
Turn of Fate
Capítulo 2
Anos antes:
Acordo desorientada com um barulho insuportável em meu ouvido. Estava tendo um sonho bom — algo que há muito tempo não era possível —, porém, agora só consigo escutar o som estridente ao meu lado. Tateio minha escrivaninha, procurando por meus óculos e, enfim, encontro-os. Pisco algumas vezes, e meu guarda-roupas velho aparece aos poucos junto com a claridade que vem do lado de fora do quarto. O som, que reverbera a todo vapor, sai do meu pequeno despertador alertando-me que já é hora de levantar.
Ouço batidas na porta, e a figura de minha mãe aparece no batente encarando-me com a expressão igual à do Jason Voorhees — protagonista do filme Sexta Feira 13 — quando ele está prestes a encurralar mais uma de suas vítimas.
Sim, sou a nerd que ama filmes antigos e de super-heróis.
Minha mãe franze a testa e cruza os braços, prestes a me xingar a julgar pela sua careta.
— Aly, pelo amor de Deus, desligue essa porcaria antes que seu irmão acorde! Mike chegou tarde, ontem do trabalho, e está tentando dormir também. — Dona Jenna fala sonolenta.
Mike é meu padrasto. Ele e minha mãe são casados desde quando eu era bem novinha, meu pai foi embora quando minha mãe se descobriu grávida, ou seja, nem o conheci. Jullian é meu irmão de dois anos, o garoto é uma gracinha, mas quando dana a chorar, sai de baixo, porque ninguém aguenta.
Assinto, ainda atordoada, mas consigo enfim desligar o bendito aparelho.
— Vai se arrumar e depois desce com suas malas. Podemos tomar um último café da manhã juntas, antes de você ir — diz animada fazendo-me dar um sorriso contido.
Se ela soubesse a minha animação...
Hoje, estou indo embora para Cambridge, estudar na conceituada Universidade de Tecnologia de Massachusetts. Pretendo me formar em Gestão de Negócios. Moramos em Worcester, então, em menos de uma hora, devo estar chegando lá — sã e salva —, de carro.
Minha mãe tem me preparado há algum tempo — desde que me entendo por gente — para gerenciar os negócios da família. Temos uma rede de supermercados que ela pretende expandir ainda mais. E isso se estende a mim e ao Jullian.
Com a animação a mil — para não dizer ao contrário —, direciono-me até o banheiro. Tomo um banho morno, colocando posteriormente uma saia comprida verde musgo e uma blusa branca de mangas curtas que ganhei no último natal. Por cima, visto apenas um cardigã liso para me esquentar.
Arrasto o braço direito no espelho embaçado e observo o meu reflexo abatido. Recoloco os meus óculos e prendo os meus cabelos loiros num rabo de cavalo alto. Encaro a pia de mármore clara, observando o pequeno potinho com lentes de contatos novos que minha avó trouxe no início desse ano. Lembro-me da última vez que usei um par e me recordo do passado, nada alegre, que vivenciei na minha antiga escola. Um fio de lágrima desce pelo meu rosto ao lembrar-me dele falando comigo pela primeira vez:
“Seus olhos... — Sua cabeça tombou para o lado direito, de forma graciosa, e o sorriso que já havia reparado diversas vezes mostrou-se, mais uma vez, ávido. — são... lindos! — Os lábios rosados eram o que mais chamavam a minha atenção, mesmo que estivéssemos no meio do corredor da escola, vasto de alunos com testosteronas acima da média.
Sacudo a cabeça para ambos os lados, tentando fazer inutilmente as imagens sumirem da minha mente. Pego o potinho com as lentes de contato e coloco-os no fundo da minha bolsa de mão.
Na cozinha, sento-me em torno da mesa, onde compartilhamos a maioria de nossas refeições, enquanto minha mãe prepara o nosso café da manhã. Ela me olha sorridente e faço o possível para transmitir-lhe o mesmo sentimento. Dona Jenna não sabe o que aconteceu comigo na escola e não faz ideia do medo que estou sentindo agora. Tomamos o nosso café da manhã em silêncio e, ao sairmos de casa, sinto-a me abraçar fortemente.
— Se cuida, minha menina, nos vemos no feriado de ação de graças. Se você não vier, eu vou lá te buscar pelos cabelos. — Ela sorri, e noto seus olhos marejados.
— Cuida de todos, mãe! Fala para o Ju que o amo e que vou sentir muita falta dele. Dele e de vocês, é claro! Manda um grande beijo para o Mike também.
— Você não vai mesmo falar com a Sandy? — Minha mãe refere-se a minha ex melhor amiga. Faço que não com a cabeça, e ela sorri tristemente.
Sandy e eu éramos como unha e carne, até eu descobrir tudo o que armou para mim na escola. Mas eu ainda não estou preparada para compartilhar essa parte da minha vida com vocês, porém, o que posso dizer, com toda certeza, é para não confiar nas pessoas; elas podem ser traiçoeiras e maldosas, quando querem, e te apunhalarem pelas costas.
Respiro fundo e encaminho-me devagar até o carro. Assim que entro, dou um último aceno à minha mãe e, ao virar-me para frente, meu olhar fixa-se na casa que se emparelha com a nossa. Enrugo a testa ao observar as cortinas se mexerem, aleatoriamente, de uma janela que passei a conhecer muito bem.
Começo a suar frio, sentindo minhas mãos tremerem. Observo o molho de chaves balançarem com força entre meus dedos e meu coração palpitar a cada maldito segundo que não consigo posicioná-las no buraco da ignição. Olho para dona Jenna, mais uma vez, e assisto-a abraçar a si própria dando-me mais um “tchauzinho” com as mãos quando, enfim, consigo encaixar a chave.
Entro em meu carro e dou partida, mas algo me chama a atenção: a porta da casa vizinha ser aberta bruscamente.
Não quero vê-lo! Não quero vê-lo! Não quero vê-lo!
Minha visão fica turva devido às lágrimas que preenchem meus olhos. À medida que o carro começa a andar, escuto-o chamar o meu nome.
— Alyssa, não! — Através do retrovisor, vejo-o correr em minha direção: Christopher Carter, o cara que destroçou meu coração em mil pedaços. Ele para aonde está, ajoelha-se no meio da rua e leva as mãos à cabeça. — Me perdoa...
Porém, é tarde demais, saio rumo a minha nova vida!
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