
Traição e Vingança: O Preço do Amor
Capítulo 3
O terceiro ano do meu casamento com Sofia parecia perfeito. A casa estava sempre arrumada, o cheiro de café fresco me acordava pela manhã e Sofia me tratava com uma devoção que beirava a adoração. Meus pais, embora ainda fragilizados, estavam se recuperando bem em uma clínica especializada que Sofia insistiu em pagar. Eu me sentia culpado por ser feliz, mas estava desesperadamente grato.
Naquela noite, eu cheguei em casa mais cedo. A porta estava entreaberta e ouvi vozes vindo do escritório. Era Sofia, e a outra voz pertencia a Lucas. O tom deles era baixo, conspiratório.
"Ele ainda não suspeita de nada?", perguntou Lucas.
Parei no corredor, meu coração começando a bater mais forte.
"Não", respondeu Sofia. Sua voz, normalmente tão doce e suave, tinha um tom metálico e frio que eu nunca tinha ouvido antes. "Ele é um idiota. Acredita em cada palavra que eu digo. Acha que sou a salvadora dele."
Um calafrio percorreu minha espinha. Do que eles estavam falando?
Lucas riu, um som baixo e desagradável. "Bom. Três anos. A vingança está quase completa. Logo ele não terá mais nada. E tudo será nosso."
"Não se trata apenas do dinheiro, Lucas. Trata-se de fazer João Carlos pagar pelo que fez a você, pelo que ele causou aos nossos pais."
A vingança. Nossos pais. Meu cérebro tentava processar a informação. Que vingança? Eu nunca fiz mal a Lucas. E o que os pais delas tinham a ver com isso? Eu sabia que eles haviam morrido em um acidente anos atrás, muito antes de eu conhecer Ana Paula.
Então, Sofia disse a frase que quebrou meu mundo em um milhão de pedaços.
"Ele precisa sofrer como nós sofremos. Ele intimidou você a vida toda, Lucas. E por causa dele, mamãe e papai estão mortos. Ele vai pagar por isso, eu juro."
Eu me apoiei na parede para não cair. A sala começou a girar. Tudo era uma mentira. A bondade, o amor, a salvação. Era tudo um plano. Um plano de vingança por algo que eu nunca fiz. Eu não era o agressor na nossa infância, eu era a vítima. Lucas me atormentava, me batia, roubava meu lanche. E os pais delas? Como eu poderia ter causado a morte deles?
Eu me senti um completo imbecil. Como pude ser tão cego? Como pude acreditar que Sofia, a irmã da mulher que me apunhalou pelas costas, era diferente? A dor da traição era mil vezes pior desta vez, porque eu havia baixado a guarda, havia entregado meu coração ferido a ela, acreditando que estava seguro.
Eu respirei fundo, forçando o ar para dentro dos meus pulmões. Eu não podia deixá-los saber que eu tinha ouvido. Precisava manter a calma, fingir que nada havia acontecido.
Empurrei a porta e entrei no escritório com um sorriso forçado no rosto.
"Oi, amor. Oi, Lucas. Não sabia que você estava aqui."
Sofia se virou bruscamente, seus olhos se arregalando por uma fração de segundo. Vi um lampejo de pânico em seu rosto, mas ele desapareceu tão rápido quanto surgiu. Ela era uma atriz talentosa.
"Querido!", ela disse, vindo me abraçar. O abraço dela, que antes me confortava, agora parecia o de uma serpente se enrolando em mim. "Você chegou cedo. Lucas veio apenas trazer uns documentos do trabalho."
Lucas acenou com a cabeça, seu rosto uma máscara de normalidade. "E aí, João. Tudo bem?"
"Tudo ótimo", menti, o sorriso parecendo colado no meu rosto. "Vou tomar um banho. Tive um dia longo."
Enquanto eu subia as escadas, senti os olhos deles nas minhas costas. No banheiro, tranquei a porta e me olhei no espelho. O homem que me encarava de volta parecia um estranho, um tolo com os olhos vazios de quem acabou de descobrir que sua vida inteira é uma farsa.
Quando voltei para o andar de baixo, Lucas já tinha ido embora. Sofia estava na cozinha, preparando o jantar. Ela se virou para mim com um sorriso radiante.
"Fiz seu prato favorito", disse ela.
Ela se aproximou e me beijou. Foi um beijo frio, calculado.
"Amanhã temos o jantar de gala da empresa", ela continuou, passando os dedos pelo meu braço. "Você precisa estar no seu melhor. Quero que todos vejam o marido maravilhoso que eu tenho."
Sua mão apertou meu braço com um pouco mais de força. Era uma carícia, mas também um aviso. Ela ainda estava no controle. E eu, por enquanto, precisava deixá-la acreditar nisso.
Você pode gostar





