cabo. — Eu não tenho TV a cabo — Hal se intrometeu. — Sendo assim, não há com o que se preocupar.
— Você está linda, mamãe — Tess disse, com tamanha sinceridade e admiração que fez Lily esquecer-se de todas as coisas que a filha podia estar assistindo na TV quando ela não estava por perto. — Parece uma princesa.
— Uma princesa com sapatos sexy — Eleonor acrescentou.
No decorrer da longa e preguiçosa tarde na varanda da frente, Lily descobrira que os pais de Eleanor estavam passando por um divórcio complicado. Era importante mostrar tolerância e compreensão, mas havia limites.
— Eleanor pode dormir aqui? ― Tess pediu. — A tia dela concordou.
— Se o seu avô não se incomodar, pode. — Tendo dito isso, Lily virou-se para o pai. — Nada de TV — acrescentou, em tom sério. — A não ser que seja Disney ou, de algum modo, educativo.
Hal suspirou e ergueu ambas as mãos com as palmas viradas para fora, em um gesto de rendição.
— Eu estava planejando uma partida de monopólio para três. Isso é chato o suficiente para você?
Lily lançou-lhe um olhar fulminante.
— Vai dirigindo ou Tyler virá buscá-la? — Tess perguntou a Lily Pelo seu tom de voz, poderia se supor que ela tinha quarenta anos de
idade, e não seis.
As faces de Lily voltara a arder. Ela era uma tola por sequer ir a este jantar, quanto mais por não levar o seu carro alugado, mas como estava meio perturbada desde seu primeiro encontro com Tyler, anteontem, não lhe ocorrera sugerir que se encontrassem no restaurante.
Será que estava tentando ser seduzida?
Será que queria que Tyler se aproveitasse dela, e para o inferno com as conseqüências?
Era uma possibilidade que ela não ousava examinar muito de perto.
— Tyler vem me pegar — por fim, respondeu.
Eleanor e Tess cumprimentaram uma a outra batendo as palmas das mãos no ar.
E, antes que Lily pudesse responder a isso, a campainha tocou, O coração de Lily veio à garganta.
Ainda havia tempo de voltar atrás. Podia fingir estar passando mal, talvez até convencer Hal a mentir, por ela, embora não houvesse muita chance de isso acontecer.
Contudo que tipo de exemplo estaria dando a Tess?
Lily ajeitou o cabelo, preso em um coque folgado no topo da cabeça. Hal sorriu, interpretando corretamente o gesto, e Tess e Eleanor correram até a porta da frente, rindo quando quase entalaram no primeiro vão de porta pelo qual passaram.
Lily achou que ia vomitar.
Talvez, não estivesse mentindo se dissesse que estava passando mal, O problema era que ninguém acreditaria nela. Nem o pai, nem as menininhas que tanto sabiam a respeito de sapatos sexy e, com certeza, nem Tyler.
Teria simplesmente de levar a coisa toda adiante, apenas isso.
Torcer para que pudesse passar uma tarde agradável com um velho amigo, sem deixar que a sua faceta levada viesse à tona e escalasse o corpo de Tyler como um macaco subindo o tronco de uma palmeira.
Lily ainda estava lidando com os aspectos freudianos dessa imagem, quando avistou Tyler de pé no hall de entrada da casa do pai, usando jeans e uma camisa branca recém-passada, segurando um chapéu de caubói preto em uma das mãos e com um ar tímido.
Sexo ilícito tinha lá as suas vantagens, decidiu.
O mesmo poderia ser dito quanto a acabar logo com isso, quanto a tirar do caminho o problema, de modo que pudesse voltar a pensar direito. Recuperar o equilíbrio, colocar as coisas em perspectiva.
Após assentir para Hal e para as meninas, Tyler pegou de suas mãos a suéter fina e a colocou sobre os ombros de Lily Ao estender uma das mãos na direção da maçaneta, ele inclinou-se para lhe sussurrar ao ouvido.
— É inevitável — disse. — Que tal pularmos o jantar e irmos direto ao que interessa?
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