
Thiago, Tarde Demais Para o Amor
Capítulo 2
Meu marido, Ricardo, é um bobo.
Quando nosso filho, André, ainda não tinha completado dois anos, ele segurava as duas tigelinhas de comida do menino e não as largava, com medo de que a comida esfriasse.
Quando André completou quatro anos, ele se dedicou a cultivar um pequeno jardim em nossa casa, plantando e regando flores só porque o menino disse que gostava.
Agora, meu filho tem cinco anos, e a vida que levo é tranquila e feliz.
Eu sou a sacerdotisa de nossa vila, uma posição de respeito, e Ricardo é o protetor da vila, um homem que todos admiram.
Nossa vida é simples, longe do barulho da cidade grande, cheia de paz.
Hoje, no entanto, precisei quebrar essa paz. Havia uma feira de negócios importante na cidade, uma oportunidade para conseguir melhores recursos para nossa vila e para a escola das crianças.
Deixei André com uma vizinha de confiança e fui com Ricardo.
Eu não esperava, de jeito nenhum, encontrar Thiago lá.
Faz seis anos que não o vejo.
Seis anos desde que meu coração morreu e eu fugi de tudo que ele representava.
Ele estava exatamente como antes, segurando um rosário budista na mão, o olhar distante, como se estivesse acima de todos os mortais.
Ele me viu.
Seus olhos, que antes eram meu mundo inteiro, me fixaram.
Ele caminhou em minha direção, e o murmúrio da feira de negócios pareceu diminuir.
"Sofia, você não disse que não nos veríamos mais depois de terminar?"
A voz dele era fria, cortante.
"Já se passaram seis anos, por que você ainda é tão sem vergonha a ponto de me perseguir até aqui?"
Sua acusação foi pública, alta o suficiente para que todos ao nosso redor ouvissem.
Imediatamente, dezenas de olhares curiosos se voltaram para mim.
As pessoas começaram a cochichar.
"É ela? A mulher que perseguiu o mestre Thiago por anos?"
"Parece que sim. Achei que ela tivesse desaparecido."
"Será que ela vai pedir para reatar? Que audácia."
Senti o peso dos olhares, a pressão das fofocas. Afinal, minha história com Thiago era notória no círculo deles. Eu, a mulher que usou de todos os artifícios para conquistar o "transcendental" Thiago, o herdeiro que havia se tornado monge.
A mulher que, segundo os boatos, foi expulsa por ele para proteger a pureza de sua irmã adotiva.
A mulher que, mesmo após um aborto, foi forçada por ele a doar sangue para essa mesma irmã.
Essas memórias dolorosas voltaram com força, mas eu as empurrei para o fundo da minha mente.
Eu não era mais aquela garota.
Olhei para Thiago em silêncio.
Ele me encarou, e então, um gesto que me chocou. Ele tirou um anel de diamante do bolso. O estilo era antiquado, fora de moda.
Era o anel que eu mais amava seis anos atrás.
Ele o jogou aos meus pés, o metal e a pedra batendo com um pequeno ruído no chão polido.
O som pareceu ecoar no salão.
"Pegue e coloque", ele disse, a voz cheia de uma arrogância insuportável. "Eu posso me casar com você."
A humilhação era palpável. Ele não estava propondo, estava me dando uma ordem, como se estivesse fazendo um grande favor a um cachorro de rua.
Todos prenderam a respiração, esperando minha reação.
Esperando que eu me curvasse, pegasse o anel e chorasse de gratidão.
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