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Capa do romance Traição e Renascimento

Traição e Renascimento

Pedro e eu éramos o casal que todos admiravam, dez anos de conto de fadas, uma vida construída com amor e promessas. Mas então, uma foto anônima chegou ao meu celular, revelando Pedro em um restaurante, os olhos cheios de ternura para outra mulher, a secretária dele, Sofia. Meu mundo desabou em um zumbido ensurdecedor, o estômago revirado pela náusea da traição. O suco de abacate que ele oferecia a ela, o mesmo que eu odiava, era um símbolo cruel da sua duplicidade. Como ele pôde? Todas as mentiras, o celular sempre desligado, as desculpas esfarrapadas para as datas esquecidas… Eu era uma idiota por acreditar, uma boba por amar tanto. Agarrei-me ao peito, vomitando não só o café da manhã, mas também os dez anos de farsa. Eu havia perdido a mim mesma, a Clara cheia de garra. Mas agora, eu renascia das cinzas, mais forte. Quando ele chegou em casa, cansado e alheio, oferecendo-me um batido verde, o mesmo tom do suco da foto, o desgosto me invadiu. "Eu não gosto de abacate", eu disse, a voz calma, fria. "Você sabe disso." Ele tentou me abraçar, mas o meu corpo se tornou uma estátua de gelo, e a frieza nas minhas palavras o chocou profundamente. Uma tempestade externa espelhava a turbulência dentro mim, e cada gesto dele, cada toque, deixou marcas invisíveis de repulsa. No momento seguinte, o celular dele tocou, era a Sofia. "Tenho que ir, é urgente", ele disse, correndo porta afora, sem olhar para trás. Ele ia para ela, a mulher que era a sua verdadeira "urgência" . Sozinha na escuridão, a palavra "urgente" ecoava, agora vazia para mim. A febre me derrubou, a dor física da traição me consumindo, até que o conforto familiar me fez desabar. Minha mãe me abraçou, mostrando-me desenhos antigos, lembrando-me da garota vibrante que eu era. Ao ver meu eu passado, chorei não só por Pedro, mas por mim mesma, por ter me perdido. Naquela noite, eu respirei. A Clara estava de volta. Em nosso apartamento, cada objeto carregava uma história, agora manchada. Dez anos de risos e lágrimas, agora apenas uma pilha de memórias dolorosas. Quando Pedro entrou, vi seus olhos cansados, mas a minha voz saiu firme e clara: "Pedro, vamos nos divorciar." A incredulidade virou raiva em seu rosto e ele agarrou meu pulso. "O que você está dizendo? Está brincando comigo?" Eu me soltei. "Eu não estou brincando. Eu quero o divórcio." Ele bufou, tentando me manipular com falsas promessas de férias. "Clara, chega de dramas. O que você quer? Mais atenção?" Eu sorri amargamente. "Não preciso das suas promessas vazias. Eu quero uma parte maior do nosso patrimônio. Afinal, você é a parte culpada." Sua arrogância desmoronou. "Clara, não exagere. Não seja ridícula. Não há necessidade de levar as coisas a este extremo." Sua condescendência me atingiu profundamente. Ele não sabia a dor que me causara. "Pedro, por que você tinha tanta certeza de que eu nunca te deixaria?" Ele gaguejou. E então, eu disse: "Sofia." A palavra o atingiu como um soco. Ele ficou pálido, chocado. "Como você sabe?" "Não importa como eu sei", eu disse, jogando as fotos na mesa. Fotos dele e Sofia, rindo, se beijando. O suco de abacate. Ele caiu de joelhos. "Me desculpa, Clara, me desculpa." Olhei para ele sem emoção. "Quando você cozinhava para ela, usava as mesmas receitas? Quando secava o cabelo dela, era com o mesmo cuidado? Quando ela tinha cólicas, fazia o mesmo chá de gengibre?" Seu silêncio era a resposta. "Eu poderia ter aceitado o fim do nosso amor", eu disse, a voz cortante. "Mas não posso aceitar que o amor que me deste, a atenção que me dedicaste, tenha sido partilhada com outra pessoa. Isso é nojento." "Para, por favor, para de falar", ele suplicou, lágrimas escorrendo. "Você não pensou em mim quando estava com ela", eu retruquei. "Por que devo te poupar agora?" Ele agarrou minha mão, suas lágrimas quentes na minha pele. "Eu faço qualquer coisa para te compensar. Por favor, me dê outra oportunidade." "Não há nada que possa fazer", eu disse, puxando minha mão. "Eu me amo mais do que te amo." Eu o deixei ali, de joelhos, suas palavras de dor um murmúrio derrotado. A casa desabou, mas eu me senti livre. Com o divórcio em mãos, senti o peso sair dos meus ombros. Postei uma foto do documento: "Finalmente livre. Celebrando minha nova vida." O celular vibrava com mensagens de apoio. Sofia havia visto a publicação, seu avatar a vista da janela do escritório dele. Ela não era o problema. Ele era. Minha amiga Rafaela exultou. "Graças a Deus! Você está bem?" Eu estava, e estava pronta para viajar, para recomeçar. A divisão dos bens foi fácil; ele aceitou tudo, consumido pela culpa. No escritório, recebi estrelícias azuis, minhas flores preferidas. Sem cartão. Nos dias seguintes, mais flores, o mistério crescendo. Uma mensagem anônima chegou. "Gostou das flores? Gostaria de te encontrar. Estarei no parque de diversões à beira-rio, ao pôr do sol." Eu fui. Lá, uma figura alta, com um redemoinho familiar no cabelo, olhava o rio. Era Pedro. Mas o Pedro de dezoito anos. Eu estava em choque. "Pedro?", minha voz mal saiu. Ele sorriu, os olhos brilhando com uma luz que eu não via há anos. "Olá, Clara. Sou eu." "Você... você tem dezoito anos", gaguejei. "Eu sei. Eu só acordei aqui. Mas fui eu que te enviei as flores." Ele me beijou a mão, colocou um chapéu de palha feito por ele na minha cabeça. "Eu ainda te amo." Instintivamente, ele me puxou para protegê-la de alguns motoqueiros. Senti a segurança que há muito perdera. Na roda-gigante, a cidade se estendia abaixo. Ele me perguntou: "Clara, se você soubesse o final da história, você ainda teria começado?" A pergunta pairou no ar. Minha resposta agora era diferente. "Obrigada", eu disse, a voz cheia de emoção. "Obrigada por me amar, por me ensinar. Por fazer parte da minha vida." Ele chorou, pedindo desculpas pelo seu eu futuro. "Por favor, Clara. Dê-lhe outra oportunidade." "Porque amar alguém é não querer machucá-lo", eu disse, a voz firme. "Seu eu futuro me machucou repetidamente. Minha vida é sobre respeito próprio, felicidade, paz. Não vou sacrificar tudo isso por um homem que não me merece." Ele sorriu tristemente, seu corpo ficando transparente. O sino da torre do relógio soou à meia-noite. "Adeus, Clara", ele sussurrou antes de desaparecer. "Seja feliz." Eu estava sozinha, mas com o coração em paz. O passado havia ficado para trás. Minha vida voltou ao normal. Pedro continuava a implorar, a enviar flores que eu jogava fora. Ele não entendia que era tarde demais. No jantar com Thiago e Camila, meus cúmplices involuntários, levantei meu copo. "Vocês não têm culpa. Vocês me abriram os olhos." Fora do restaurante, Pedro nos bloqueou. "Clara, precisamos conversar." Camila o confrontou, mas eu a detive. "Deixe. Eu cuido disso." Olhei para ele com calma fria. "Diga o que você tem a dizer." Ele tirou uma pasta cheia de documentos, oferecendo tudo. "Tudo o que tenho. Como garantia de que nunca mais te trairei." Eu nem olhei para os papéis. "Você acha que isso muda alguma coisa? Acha que dinheiro pode apagar o que você fez?" Minha voz baixava para um sussurro intenso. "Naquele dia, com ela, você pensou em mim? Ou pensou na Sofia, que gosta de abacate?" Ele não conseguiu responder. "Você é nojento, Pedro. Você é sujo." Virei as costas, deixando-o ali, estilhaçado, percebendo a enormidade do que havia perdido. O sol brilhava. No café, Rafaela sorriu. "Você está brilhando, amiga. O divórcio te fez bem." "Eu me reencontrei", eu disse. Levantei meu copo. "Um brinde a mim." Na selfie, eu era vibrante, cheia de vida, a Clara que tinha voltado, mais forte do que nunca. No vazio de seu apartamento, Pedro olhava para a lista das "100 coisas para fazer com a pessoa amada". A felicidade havia se tornado desconforto, um prazer perverso em machucá-la. Agora, o arrependimento o sufocava. "Me desculpa, Clara", ele sussurrava. Ele a via de longe, recebendo prêmios, fazendo doações. Ela voava, enquanto ele se afundava na miséria. Seu primo assumiu a empresa. Ele passava os dias em casa, com depressão, revivendo as memórias. Ele sabia que a havia perdido para sempre. Seu único consolo: o amor que ainda sentia, sua tortura e sua penitência. O Jovem Pedro acordou num quarto luxuoso, um homem mais velho com seu próprio rosto o encarava no espelho. "Quem é você?", o Jovem Pedro perguntou. "Eu sou você, daqui a dez anos", o Pedro mais velho respondeu, um sorriso cínico. O eu mais velho contou-lhe tudo de sua traição, de como ele havia destruído Clara.Uma raiva cega tomou conta do Jovem Pedro. "Como se atreveu a machucá-la?" Ele o derrubou com um soco. Ele fugiu daquele futuro de pesadelo, sua única preocupação era proteger Clara. Enviava flores a ela, aquelas que sabia que ela amava, para dizer que seu amor ainda era puro. Quando finalmente a viu, o coração acelerou. Havia uma tristeza em seus olhos que o partiu ao meio. No topo da roda-gigante, a dor lancinante da sua recusa foi acompanhada por um estranho alívio. Ela estava se protegendo, escolhendo sua própria felicidade. Seu corpo começou a desaparecer. "Que a minha pessoa mais amada, no lugar que eu não posso ver, esteja bem e feliz", ele sussurrou. E então, ele se dissolveu, deixando para trás apenas o amor, uma memória tenra do que já foi.
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Capítulo 3

Há dez anos, Clara esperava por Pedro debaixo de uma grande árvore de flamboyant no campus da universidade. As flores vermelhas caíam com a brisa, cobrindo o chão com um tapete carmesim. Ela sentia um friozinho na barriga, uma mistura de ansiedade e excitação. Era o primeiro encontro deles.

Ele estava atrasado. O sol se punha lentamente no horizonte, e a ansiedade de Clara transformava-se em preocupação. Ela começou a andar de um lado para o outro, olhando constantemente para a entrada do campus. Onde ele estaria? Teria acontecido alguma coisa? A preocupação apertava-lhe o coração.

De repente, ela viu uma figura a correr na sua direção. Era Pedro, com o cabelo desgrenhado e o rosto corado pelo esforço. Ele parou à sua frente, ofegante, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a abraçou com força.

"Desculpa, desculpa, desculpa," ele disse, com a voz abafada no cabelo dela. "Eu perdi a noção do tempo. Por favor, não fiques zangada."

O abraço dele era quente e forte, e o cheiro a sabão e a suor juvenil enchia os seus sentidos. A preocupação de Clara evaporou-se, substituída por um sentimento de alívio e calor.

Ele afastou-se um pouco, com as mãos nos ombros dela, e olhou-a nos olhos. "Eu estava a fazer uma coisa para ti."

Ele tirou um par de chinelos de um saco de lona. Os chinelos eram tecidos à mão com palha, com pequenas flores bordadas na parte da frente. Eram simples, mas feitos com um cuidado óbvio.

"Eu sei que gostas de andar descalça em casa, mas o chão é frio," disse ele, com o rosto um pouco vermelho. "Eu aprendi a fazer isto com a minha avó. Espero que gostes."

Clara sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Ninguém nunca tinha feito nada tão atencioso por ela. Ela pegou nos chinelos, sentindo a textura áspera da palha e a suavidade das flores bordadas.

Naquele momento, Pedro olhou para ela com uma expressão séria e disse: "Clara, prometo-te. Não importa o que aconteça no futuro, não importa o quão ocupado eu esteja, eu nunca vou deixar que me procures e não me encontres. Se alguma vez eu não atender o telefone, é porque deve ter acontecido algo muito grave. Mas eu vou sempre encontrar uma forma de te avisar. A comunicação é a base de um relacionamento, e eu nunca vou quebrar essa base."

A sua expressão era tão solene, a sua voz tão firme, que Clara acreditou em cada palavra. Ela acreditava que este rapaz à sua frente, este rapaz que tinha corrido até ela ofegante, que lhe tinha feito chinelos à mão, que lhe tinha feito uma promessa tão séria, seria o seu príncipe encantado para sempre.

Ela guardou essa promessa no fundo do coração, como um tesouro precioso. Durante dez anos, ela acreditou nela, confiou nela. Acreditava que o amor deles era forte o suficiente para superar qualquer obstáculo.

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