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Capa do romance Tempo de mudanças

Tempo de mudanças

Após uma discussão acalorada terminar em demissão, a vida de Ana vira de cabeça para baixo. Forçada a recomeçar em meio a crises pessoais, ela busca novos horizontes enquanto lida com um executivo de temperamento difícil. O destino, porém, reserva um amor inesperado e indesejado. Agora, ela precisa decidir se consegue superar mágoas profundas e o rancor que nutre pelo homem que conquistou seu coração. Será Ana capaz de abraçar essa mudança?
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Capítulo 2

Acreditou que após a reunião a equipe do Juliano, voltaria logo à matriz, mas observou que após uma semana, os dois diretores adjuntos se foram, mas o Juliano ainda permanecia na empresa.

Dez anos trabalhando tinha encontrado o Ceo raramente, apertou sua mão uma vez quando ele participou de uma premiação na matriz, mas ela não tinha boa lembrança, pois ele pouco interagiu com os gerentes e limitou-se a falar apenas com seus diretores.

Na festa da premiação alguns gerentes sentados à sua mesa tiveram a coragem de ir conversar com ele, bom, pelo menos tentar, pois ele nunca teve cara de bons amigos e tratou de dar uma desculpa qualquer e virar as costas para eles.

Os gerentes voltaram para sua mesa decepcionados e passaram o resto da noite falando mal do homem. Naquela festa ela nem se incomodou de perder seu tempo, não era de seu feitio ir bajular, continuou comendo os ótimos canapés e bebendo champagne que rodava livremente pela mesa, pelo nervosismo quase tomou um porre, mas soube parar antes de passar vergonha.

Depois dançou com um colega de outra sede, que fez amizade num treinamento, não havia muitas mulheres na sede, para piorar ela era a mais jovem, inclusive naquela ocasião ganhou o prêmio por ser a mais jovem gerente da empresa e outro por ter conseguido alcançar a meta de redução de matéria prima, num trabalho que realizou para uma pós-graduação.

Já tinha ido várias vezes à matriz e trabalhou lá em algumas ocasiões por semanas, mas nunca tinha sido recebida por ele, ou participado em uma reunião em que ele se encontrasse, até porque não tinha uma posição de alta chefia,era apenas uma gerente de produção.

Eventualmente o viu andando apressado por algum corredor na matriz, e uma vez quase tinha sido atropelada por ele, mas por óbvio ele nunca se lembraria do acontecido, que lhe fez rasgar uma calça cara, pois ao correr para sair de seu caminho e não ser atropelada acabou caindo na calçada, isso rendeu risos dos colegas de curso que a acompanhavam na volta do almoço.

Dentro de seu Bentley blindado, pensou ela, nem deve notar os pobres mortais, desde aquele dia, juntou dinheiro para trocar de carro, apesar de que seu SUV querido nem chegar perto de um Bentley, daria um belo susto roncando alto o motor e tinha planejado um dia estacionar na vaga do chefão quando fosse fazer treinamento na matriz.

Nos informativos da empresa ele sempre estampava as capas, estava eventualmente viajando fora do país, inaugurando alguma planta nova, tratando de expandir os negócios, raramente ele se dignava a acompanhar a transição nas chefias das filiais, na filial dela tinha sido a primeira vez que ele pisava.

Por isso via com mais desconfiança e descrédito ele acompanhar as fusões e demissões mais imediatas de outros diretores, isso também fez com que a empresa entrasse em um clima tenso. Algumas pessoas desconfiaram de sua demissão, a rádio corredor ficou muito ativa nas suas duas últimas semanas.

Algumas pessoas não acreditavam na sua demissão e passaram a divulgar que ela tinha aceito secretamente uma proposta na matriz, não sabia de onde mas outros espalhavam que ela tinha ganhado uma bolsa para estudar fora, bom esse boato surgiu quando ela conversava com uma colega na sala de café, sobre uma bolsa que tinha ganhado da mãe que acabara de retornar de um cruzeiro no natal.

Ela já estava contando os segundos para deixar a empresa, enviado muitos currículos, feito algumas entrevistas, até recebeu uma proposta em uma empresa pequena que estava buscando expansão, já estava quase fechando com chave de ouro, quando na última segunda-feira, o Ceo adentrou sua sala, já vazia para a posse do novo chefe na sexta, enquanto ela limpava, literalmente, com pano e álcool a mesa.

Estava com a mesma roupa do dia da reunião, até porque tinha pretendido fazer faxina nos arquivos e coisas pessoais, deixar tudo pronto para a posse do colega, tinha alguns quadros na parede da sala, gostava de limpar ela mesma, tinha medo das faxineiras quebrarem e eles eram muito queridos para ela, lembranças de suas viagens, lugares únicos que visitou.

Os quadros estavam já numa caixa grande de papelão, limpos, faltava apenas embrulhar com plástico bolha, ela estava passando pano no mouse e teclado quando o chefão entrou, ele tossiu como se tivesse alergia ao cheiro de álcool com eucalipto, ela olhou para ele e depois para si, perplexa por ele presenciar aquela cena.

Ele a olhava confuso, tossindo, rapidamente ela fechou o vidro do produto e correu para abrir a janela, também foi buscar um copo d´água para o pobre homem, internamente queria vê-lo morrendo de tanto tossir, mas era religiosa, a sua maneira, acreditava no perdão, afinal logo ela estaria longe num novo desafio, não tinha porque guardar rancor.

Voltou com um copo, ofereceu ao homem, que aceitou sem cerimônia, logo que ele recobrou a voz, pigarreando um pouco, agradeceu a ajuda, e começou uma inquisição: “É Ana, certo?”, “Sim, senhor”, frisou o senhor, ele devia ter em torno dos quarenta anos.

De acordo com a biografia dele, que omitia a idade, disponível nos informativos da empresa, ele comprou a empresa logo após se graduar em administração, quando a rede passou por uma recuperação judicial, após escândalos políticos, envolvendo propinas e muitos diretores presos em operações anticorrupção.

Ele era herdeiro de uma rede petroleira e quis diversificar os negócios da família investindo em tecnologia e produção de bens de consumo, aproveitou o momento, tinha ações em outras empresas, a rede de empresas que administrava atualmente, da qual ele era virou o sócio majoritário, conseguiu reerguer das cinzas, a história do renascimento da empresa, e como ela voltou a ser competitiva, estava até nos livros de administração, como um case de sucesso.

Ele mesmo já tinha escrito dois livros, que ela até comprou, estavam numa das caixas cheias com seus pertences, ele passou os olhos na caixa e viu a edição mais recente, o título em dourado, “Reduzindo custos, ganhando lucratividade”, ela achava muito clichê, mas tinha planejado ler os livros nas horas vagas, não passou do primeiro capítulo, de tão maçante que encontrou a leitura.

Ele orgulhoso, se interessou por seu livro, tirando da caixa e o pegando na mão para folhear, caindo um desenho que a sobrinha tinha feito dela, uma bola com um risco amarelo em cima, um sol e beijo de batom estampado, assinatura da sobrinha, que sempre que ia a sua casa, dava um jeito de detonar as maquiagens brincando de perua.

Constrangida ela juntou a pintura e segurou como se fosse um afresco de Da Vinci, não gostou dele mexer nas suas coisas, achou totalmente desagradável, “lembrança da sua filha?”, ele pergunta olhando um porta-retrato dentro da caixa onde estava ela com a menina no colo ainda bebê, ela fita alguns segundos, achando o cara totalmente sem noção, “não, sobrinha”.

“Realmente, engano meu, li na sua ficha que não é casada e não tem filhos”, ela fica sem reação diante da falta de educação do camarada, “mas muitas mulheres omitem filhos na ficha, pois acham que podem ser demitidas”, completa “tolice na minha opinião, hoje em dia, é totalmente descabido demitir uma mulher por ter filhos”, ela pensou consigo mesmo, que pouco adiantava ter ou não filhos, aquele desalmado ia demitir qualquer um com quem não fosse com a cara, começando por ela.

Ainda se recuperando da informação de que o Ceo tinha lido sua ficha, um silêncio constrangedor se instaurou na sala, pelo que ele se manifestou “Só vim saber como está programada a transição desta chefia, esse setor é estratégico e fiquei preocupado”, antes dela responder qualquer coisa, “mas vejo que ainda está na fase na faxina, então acho que volto outra hora em que o André, é esse o nome do substituto não é mesmo, esteja aqui, assim podemos sentar e conversar um pouco.”

Ela prontamente lhe responde “claro senhor, peço desculpas pela bagunça, mas estou buscando deixar o lugar vago o mais breve possível”, ele se levanta e vai até a pilha de quadros no canto da sala, ela quase tem uma síncope com medo que ele quebre algum, folheia cada um deles, um por do sol em Verona, ela no meio de dois alemães com um caneco de um litro na mão, um artista de rua se apresentando na margem do Senna, ela embrulhada em uma camada de casacos no meio da Times Square no ano novo e se demorando no último, uma foto dela numa cachoeira na Croácia.

“A senhorita viaja bastante”, ela responde altiva “sim, gosto de aproveitar minha vida, conhecendo lugares novos ou velhos de outros ângulos”, “foi muitas vezes à Nova Iorque? Vejo que tem dois quadros de lá, um no inverno e outro no verão”, ele se referia ao outro quadro que ainda estava pendurado, que era o reflexo dos prédios no Central Park em pleno verão.

“Sim, Nova Iorque é uma cidade nova a cada visita” e claro que adorava também fazer compras lá, mas não ia entregar seu lado consumista ao inquisidor à sua frente. “Já planejou onde vai na sua próxima viagem?”, “Sim”, não quis dar o serviço completo, achou ele muito invasivo, afinal não eram amigos, ele estava sendo muito inconveniente, mexendo em suas coisas, lhe fazendo perguntas sobre sua vida pessoal, inclusive lendo sua ficha, ainda mais perguntando o que ela ia fazer agora que estava demitida justamente por causa dele.

Outro silêncio se instaurou enquanto ele contemplava seus quadros, ela tratou de despachar a visita, “Não quero lhe provocar outra alergia, amanhã esta sala já estará desocupada, André deve retornar da filial do centro oeste amanhã.”

“Oh sim, claro, peço desculpas pela intromissão, o que ele está fazendo fora da sede?”, “eu o enviei para que acompanhar uma troca de sistema, acredito que agora ele será o responsável por isso também, vou avisá-lo que o senhor o espera. Qual o melhor horário?” Pegou fôlego depois de praticamente expulsar o chefão, não ia dar espaço para mais intromissão.

“As 15:30 eu passo aqui amanhã, espero tudo em ordem”, “Pode deixar senhor, tudo estará limpo e organizado.” Foi se encaminhando para a porta, quando notou que ele ainda estava com seu livro na mão, o livro podia ter sido escrito por ele e ser uma droga, mas ela tinha pago uma grana por ele, “O senhor pode devolver meu livro?”, “ele olhou para mão que ela indicava incrédulo”, achou que ele nem tinha notado que ainda estava carregando, era impossível que ele não tivesse uma cópia em todo lugar que fosse.

“Nossa, perdão, nem notei, imagino que a senhorita já tenha lido tudo, fico feliz que tenha gostado a ponto de não querer se separar dele”, “muito pelo contrário, não consegui terminar de ler ainda” ela disse isso, pegando o livro e pondo de volta à caixa sem muito cuidado, fazendo barulho ao se chocar com algo metálico lá dentro.

“Até amanhã”, ele virou-se e foi embora, bem contrariado, ela internamente torceu por ele ficar ofendido pelo comentário pelo livro, achou uma leitura chata e sem muita consistência, não ia mentir.

Não terminou o primeiro livro porque tinha pego no sono nas duas vezes que tentou ler o primeiro capítulo, levou ao trabalho na tentativa de conseguir ler no horário de almoço, mas nunca teve tempo ou disposição para lê-lo ali, no fim eles escoravam um porta-retrato que tinha na estante, sua principal serventia agora.

Planejou vender num sebo, por isso não ia se livrar deles agora gratuitamente. Terminou sua faxina, reabrindo o vidro de álcool, rindo internamente de toda a situação, depois mandou uma mensagem ao colega, avisando da reunião no dia seguinte, estava em contagem regressiva, após a faxina, terminou de empacotar as coisas, ia esperar todos saírem para começar a levar suas caixas ao estacionamento.

Tinha planejado fazer isso quando não tivesse testemunhas, pois não queria ninguém sentindo pena, sempre que via essas cenas nos filmes, sentia uma tristeza pelo personagem, não queria que ninguém sentisse tristeza por ela, também não queria despertar curiosos, que iriam bombardeá-la com perguntas inconvenientes, nesta parte pensou no Juliano.

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