
Tarde Demais, Sr. Albuquerque
Capítulo 2
Isa Santos olhou para o e-mail de confirmação.
A passagem só de ida para Milão em nome de Vanessa Melo estava comprada.
Ela suspirou, um misto de alívio e apreensão.
Finalmente, um passo para longe do inferno que seu casamento com Ricardo Albuquerque se tornara.
Anos de dedicação, sonhos de arquiteta postos de lado, tudo por um homem que agora a traía abertamente com uma influenciadora digital fútil.
Seus pais, Afonso, ex-diplomata, e Beatriz, advogada renomada, sempre desconfiaram.
O contrato pré-nupcial com a cláusula de traição era a prova disso.
Uma rede de contatos discreta, herança da carreira deles, era sua garantia de um recomeço.
Isa fechou o laptop.
A calmaria antes da tempestade.
Ela sabia que Ricardo não aceitaria isso facilmente.
O telefone tocou. Número desconhecido.
Ela atendeu, a voz hesitante.
"Isa?"
Era Ricardo. Sua voz, geralmente arrogante, estava estranhamente contida.
"Onde está Vanessa?"
Isa sentiu um arrepio.
"Não sei do que você está falando, Ricardo."
"Não minta para mim, Isabella. Eu sei que foi você."
Um silêncio pesado.
Então, o som de um vídeo começando.
Na tela do seu celular, uma imagem que a fez perder o ar.
Seus pais, Afonso e Beatriz, amarrados a cadeiras numa sala escura e suja.
Um galpão abandonado, parecia.
No canto da tela, um cronômetro digital vermelho marcava 59:58.
"Eles estão numa das nossas fazendas no Mato Grosso. Uma bem isolada," a voz de Ricardo soou fria, metálica.
"Você tem uma hora para me dizer onde Vanessa está. Se não, bem, você sabe que eu cumpro minhas promessas."
O terror paralisou Isa.
Seus pais. Por causa dela.
"Ricardo, por favor, não faça isso! Eles não têm nada a ver com isso!"
"Eles têm tudo a ver com você, não é? Assim como Vanessa tem tudo a ver comigo. Uma troca justa, eu diria."
A lógica distorcida dele era assustadora.
"Você... você realmente faria isso? Depois de tudo?"
A voz dela era um fio.
"Teste-me, Isa. Você sabe que eu não brinco."
A determinação fria dele era inabalável.
Isa fechou os olhos, as lágrimas escorrendo.
O Ricardo que ela amou, que a cortejou com gestos grandiosos, que superou a desconfiança inicial de seus pais com promessas de devoção eterna.
Aquele Ricardo parecia uma miragem distante.
Ele a cobriu de flores, jantares caros, viagens surpresa.
Afonso e Beatriz, sempre protetores, cederam lentamente, encantados pela persistência e aparente sinceridade do herdeiro do agronegócio.
A imagem dele, ajoelhado, pedindo sua mão no mirante do Rio, com um cadeado gravado com suas iniciais, ainda queimava em sua memória.
"Eu te amei, Ricardo. Eu te amei tanto."
Um soluço escapou.
"O amor não paga as contas, querida. E certamente não me traz Vanessa de volta."
Vanessa. A influenciadora.
A primeira vez que Isa descobriu a traição, Ricardo foi desdenhoso.
"É só diversão, Isa. Homens são assim. Você é minha esposa, ela é só... um passatempo."
O nome dela, sussurrado por ele durante o sono, foi a primeira facada.
Depois vieram outras.
A distância emocional dele crescendo a cada dia, a frieza substituindo o calor.
Isa tentou salvar o casamento, implorou, chorou. Em vão.
Ele se tornou um estranho.
A decisão de enviar Vanessa para Milão foi um ato de desespero.
Um último esforço para ter seu marido de volta, ou talvez, para se livrar da fonte de sua dor.
Agora, essa decisão tinha colocado seus pais em perigo mortal.
"Milão," ela sussurrou, derrotada. "Ela está a caminho de Milão. O voo saiu há duas horas."
Ricardo riu, um som seco, sem humor.
"Ótimo. Vou providenciar o retorno dela imediatamente."
Ele não mencionou os pais dela.
"E meus pais, Ricardo? Solte meus pais!"
"Ah, eles? Não se preocupe. Assim que Vanessa estiver segura, eu penso no caso deles."
O desdém na voz dele era palpável.
O cronômetro no vídeo continuava implacável: 45:17.
Isa desligou, as mãos tremendo.
Ela precisava agir. Rápido.
Mas como? Mato Grosso era longe.
Seus contatos. Os contatos de seus pais.
Ela ligou para o número de emergência que seu pai lhe dera anos atrás, "só para o caso de".
Uma voz calma atendeu. Isa explicou a situação, a voz embargada pelo pânico.
Detalhes foram trocados. Localização da fazenda, se possível.
Isa lembrou-se de uma vez que Ricardo mencionou uma "propriedade esquecida" no Mato Grosso. Ela buscou em seus arquivos mentais, em e-mails antigos.
Encontrou uma referência. Enviou.
O tempo passava. Cada segundo uma tortura.
O celular de Ricardo não atendia.
Ela imaginava seus pais, sozinhos, assustados.
A culpa a consumia.
O cronômetro no vídeo chegou a 00:05.
Isa prendeu a respiração.
00:04.
00:03.
Ela fechou os olhos, rezando.
00:02.
00:01.
00:00.
A tela ficou preta.
Um grito ficou preso em sua garganta.
Então, seu celular tocou. Era o número de emergência.
"Senhorita Santos, seus pais estão seguros. Estão a caminho de um local seguro. Houve... um incidente na fazenda. Uma pequena explosão no gerador, parece. Ninguém se feriu gravemente, mas seus pais precisam de cuidados médicos."
Isa caiu de joelhos, o alívio tão avassalador quanto o terror anterior.
Horas depois, ela estava num hospital discreto.
Seus pais estavam sedados, mas vivos. Beatriz tinha um braço quebrado, Afonso alguns cortes e hematomas.
"Foi ele, não foi?" Beatriz sussurrou, a voz fraca, antes de ser sedada novamente.
Isa apenas assentiu, as lágrimas voltando.
"Eu sinto muito, mãe, pai. Eu sinto tanto."
A culpa era um peso esmagador.
Afonso, mesmo grogue, apertou a mão dela.
"Não é sua culpa, querida." Sua voz era rouca. "Nós sabíamos que ele era perigoso."
Beatriz abriu os olhos por um instante. "O contrato, Isa. Lembre-se do contrato."
O contrato pré-nupcial.
A cláusula de dissolução automática em caso de traição. E crueldade. Sequestro certamente se qualificava.
Divisão de bens específica.
Uma luz no fim do túnel.
Isa beijou a testa de cada um.
"Descansem. Eu vou resolver isso."
Ela ligou para seu advogado, o Dr. Almeida, um velho amigo da família.
Explicou tudo. O sequestro, a ameaça, o resgate.
"Ative a cláusula, Dr. Almeida. Quero o divórcio. E quero tudo o que tenho direito."
Havia uma nova determinação em sua voz.
"Considere feito, Isabella. E sobre sua segurança e a de seus pais... Afonso e Beatriz já tinham um plano de contingência. Novos passaportes, documentos. Um recomeço."
Lisboa. O destino que eles sempre sonharam para a aposentadoria.
Agora, seria o destino da fuga deles.
Isa sentiu uma onda de gratidão por seus pais previdentes.
A decisão estava tomada. Não havia mais volta.
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