
Traição em Dose Dupla
Capítulo 3
A noite foi um borrão de insônia e pensamentos torturantes. Miguel não dormiu. Ele ficou sentado na poltrona da sala, ouvindo a respiração dos bebês no berço e o som suave de Ana dormindo no quarto, como se nada tivesse acontecido. Cada som era uma tortura. A casa, que antes era seu refúgio, agora parecia uma prisão. A mulher que ele amava era uma estranha, uma mentirosa.
Quando os primeiros raios de sol entraram pela janela, uma clareza fria e dura se instalou na mente de Miguel. Ele não podia continuar assim. Não podia viver naquela casa, não podia olhar para o rosto de Ana, não podia aceitar aquela situação humilhante. A decisão se formou, sólida e inabalável: ele ia pedir o divórcio. Não haveria discussão, não haveria terapia de casal. Havia uma linha que tinha sido cruzada, e não havia como voltar.
Levantou-se e foi para o escritório. Sentou-se em sua cadeira, a mesma onde passara tantas noites trabalhando em projetos, ganhando o dinheiro que Ana agora desviava para seu amante. Ele olhou para as fotos na sua mesa. Uma foto do casamento deles, ambos sorrindo, parecendo felizes. Parecia uma vida atrás. Ele se lembrou de como era permissivo, como sempre cedia aos caprichos dela, pensando que isso era amor. Ele pagou pelas roupas caras dela, pelas viagens com as "amigas", pelas "emergências" constantes da mãe dela. Ele era o provedor, o porto seguro. E ela o via apenas como um recurso.
Ele pensou em como ele sempre a colocou em primeiro lugar. O sonho dele de abrir uma pequena consultoria de arquitetura foi adiado para que ela pudesse fazer seu MBA no exterior. A promoção que ele recusou porque exigiria que se mudassem para outra cidade, e ela não queria deixar a família. Ele sacrificou partes de si mesmo, pedaço por pedaço, em nome do casamento. E para quê? Para ser traído da forma mais cruel possível. A raiva deu lugar a um profundo sentimento de auto-crítica. Como ele pôde ser tão cego?
Com as mãos firmes, ele pegou o telefone e ligou para seu melhor amigo, João.
"João? Sou eu, Miguel. Preciso de um favor. Você ainda tem o contato daquele advogado de divórcio que seu primo usou?"
Houve um silêncio do outro lado da linha. João era seu amigo desde a faculdade, o padrinho de seu casamento.
"Miguel? O que aconteceu? Sua voz está estranha."
"Ana voltou," Miguel disse, a voz vazia de emoção. "E ela não voltou sozinha."
Ele contou a João a história toda, de forma sucinta e direta. A viagem de negócios, os gêmeos, Pedro, o dinheiro. Cada palavra parecia deixar um gosto amargo em sua boca. João ouviu em silêncio, soltando apenas um palavrão baixo quando Miguel mencionou a transferência bancária.
"Eu te envio o contato agora mesmo. Miguel... eu sinto muito. Se precisar de qualquer coisa, um lugar para ficar, qualquer coisa, me ligue. Estou com você."
O apoio incondicional de seu amigo foi a primeira coisa boa que Miguel sentiu em vinte e quatro horas. Ele desligou e, minutos depois, recebeu a mensagem com o nome e o número do advogado. Ele salvou o contato e sentiu uma pequena faísca de controle sobre sua própria vida retornar. Era o primeiro passo.
Enquanto ele estava no escritório, ouviu a voz de Ana vinda da sala. Ela estava no telefone. E o tom dela era completamente diferente. Era doce, suave, quase submisso.
"Sim, meu amor... Eu sei... Ele reagiu mal, como eu esperava... Não, não, não se preocupe com isso. Eu vou resolver. Vou convencê-lo. Ele sempre faz o que eu quero no final... Sim, eu também te amo. Cuide-se."
Miguel sentiu o estômago revirar. "Ele sempre faz o que eu quero no final." Era assim que ela o via. Um fantoche, um tolo fácil de manipular. A confirmação de sua conversa com Pedro foi a última pá de cal em qualquer dúvida que ele pudesse ter. Ele se levantou, a determinação queimando dentro dele.
Ele saiu do escritório. Ana estava de costas para ele, guardando o celular. Quando se virou e o viu, seu rosto mudou. A doçura desapareceu, substituída por uma expressão de impaciência.
"Ah, você está aí," ela disse, o tom frio. "Estava falando com o Pedro. Ele não está bem hoje. O médico disse que ele precisa de mais exames, e o tratamento não está funcionando como deveria."
Ela fez uma pausa, olhando para ele como se estivesse avaliando sua reação.
"Precisamos de mais dinheiro, Miguel. Para o tratamento dele. Use suas economias. As que você guarda para sua 'consultoria dos sonhos'."
A audácia dela era inacreditável. Ela não estava apenas pedindo, estava exigindo. Exigindo que ele usasse o dinheiro que economizou por anos, o dinheiro para seu futuro, para o futuro que ela destruiu, para salvar o homem com quem ela o traiu. Ela já não o via como um marido, mas como um obstáculo a ser superado, uma fonte de recursos a ser explorada até secar. Naquele momento, Miguel não sentia mais dor ou tristeza. Apenas uma raiva fria e uma determinação de aço. A guerra havia começado.
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