
Traição e Azulejos Quebrados
Capítulo 3
Inês mandou-me uma mensagem.
"Estás a ir para lá? Diz-me que estás a ir para lá."
Não respondi. Apenas pedi um carro pela aplicação e dei a morada da casa de Fados em Alfama.
O motorista olhou para mim pelo espelho retrovisor, provavelmente a notar a minha expressão. Não disse nada.
Cheguei em menos de vinte minutos. O som do Fado e dos aplausos derramava-se pela rua estreita e empedrada. Hesitei por um momento à porta, o coração a bater descontroladamente. Depois, respirei fundo e entrei.
Ninguém reparou em mim no início. Estavam todos focados no palco, no casal feliz. Tiago tinha-se levantado e abraçava Carolina, que chorava de alegria no seu ombro. O painel do meu pai brilhava atrás deles, um espectador silencioso da minha traição.
Carolina olhava para a multidão com um sorriso triunfante nos lábios, os olhos a brilhar. Aceitou os parabéns com uma graciosidade estudada, como se tivesse nascido para aquele momento.
A multidão, no entanto, não estava tão eufórica como eles esperavam. Havia aplausos, sim, mas eram educados, contidos. Vi alguns dos colegas mais antigos de Tiago a trocarem olhares desconfortáveis. Eles conheciam-me. Tinham estado em jantares na nossa casa. Sabiam da nossa história.
"Então e a Sofia?", ouvi alguém perguntar em voz baixa.
Tiago, que estava a descer do palco com Carolina pela mão, ouviu a pergunta. O seu sorriso vacilou por um instante.
"A Sofia e eu acabámos," disse ele, em voz alta, para que todos ouvissem. "Foi uma decisão mútua. Encontrei o amor verdadeiro com a Carolina. Ela precisa de mim. A Sofia... a Sofia não precisa de ninguém."
A justificação dele pairou no ar, carregada de falsidade. A multidão ficou em silêncio. Ninguém aplaudiu esta declaração. O desconforto era palpável.
Tiago ficou furioso com a falta de apoio. "O que foi? Não ficam felizes por mim?"
Ninguém respondeu. Eles olhavam para ele, depois para Carolina, e a desaprovação era clara nos seus rostos. Durante anos, eles viram-me ao lado dele, a apoiá-lo, a ajudá-lo a construir a empresa. Eles sabiam o que eu tinha sacrificado. E agora, viam-no a descartar-me publicamente por uma estagiária.
Foi nesse momento que decidi avançar.
Comecei a aplaudir.
Lenta, ritmicamente. O som ecoou no silêncio constrangedor.
Todas as cabeças se viraram na minha direção.
Os olhos de Tiago arregalaram-se de pânico quando me viu.
"Sofia?"
Carolina agarrou-se ao braço dele, o seu rosto a contorcer-se numa máscara de falsa vulnerabilidade. "Tiago, quem é ela? Está a assustar-me."
Ignorei-os. Caminhei calmamente até ao palco, subi os degraus e peguei no painel de azulejos do meu pai.
Virei-me para eles.
"Parabéns pelo noivado," disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. "Desejo-vos toda a infelicidade que merecem."
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