
Traição, Queda e A Ascensão
Capítulo 3
O barulho. Foi o barulho que me trouxe de volta.
Gritos abafados, o som de um copo quebrando no chão.
Abri os olhos.
Não era o teto branco e estéril do hospital. Era o teto elegante da sala de reuniões da empresa. A luz era forte, artificial.
Meu coração disparou. Meu corpo estava inteiro, sem dor, sem cicatrizes. Eu usava meu terno cinza, o mesmo que vestia no dia da apresentação.
Olhei para minhas mãos. Elas estavam limpas, sem as marcas da agressão, sem os hematomas da queda.
Isso não era possível.
"Sofia! Você está me ouvindo?"
A voz era do Dr. Roberto Silva, o diretor da empresa. Ele estava ao meu lado, o rosto pálido de preocupação.
"O que está acontecendo com esse homem? Ele enlouqueceu?", ele perguntou, olhando para o outro lado da grande mesa de reuniões.
Lá estava ele. Mário Costa. O cliente. O homem que me apunhalou.
Ele estava de pé, o rosto vermelho de raiva, agitando os braços e gritando com minha equipe.
"Eu disse que não gostei! Esse projeto é um lixo! Vocês acham que eu sou idiota?"
Meu estagiário, Lucas Oliveira, um jovem leal e corajoso, tentava acalmá-lo.
"Senhor Costa, por favor, vamos conversar..."
"Cala a boca, garoto!", Mário gritou, empurrando Lucas para o lado.
Era a mesma cena. Exatamente a mesma cena da minha vida passada.
Eu estava de volta.
De alguma forma, eu tinha voltado ao momento em que tudo começou a dar errado.
Dr. Roberto se virou para mim, a frustração evidente em sua voz.
"Sofia, onde está o seu marido? Ricardo não deveria estar aqui para te apoiar? Ele é o chef famoso, a presença dele acalmaria qualquer cliente!"
Na minha vida passada, eu inventei uma desculpa. Disse que ele teve uma emergência no restaurante.
Mas esta era a minha segunda chance.
Respirei fundo, a adrenalina me dando uma clareza que eu não tive da primeira vez.
"Ele não pôde vir, Dr. Roberto", eu disse, minha voz calma e firme.
Os olhos de todos na sala se voltaram para mim. Até Mário Costa parou de gritar por um segundo.
Eu continuei, falando alto o suficiente para que todos ouvissem.
"O cachorrinho da aprendiz dele, Clara Lima, se perdeu. Ricardo está muito preocupado, então foi ajudá-la a procurar."
Um silêncio constrangedor tomou conta da sala.
Pude ver as engrenagens girando na cabeça das pessoas. Um chef famoso, marido de uma arquiteta de topo, faltando a uma apresentação crucial para... procurar o cachorro de sua jovem aprendiz?
Vi a troca de olhares entre minhas colegas. Vi a sobrancelha de Dr. Roberto se arquear em desaprovação. A semente da dúvida estava plantada.
Mário Costa, no entanto, não se importava com fofocas. Ele queria violência.
"Chega de conversa!", ele berrou. Ele pegou uma maquete cara do projeto e a atirou contra a parede, onde ela se espatifou em mil pedaços.
Seus dois seguranças, dois homens grandes e com cara de poucos amigos, se moveram para bloquear as portas.
"Ninguém sai daqui até que a arquiteta me dê um projeto que preste!", Mário declarou, apontando um dedo grosso para mim. "E para garantir que vocês vão cooperar, todos os celulares aqui."
Seus homens começaram a recolher os celulares de todos, jogando-os em uma sacola.
Estávamos presos. Exatamente como da última vez.
Mas desta vez, algo estava diferente. Eu estava diferente.
Enquanto um dos seguranças pegava o celular de Lucas, ouvi duas secretárias sussurrando perto da máquina de café.
"Esse Mário Costa... ele não é só um cliente rico. Ouvi dizer que ele tem conexões perigosas. Que ele não é um homem com quem se brinca."
"Conexões? Que tipo de conexões?", perguntou a outra.
"Do tipo que faz as pessoas desaparecerem."
Na minha primeira vida, eu estava apavorada demais para prestar atenção. Agora, eu ouvia tudo. Cada palavra era uma peça do quebra-cabeça.
Eu sabia o que viria a seguir. Mário me atacaria. E Ricardo não atenderia ao telefone.
Mas desta vez, eu não seria uma vítima passiva. Desta vez, eu lutaria. E eu venceria.
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