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Capa do romance Traição e Dor Infindável

Traição e Dor Infindável

Em meio ao carnaval, Maria vive um pesadelo: sua filha Clara desaparece sob os cuidados da cunhada, Sofia. A angústia cresce quando João, seu marido, defende Sofia e revela uma traição sórdida. O horror atinge o ápice com a notícia da morte de Clara e a descoberta macabra de que João consumiu os restos da filha em doces feitos pela amante. Traída pela família e pela justiça, Maria busca vingança contra os culpados antes de tentar reconstruir sua vida sobre os escombros da dor.
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Capítulo 2

O barulho do carnaval lá fora era uma batida distante, um som oco que não conseguia penetrar a bolha de ansiedade que crescia dentro de mim. O cheiro de festa, de fritura e de cerveja, entrava pela janela aberta, mas para mim, só trazia uma sensação de mal-estar.

Minha filha, Clara, deveria ter voltado para casa há horas.

Sofia, minha cunhada, a levou para pular carnaval com o filho dela, Pedro. A promessa era simples: "Fica tranquila, Maria. Devolvo ela antes de anoitecer".

O sol já tinha se posto, e a rua, antes cheia de luz, agora era um breu cortado pelas luzes coloridas dos trios elétricos que passavam ao longe.

Peguei o celular pela vigésima vez. O nome de Sofia na tela parecia zombar de mim. Respirei fundo e liguei. Chamou, chamou e caiu na caixa postal.

Uma pontada de pânico me atingiu. Tentei de novo. E de novo.

Nada.

Meu coração começou a acelerar. Andei de um lado para o outro na sala, o piso frio sob meus pés descalços não me acalmava. Onde elas estavam? Por que Sofia não atendia? Um acidente? Um sequestro? Milhares de cenários terríveis passaram pela minha cabeça em segundos.

Finalmente, depois de quase uma hora de tortura, meu celular tocou. Era ela. Atendi no primeiro toque, a voz saindo trêmula.

"Sofia? Onde vocês estão? Aconteceu alguma coisa? Cadê a Clara?"

Do outro lado, a voz de Sofia era calma, quase sonolenta. Um contraste assustador com o meu desespero.

"Calma, Maria, que estresse. Tá tudo bem."

"Tudo bem? Onde vocês estão? Já é noite, Sofia!"

"Ah, a gente se empolgou na festa e viemos direto pra minha casa de praia. As crianças estavam exaustas, já até dormiram. O Pedro não queria se separar da Clara."

Meu corpo inteiro gelou. Casa de praia? Sem me avisar?

"Como assim, casa de praia? Você devia ter me ligado, Sofia! Eu fiquei desesperada aqui!"

"Ah, desculpa, cunhada. Meu celular ficou sem bateria, só carregou agora. Mas fica tranquila, amanhã de manhã eu levo ela. Elas estão ótimas, dormindo como anjinhos."

Ela falava com uma leveza que me irritava profundamente. Não parecia se importar com a minha aflição.

Antes que eu pudesse protestar mais, a porta da frente se abriu. João, meu marido, entrou. Ele cheirava a álcool e seu rosto estava vermelho. Ele me viu ao telefone, com a cara de pânico, e franziu a testa.

"O que foi agora, Maria da Luz?"

Desliguei o telefone com Sofia, a raiva borbulhando junto com o alívio de saber que Clara estava, supostamente, segura.

"A Sofia levou a Clara pra casa de praia dela. Sem me avisar. Eu passei a noite inteira ligando, desesperada."

João deu de ombros, jogando as chaves na mesinha de centro. Ele abriu um pote de plástico que estava sobre a mesa, um que eu não tinha notado antes.

"E qual o problema? A Sofia cuida bem dela. Você sabe disso. Para de ser neurótica."

Aquelas palavras me atingiram como um soco. Neurótica. Ele sempre usava essa palavra quando eu expressava qualquer preocupação que não se alinhasse com a vontade dele.

Ele pegou um dos doces de coco do pote e colocou na boca, mastigando com satisfação.

"Nossa, essa cocada da Sofia é a melhor do mundo. Você devia experimentar."

"Eu não quero, João. Eu só quero a minha filha em casa."

Ele revirou os olhos, pegando outro doce.

"Maria, a Sofia é minha única família agora, depois que meu irmão morreu. Ela é a mãe do meu sobrinho. Você tem que confiar nela. Ela jamais faria mal à Clara. Para de desconfiar de todo mundo."

Ele falava de Sofia com um carinho, uma defesa, que ele nunca usava para mim. Meu estômago se revirou. Lembrei de uma vez, meses atrás, quando João chegou tarde de uma "reunião de trabalho". No dia seguinte, encontrei um recibo de um restaurante caro no bolso da calça dele, um lugar que ele dizia ser muito caro para nós. Na mesma semana, Sofia postou uma foto usando um vestido novo, com a legenda "noite especial". Eu confrontei João, mostrei o recibo. Ele explodiu. Disse que eu estava louca, que era uma coincidência, que eu estava tentando destruir a relação dele com a única família que lhe restava. Eu me encolhi, pedi desculpas e nunca mais toquei no assunto. A paz em casa tinha um preço: meu silêncio.

Agora, olhando para ele devorando aqueles doces, a mesma sensação de impotência me invadiu. Eu queria gritar, queria dizer que o instinto de uma mãe não mente, que havia algo errado naquela calmaria toda da Sofia, naquela viagem repentina.

Mas eu não disse nada. Apenas me virei e fui para o nosso quarto.

Tentei ligar para a casa de praia de Sofia. O telefone chamou incessantemente, mas ninguém atendeu. Como podiam estar dormindo tão profundamente? Sofia não disse que tinha acabado de carregar o celular? Por que não atendia o telefone fixo?

Sentei na beira da cama, meu corpo tremendo. João entrou no quarto, ainda mastigando.

"Você não vai ligar pra lá de novo, vai? Deixa elas em paz, Maria. Amanhã a Clara tá aqui."

Ele se aproximou, tentou me abraçar, mas o cheiro de coco vindo do hálito dele me deu náuseas. Eu o empurrei.

"Não toca em mim."

Ele suspirou, um som de irritação.

"Você é impossível."

Ele se virou e saiu do quarto, provavelmente para pegar mais daquela cocada maldita. Eu fiquei sozinha no escuro, o som distante da festa de carnaval agora parecendo uma marcha fúnebre. Um pressentimento terrível se instalou no meu peito, pesado e frio. Eu não conseguia nomeá-lo, mas sabia, com cada fibra do meu ser, que algo estava muito, muito errado. E a indiferença de João, sua defesa cega de Sofia, só tornava tudo pior. Eu estava sozinha naquela agonia.

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